Naquele lugar branco, triste e pessoas sendo curadas de suas dores,
eu não sou forte o suficiente para poder ficar ali,
meu coração se apertava
a cada passo, a cada pessoa que eu via.
Você estava sentado numa cadeira, olhando lá para fora,
eu estava de longe te observando querendo chorar,
me aproximei e seu sorriso se abriu.
Senti-me quebrada
no mesmo instante que seus braços, agora magros,
me envolveram, não são mais quentes como antes,
sinto dor, sinto a sua dor.
Queria chorar, então, rezei para que você
não chorasse, eu tinha que ser forte,
ser algo que nunca fui por sua dor,
pela minha também.
Desfizemos o abraço, e eu sorri
triste para você, e fui retribuida
igualmente, e mais uma vez,
quis chorar.
"Sente-se, por favor, vamos conversar"Sentei na cadeira ao lado da sua, estava
nervosa, desesperada, queria te pegar
pelo braço e sair correndo dali, ir para
bem longe, espantar todas as suas dores,
enfrentar nossos medos juntos e dizer
que era só contar comigo, que eu estaria
sempre ali.
"Como você está?"
Eu me sentia quebrada, amargurada
queria desabar e dizer que eu sou fraca,
que eu não aguento ver tudo aquilo
em minha volta. Queria fugir para
bem longe dali.
"Bem, e você?"
Irônico.
Conte-me todas as suas dores, chore
e me destrua, parta ao meio meu
coração, me faça sentir mais imbecil.
"Melhor que antes, melhor agora que você está aqui"
Sorri.
Meu coração se apertou e eu quis morrer,
ignorei seus braços que eram quentes,
ignorei seu carinho quando você precisava
da-lo a alguém,
eu preferi a chuva,
eu continuo a amar o estranho.
Conversamos sobre coisas banais,
sobre o dia a dia,
até rimos, pois contamos piadas.
Ah! Os velhos tempos, que saudades
deles. Lembra?
Matamos saudades do que havia se passado.
Matamos o tempo.
" Então, e as sua dor? Não finja o que está tudo bem"
Assustei com a pergunta,
fui supreendida,
mas o segundo seguinte eu
sorri terno, em consentimento.
"O que é a minha dor comparada a sua? "
Silêncio.
" São duas coisas diferentes, e eu sei que no fundo você está com pena. Se sabia que ia sofrer tanto, por que veio?"
Acariciei o seu rosto.
"Perdão, mas eu tinha que vir, se eu não viesse... o que você acharia? Pensaria que eu te esqueci, e não... não é isso, eu quero apenas te mostrar que eu não estou ao seu lado quando as coisas estão boas para você, mas quando estão ruins também. Então, minha dor realmente não importa, não hoje, eu quero saber da sua. Eu sei que você precisa de mim, da pouca força que posso te oferecer, não finja que não."
Ele sorriu, e eu sorri junto.
Não falamos mais nada após isso,
o silêncio se encravou em nossas bocas,
as palavras invadiram nossos pensamentos,
e os sentimentos, nosso coração.
Pegou o único cigarro que estava na janela
e acendeu com o único fósforo que tinha
dentro da caixa.
Encostou a cabeça na grade da janela, e olhou
lá para fora, o olhar entristecido, sério. Quis
falar qualquer coisa, mas as palavras não
saíram, eu as engoli seco. Doía ver aquela cena,
mas me manti firme.
O silêncio me enlouquecia,
aquele olhar me dava pontapés,
socos e facadas, me deixava
imóvel diante dele, e eu não
conseguia fazer nada, um gesto,
um movimento, suspirar ou
dizer uma palavra para tirá-lo
de seus pensamentos e voltar
com sua atenção para mim. Eu
sabia, não precisava perguntar
para saber que o que ele pensava
o feria muito.
Deu sua última tragada,
respirou fundo.
"E esse foi o meu último cigarro hoje."
Não respondi,
não tinha o que responder.
"Que horas são?"
Olhei o relógio no pulso.
"15h39"
"É melhor aproveitarmos, né? Temos só mais vinte minutos."
"Claro"
Mas o silêncio persistiu
e parecia continuar até o fim.
Ele voltou a olhar
para o lado de fora
pela janela com a cabeça
apoiada na grade. Devia
gostar muito dali.
Fale alguma coisa,
eu estou aqui,
veja, você não
está sozinho,
eu estou aqui,
é só olhar para
mim.
Pensei.
"Quero sair daqui logo, mas ainda vai demorar"
"Passa rápido"
"Quando é bom, passa muito rápido"
"O tempo é o mesmo, sempre, nunca passa rápido e nem devagar, é só impressão que temos. Por enquanto você tem a impressão de que vai passar tudo muito devagar, mas quando você olhar para trás, tudo foi rápido, muito rápido"
Ele me encarou,
mas nada falou,
apenas ficou
me olhando...
" Verd..."
O sinal tocou, era a hora de ir embora.
Olhamos ao mesmo tempo para a porta,
em direção de onde vinha o barulho.
"Terei que ir"
Respirou fundo, parecendo insatisfeito.
"Infelizmente"
"Mal conversamos sobre os assuntos importantes"
Sorri.
"Mas o mais importante foi que você veio"
"Talvez, mas eu tenho que ir, né?"
Não me respondeu,
olhou para o chão parecendo
que ia chorar.
Eu rezei: não chore!
Levantei da cadeira
e me ajeitei para poder
dar a partida a qualquer
momento.
Ele olhou para mim
com os olhos marejados,
e meu coração se partiu
em migalhas.
"É claro"
E fui até ele dar um abraço
apertado. Ficamos daquele
jeito até uma enfermeira
bater na porta pedindo
que eu me retirasse logo.
Dei um beijo em sua testa
e outro em sua bochecha,
nos encaramos e ele chorava.
Oh, Deus, por quê?!
Limpei as suas lágrimas,
eu choraria a qualquer
momento, mas evitaria
até o último segundo.
"Não chore"
Sussurrei.
"Eu tenho que ir, tchau."
Levantei e fui até a porta,
antes de sair por ela, me
virei para ele e acenei um
tchau, ele acenou outro, mas
me encarava com um olhar de
criança abandonada, ignorei
e saí pela porta, fechando-a
em seguida.
Andei pelos corredores daquele
lugar, me sentia arrasada, sem
forças, andava vagarosamente,
mas queria sair dali o mais rápido
possível, eu só queria chorar, me
sentia sem rumo, sem direção.
Saí, respirei o ar fresco do lugar
que era em volta de muito mato,
árvores e plantas.
Ventava, eu me sentia aliviada,
me sentia viva, estava parada nas escadas
de frente da porta, olhava para o céu até
fechar os olhos para sentir o vento no
meu rosto, esvoaçando o meu cabelo e
levando todos os meus sentimentos
embora.
Respirei fundo, olhei para o chão
e toda aquela dor me atingiu de novo,
então, finalmente eu chorei.
Chorei igual a uma criança perdida
que chora à procura de seus pais,
ou de uma esposa que fica viúva.
Sentei nas escadas, e chorei até
eu me cansar.
Queria colo, queria carinho,
eu era uma criança que
precisava de amor.
Levei as mãos no rosto,
e chorei mais.
Um casal saía daquele
inferno branco, e parou
só para me acudir.
Vocês podem me amar?
Vocês podem amar aquele homem?
Se sim, então fiquem.
Se não, então morram.
Eu só quero amor.
Eu só quero que dêem amor
para ele, para mim.
A mulher, que na verdade,
era uma senhora já, sentou
ao meu lado, segurou a minha
mão, me confortando.
O homem, que também já
era de idade avançada, pôs
a mão no meu ombro.
"É triste, eu sei que é triste, é um inferno"
Disse ela.
Eu a encarei e chorei mais.
Queria morrer. Ali.
Não sei quanto tempo
fiquei ali, não sei o quanto
de lágrimas eu chorei, só
sei que eles ficaram comigo
até a última gota, até o choro
cessar, até o tempo acabar.
Recompus-me e despedi deles,
desci as escadas, e parei, assisti
eles entrando no carro e indo
embora. E em algum lugar do
peito, senti uma pontada de
esperança.
Segui para o meu carro, em seguida,
para casa.
Não me importei com a hora,
não me importei com nada.
Arranquei as roupas e dormi,
um sono profundo e sem
sonhos.
Dormi o suficiente para
ser considerada morta.