quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sorvete

As nuvens negras começaram a fazer estrondos, a chuva começara a cair fina e as pessoas começaram a correr, abrir seus guardas chuvas e entrar em lojas ou ir para suas casas para se protegerem da chuva.

Ela olhou para cima sentindo a chuva leve molhando seus cabelos e suas roupas, entrou na loja, cogitou se deveria ou não, e comprou o sorvete, o que levou um sorriso doce ao seus lábios. Enquanto a vendedora punha as bolas de sorvete no cone, ela observava o lado de fora da loja, via a chuva caindo.

Pagou. Saiu. A chuva se transformou num temporal, não queria esperar, não tinha medo da chuva, gostava e gostava mais ainda com sorvete. Tomava sorvete debaixo da chuva, o corpo tremia de frio, mesmo agasalhada, era a chuva, era o vento e o sorvete. Gostava daquela sensação de frio, mesmo que seu corpo implorasse por algo quente.

O sorriso continuava em seus lábios, parecia uma criança, as pessoas que a observavam por dentro de lojas e de baixo de seus guarda chuvas achavam-na louca. Uma mulher que parecia uma menina tomando sorvete de baixo de chuva como se fosse um dia de sol.

Os cabelos longos, ondulados e negros que estavam presos numa trança que deitava em seu ombro esquerdo, os olhos verdes mel e a pele branca. As roupas em tons neutros, mas o suficiente para chamar atenção.

Sinal fechado.

Atrevessava a rua quando olhou para o lado. Arregalou os olhos, assustada, mas em seguida sorriu; em questão de segundos.

E no meio de um dia cinza, o cone do sorvete deitava no chão e o sorvete colorido de sabor manga, morango e sky agora se misturava junto ao vermelho do seu sangue. O dia cinza ganhava cores.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Libertador

A gente te ama.

Aquelas palavras ecoavam na mente dele como se fosse quase uma música.

A gente te ama.

Queria arrancar o coração do peito, queria jogar todos aqueles pensamentos no lixo, queria por um ponto final em tudo aquilo. Sentia ódio e frustração por tudo, por eles e por si mesmo.

Não entendia como conseguia ser tão estúpido, não entendia o porquê de ser sempre as mesmas coisas, a mesma história e a mesma mentira.

O silêncio era bem vindo em sua mente, mas não vindo deles. Era uma traição, uma faca fincada no peito que atingia até a alma. Poderia suportar tudo, menos aquilo. Talvez estivesse dopado em sua própria dor, largado e afogado em suas próprias lágrimas.

A dor se agarrava em seu peito , as lágrimas surgiam e a vontade de gritar de aumentava.

Cantarolando algo qualquer, fazendo uma dança sem sentindo, seguia até ao aparelho de som, queria música, queria vida, queria algo que o entendesse.

Mentiras e silêncio.

As quimbas de cigarros e mais alguns baseados por toda a sala, garrafas e latas de bebidas alcoólicas espalhadas por todo o apartamento e as drogas já todas consumidas. A melhor forma de sumir com a dor.

Deitou-se no sofá e mergulhou direto naquela paisagem que tanto conhecia: calmo e cinza, sombrio e macabro, cheio de pensamentos e sentimentos, mas ele queria mergulhar no vazio, no imensidão do nada e se ver livre, livre de tudo o que lhe fazia mal, que o corrompia e que envenenava seu coração, livre de todas as pessoas.

Dizia ele que era fraco, não sabia escutar o que não queria, mas não se importava realmente, só sorria em desgosto.

Olhava para toda aquelas pessoas que diziam que o amava e queria se livrar de cada uma delas, dizer a cada uma delas que as odiava e que as queria longe, quando na verdade era louco de amor e queria ser um só com elas, não queria de forma alguma que elas olhassem para outras pessoas, elas eram dele.

O que era uma mentira.

Ninguém era dele, as mentiras só eram contadas para fazê-lo pensar assim, e a verdade escondida para fazê-lo sentir um completo idiota quando as descobrisse.

Sentia-se covarde, não conseguia se livrar de nenhuma delas, ele as amava demais para tal coisa, era imensamente doloroso saber sobre a traição, mas era insuportável estar sem elas.

Há quanto tempo estava naquele barco? Nem lembrava mais, já não lembrava de muita coisa, já não tinha mais no que acreditar, nem em si mesmo, já haviam levado tudo o que restava de si.

Lembrar que vivia era sempre um pesadelo, queria voltar a dormir, se esquecer que existia e que continuava respirando. Sonhar era sempre tão melhor, tão bom... sonhos seriam sempre sonhos e talvez fosse a única coisa que ainda restava.

Entrou em estado torpor, foi a fundo em suas lembranças e tentou lembrar de cada sorriso, risada, lágrimas, gritos... cada lembrança e sentimento, tudo. Sentia sono, muito sono e cansado, tão cansado que era quase impossível levantar, seu corpo era uma pedra, e ficou onde estava, foi mais fundo em tudo, mais lúcido e mais sóbrio.

A música tocava e o telefone também, estava ocupado demais apagando cada memória e tirando cada sentimento de seu coração, estava ocupado demais dormindo. Que tocasse.

Dormiu por três dias, e não sabia se era por causa das drogas, não sabia se era por falta de dormir por dias. Já não sabia de mais nada.

Quando acordou, o corpo continuava cansado e a mente pesada, caiu do sofá e foi para um banho gelado. A música continuava tocando.

A água passeava pelo seu corpo, e todos os pêlos eriçavam pelo toque gelado e o acordavam para vida. Levou a mão aos cabelos e percebeu o quão grandes estavam os seus cabelos, não se importava também. A mão passeou pelo corpo tentando sentir a si mesmo, cada pedaço, cada centímetro, tentava se sentir ao máximo, queria voltar sentir-se seu.

A cabeça que estava livre de pensamentos, voltou com aquelas palavras que o feriam tanto e sentiu as lágrimas quentes saírem tímidas, um riscado molhado e quente entre a pele já molhada e gelada.

Ficou incontável tempo de baixo d'água tomando banho e reconhecendo-se de novo. Saiu do chuveiro, enrolou a toalha na cintura e não ligava de se enxugar e muito menos em molhar o chão, se apoiou na pia e encarou a si mesmo no espelho, seu reflexo era abatido, pálido e cansado, talvez estivesse um pouco mais magro.

Não queria pensar em saúde, e saiu do banheiro indo para o quarto por uma roupa, o dia era um tanto frio.

Entrou pela sala, e observou toda a bagunça. Queria mudar, queria ver mudança e começou a arrumar todo o lixo, endireitar as coisas e consertar tudo que estava quebrado, enxugar o chão molhado.

Passou um dia inteiro arrumando o apartamento, e quando se pôs a observa-lo sentiu que ainda não estava limpo, tinha que se livrar de tudo, a dor ainda estava ali em algum canto e ele não sabia onde.

A semana passou. Uma mudança aconteceu.

O apartamento não era mais o mesmo, tinha trocado móveis, jogado coisas que não serviam fora, posto toda a dor no lixo.

E o telefone continuara a tocar, sem parar, a música seria eterna naquele apartamento e talvez pessoas tivessem ido visita-lo e ele não estava em casa ou nem tinha se dado ao trabalho de atender a porta.

Não se importava com mais nada, tinha um mundo novo e só seu e agora teria de se acostumar com ele, com o vazio.

Pintaria as paredes da sala ou mudaria de apartamento, estava incerto sobre. Levou o cigarro a boca e um gole no whisky, sentado no sofá e reparando em todas as diferenças no seu apartamento.

Fingia que esquecia a dor, fingia que esqueceu as palavras, elas continuavam lá em algum canto da sua mente, em alguma parede de seu apartamento. A dor ainda estava instalada em seu peito, mas queria ser forte, respirar calmo e dar um passo de cada até se livrar de todo o passado.

Terminou com o whisky num gole e decidiu que brincaria de suicídio depois.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Deep Blue

Você partia, seus passos continuavam firmes no chão, seguindo em frente... as lágrimas caiam sem que eu percebesse, volte aqui, corri, corri e corri até você. Por quê?, perguntei, e corri mais para poder te alcançar. Meu tudo. Quando cheguei atrás de você, pronto para agarrar seu pulso e impedir sua partida, você deu mais um passo: rápido e firme, escapando de minha mão, aquela música começou a tocar em alguma lugar, não sabia dizer se era só dentro da minha mente ou em algum lugar aleatório. Volte. Continuei na mesma posição sem olhar para qualquer um dos lados, só para você. E mais aquela música se repetia, me causando profundo desgosto. Aquele sentimento de novo: desespero, vazio. Abandonado.

Novamente, aquele mar imenso, fui posto lá de novo. Frio e escuro, desesperador. Olhei para os lados, procurando algo, algum sinal de vida, queria sair dali. Olhei para cima vendo a luz que vinha do céu, mas era só um borrão. Quero chegar lá, quero me sentir quente de novo. Veio aquela música, fechei os olhos e tampei os ouvidos, não queria mais escutá-la. Silêncio dentro da minha mente. Ensurdecedor. As imagens de você partindo vieram à mente. Abri os olhos com a mesma força com que eu os fechei, olhei em volta de novo, e a música repetitiva, tocava, deixando-me ainda mais desesperado. Comecei a nadar em direção da luz, fugindo daquela música, daquele frio. Nadei o mais rápido que mais pude, era difícil chegar a superfície. Quanto mais chegava perto, mas longe parecia estar. Minhas lágrimas quentes mesclavam-se com a água salgada dor mar gelado. Queria sentir algo vivo, queria respirar.

Queria aquela droga, mais uma dose com gelo... não, queria a garrafa inteira, sem gelo, quente. Queria sentir o alcóol me esquentando e a droga pulsante em meu sangue, encontrar um lugar para descansar e um peito, um colo para dormir, já estava cansado de nadar, encontrar saída para aquela eternidade sem fim, era difícil continuar respirando. Uma saída, um salva vidas... qualquer coisa que não me faça mais nadar, mesmo que eu tenha que desistir e afundar de vez naquele azul profundo e calmo que eu tanto gostava, mas que tanto me assustava e me fazia tremer de frio.

De repente a saída, a luz que me machucou a vista de tão forte que era, de tão claro e vivo. Pude respirar com alívio, um ar novo. Horas, horas naquela vertigem, no delírio de estar em algo seguro, terra firme. Boiando, olhos fechados, sentindo o sol em meu rosto e meu corpo flutuar, de repente a luz sumiu e me fez abrir vagarosamente os olhos, olhei para o lado e vi um barco vagarosamente parando ao meu lado, mais um delírio, a abstinência de tudo, sentindo falta da realidade. Eu queria sair daquela ilusão que me fazia entrar em desespero. Voltei a fechar os olhos ignorando aquele barco que fazia parte da minha alucinação. Aquela música, aquela música de novo... E meu nome sendo chamado. Abri meus olhos e olhei em direção do barco e lá estava tudo o que eu queria ver, tudo o que eu queria tocar, sentir.

Naquele barco, de volta para terra, de volta para casa, caindo fora daquela ilusão, indo para bem longe daquele lugar. Ele me olhava calmo e sorridente, e eu o olhava assustado, como se fosse um fantasma, corri para abraçá-lo, e ele desviou. De novo escapando das minhas mãos. Você me perdeu, disse, e a gente não pode se tocar.

Tudo se desmancha vagarosamente e a última coisa a sumir foi o seu sorriso. Era noite, a garrafa vazia, estava deitado no chão, sem realmente ter conhecimento do que se passava ou de que horas eram. Sentei no chão, olhei para os lados procurando saber o que se passava, coçando a cabeça. Levantei, fui em direção ao banheiro, lavei o rosto e olhei meu reflexo abatido no espelho. Tomei alguns remédios para dor de cabeça e fui para cozinha buscar um pouco de água. Eu não sabia mais o que fazer, sair daquele desespero, jogar aquela dor para longe.

Liguei o som. Aquela música. As lágrimas vieram sozinha, aquele sentimento de novo: desespero, abandono. Adeus. Não conseguia desligar o rádio ou trocar de música ou estação, era quase uma obrigação escutá-la. Masoquismo emocional. Tão calmo, tão inspirador... mas os sentimentos que passavam era de puro desespero, morte... abandono. Como uma música poderia me fazer sentir daquele jeito? Como uma música poderia descrever meus sentimentos sem nem ao menos dizer uma palavra? Lembraças, lembranças e lembranças, lembraças que partem o coração, e nos faz querer morrer. Sentimentos que fazem nos sentir sufocado, sentimento nostálgico.

Alguma coisa no passado muito triste aconteceu, e eu não sabia o que era, eu só sabia que havia acontecido, era esse o meu sentimento. Turbilhões de sentimentos e pensamentos me invadiram. Queria me livrar disso tudo. Queria ir para longe, mesmo estando longe, porém, dessa vez, mais longe ainda... o longe onde você estava. Meu corpo, minha alma choravam. Tão profundo. Desesperador. Se não fosse tão tarde, gritava.

Olhei para uma foto em cima do móvel, peguei nela e a observei. Era tão feliz, tão feliz que chegava a irritar. Meu peito se aqueceu e eu vi o passado sendo desmanchado, como se alguém pegasse tudo que houve e queimasse. E eu deixei. Tudo tinha que se queimar e deixar ser queimado. Que o vento se encarregasse de levar tudo para longe, varrer toda poeira, todo o resto do que sobrou e que não prestava mais.

Eu estava cansado de tudo aquilo, há muito tempo eu estava fraco e eu não poderia mais lutar contra aquilo. Há muito tempo... que eu lutava sozinho e eu estava morrendo, já estava cansado daquilo tudo e era hora de voltar para casa.

sábado, 11 de junho de 2011

Sol

Esta noite não, nesta noite eu não vou beber, não vou me anestesiar da dor que você empurra para mim, quero sentir cada fragmento de mim se rasgando, quero sentir o sangue em meu pulso e sentir o meu coração acelerado.

Chorarei como todas as outras vezes, mas só por hoje, eu irei beber apenas as minhas lágrimas e mergulharei na dor de ser quem eu sou, de amar quem eu amo.

Quero me dar o prazer de sofrer, o prazer de me iludir... só uma noite, a exceção de todas as outras, porque hoje eu sou apenas um sofredor, não serei o cafajeste de todas as noites.

Vou sentir o vento batendo em meu rosto, e vou sorrir de leve imaginando você, eu vou me tocar e gemer baixinho o seu nome.

Quero sentir todos os prazeres que eu posso me dar pensando em você.
A dor é quente como o sangue, e hoje vou me aconchegar nos braços dela, hoje eu serei só dela, me agarrarei à lembrança de seu sorriso e sorrirei.

Vamos... eu só quero sentir a faca penetrando em meu peito lentamente, sentir cada centimetro sendo perfurado e o sangue quente escorrendo pela pele e gemer, gritar de dor, implorando para que o sofrimento acabe logo, mas ao mesmo tempo pedindo por mais dor, por mais profundidade.

E quando eu estiver quase morto e sem sangue, o sol nascerá como faz em todas as manhãs, para me trazer de volta à vida que você me roubou, e eu voltarei a beber todas as noites para me anestesiar e sorrir... simplesmente voltar a rotina de fingir ser feliz.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Precisa fazer sentindo?

Mergulhei de cabeça naquilo que me faria feliz, mas me faria sangrar com o corte da separação e com a dor do luto... mergulhei sabendo que sofreria, mas fui com corpo e alma sabendo que acima de tudo seria feliz, muito antes da dor, muito antes da morte.

Eu sou menina, eu sou mulher, eu sou humana, eu só quero é ser feliz, ser feliz na dor de ser humana, e quero fazer desse inferno de viver, o meu próprio paraíso, eu quero ser mulher, eu quero ser homem, eu só quero sorrir de baixo de chuva e chorar a luz do sol.

Vambora que eu tenho hora, eu tenho pressa, eu quero só mais uma dança, uma última dança e tchau, só mais uma dose e vamolá, vamos dizer adeus, e eu não quero mais chorar.
E é numa só dança, pronto! já estamos juntos de novo, é só se jogar que estaremos livres para sempre, da dor, do sofrimento e de toda felicidade em que temos de chorar e no prazer que sentimos em sofrer... estaremos livres para voar na eterna noite que vem nos assombrar, na melancolica, romantica e pálida lua que vem nos receber e nos olhos escuros e brilhantes do céu, seremos anjos.

Ah! deixa para lá, para outra hora, agora não quero sonhar, não quero relembrar da dor de te perder, quero apenas ser feliz, viver sem precisar de você... feliz na dor e na ausência, a gente esconde a tristeza atrás do sorriso e diz que está tudo ótimo, está tudo ok.

Seu último sorriso para mim, seu último olhar sobre mim e eu me agarro com todas as forças as nossas últimas lembranças até o dia da minha última dança, até eu me jogar de vez lá do alto e cair de novo, mergulhar em amor sem que me machuque, podemos nos apaixonar de novo, sem a separação... cair em amor.

Deixe para lá, deixe tudo para lá, não precisamos mais disso, estou nessa eterna agonia de ser sozinha, na eterna busca de querer me sentir completa quando nascemos para sermos sozinhos e, por isso, esse sofrimento pela busca de alguém, que para mim, alguém que já se foi e eu continuo a buscar, na verdade, a esperar.

Solidão é essa que o humano inventou, bicho homem que precisa do amor, não sabe viver sozinho, não é ninguém sem alguém, por mais racional que seja, por menos sentimento que tenha em seu pequeno coração. Bicho complicado de ser entendido, uma máquina de sentimentos (bons e ruins).

Estou perdendo tempo, meu ônibus vai passar e eu ainda não estou no ponto, tenho que ir paro o caminho certo dessa vez, tenho que ir agora, não posso mais perder mais tempo, o tempo é curto, curtíssimo, então... tô indo embora, meu tempo está se esgotando.

Quero correr num campo de girassóis, quero um clichê, um beijo de baixo da chuva e um final "felizes para sempre", mesmo que isso implique com brigas, tapas e sexo como reconciliação sem realmente estarmos desculpados.

Outra dose, e eu te vejo.
Outra dose, e eu te toco.
Outra dose, e eu te abraço.
Outra dose, e eu te beijo.

Preciso de mais tempo, de mais tempo, meus planos são longos e demorados e meu tempo é curto, tenho planos de descobrir a fórmula do paraíso, de reviver o passado e descobrir que a felicidade eterna é aquilo que a gente aprendeu com a vida e aproveitar isso para as lições futuras e estar preparado para o que vier, e o que tiver que vir virá. E se for para mergulhar de novo naquilo que eu sei que eu vou chorar, mergulharei, mas só se for bom, bom, um bom sofrimento depois.

Em minhas quedas aprendi a levantar, em meus erros aprendi a pedir perdão...

Quero que sonhos se transforme em realidade, que a fantasia seja verdade.

Aquilo já esquecido por mim, mas que ainda amo com força e alma, no sonho que ainda me agarro e ainda rezo para que se torne uma fantasia real e assim esquecer todas as nossas lembranças que já estão eternizadas em mim, assim como o meu sonho que tanto amo, que tanto sinto amor pelo o que eu desconheço e que me fascina em imaginar como é. E mais uma vez, o prazer do sofrimento e da ansiedade, a agonia da dúvida, o prazer de imaginar sendo real.

Sonhos são um perigo, cuidado! nem sempre são como imaginavámos que eram.

Estou na beira, estou no meu limite que já ultrapassei há muito tempo e eu não posso mais suportar, quero minha última dose, minha última dança. O tempo foi generoso comigo e me deu mais que eu pedi, mais, mais e muito mais, o suficiente para me sufocar e eu dizer chega.

TIC-TACK TICK-TACK TICK-TACK...

E esse ponteiro que passa e a hora que não chega, eu quero ir embora, eu tenho pressa... meus planos são longos, mas minha pressa é maior. E eu quero dormir, estou cansada. Procuro um passatempo, algo que tire o meu tédio. Relembrar e Sonhar.

Se seus beijos ainda forem os mesmos, se seus braços ainda são quentes... ah, que o passado venha novamente, se não for também, eu não ligo.

Ansiedade é pior dos sentimentos, faz perder a razão, faz sofrer pro antecipação, faz... ó! nos mata do coração, tudo demora a passar e estamos com pressa. Vou dormir enquanto espero, vou sonhar enquanto durmo, tenho tempo suficiente para tudo isso, por que agora é isso que eu quero.

PI PI PI PI PI PI

É agora e eu vou embora
Agora eu vou embora
Eu vou embora
Vou embora
Embora.

E embora, eu fui.
Subi a escadas vagarosamente, uma por uma, e lá do alto me taquei para cair novamente em seus braços, e perder de novo em seus olhos... e tudo de novo recomeçar.
Embora, eu fui.

domingo, 8 de maio de 2011

Olhe

Eu sinto dor quando eu vejo,
eu sinto saudades quando
eu lembro. mas é melhor
ficar onde está, é melhor
deixar para lá, veja, olhe,
calma... tudo vai passar, é
só continuar onde está.

É só ser forte, que tudo
vai ficar bem, tudo irá
se apagar, até a última
lembrança deixar de e-
xistir.

A última gota de lágrimas,
o primeiro sorriso.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Não morreu

Naquele lugar branco, triste e pessoas sendo curadas de suas dores,
eu não sou forte o suficiente para poder ficar ali,
meu coração se apertava
a cada passo, a cada pessoa que eu via.

Você estava sentado numa cadeira, olhando lá para fora,
eu estava de longe te observando querendo chorar,
me aproximei e seu sorriso se abriu.
Senti-me quebrada
no mesmo instante que seus braços, agora magros,
me envolveram, não são mais quentes como antes,
sinto dor, sinto a sua dor.

Queria chorar, então, rezei para que você
não chorasse, eu tinha que ser forte,
ser algo que nunca fui por sua dor,
pela minha também.

Desfizemos o abraço, e eu sorri
triste para você, e fui retribuida
igualmente, e mais uma vez,
quis chorar.

"Sente-se, por favor, vamos conversar"

Sentei na cadeira ao lado da sua, estava
nervosa, desesperada, queria te pegar
pelo braço e sair correndo dali, ir para
bem longe, espantar todas as suas dores,
enfrentar nossos medos juntos e dizer
que era só contar comigo, que eu estaria
sempre ali.

"Como você está?"

Eu me sentia quebrada, amargurada
queria desabar e dizer que eu sou fraca,
que eu não aguento ver tudo aquilo
em minha volta. Queria fugir para
bem longe dali.

"Bem, e você?"

Irônico.

Conte-me todas as suas dores, chore
e me destrua, parta ao meio meu
coração, me faça sentir mais imbecil.

"Melhor que antes, melhor agora que você está aqui"

Sorri.

Meu coração se apertou e eu quis morrer,
ignorei seus braços que eram quentes,
ignorei seu carinho quando você precisava
da-lo a alguém,
eu preferi a chuva,
eu continuo a amar o estranho.

Conversamos sobre coisas banais,
sobre o dia a dia,
até rimos, pois contamos piadas.

Ah! Os velhos tempos, que saudades
deles. Lembra?

Matamos saudades do que havia se passado.
Matamos o tempo.

" Então, e as sua dor? Não finja o que está tudo bem"

Assustei com a pergunta,
fui supreendida,
mas o segundo seguinte eu
sorri terno, em consentimento.

"O que é a minha dor comparada a sua? "

Silêncio.

" São duas coisas diferentes, e eu sei que no fundo você está com pena. Se sabia que ia sofrer tanto, por que veio?"

Acariciei o seu rosto.

"Perdão, mas eu tinha que vir, se eu não viesse... o que você acharia? Pensaria que eu te esqueci, e não... não é isso, eu quero apenas te mostrar que eu não estou ao seu lado quando as coisas estão boas para você, mas quando estão ruins também. Então, minha dor realmente não importa, não hoje, eu quero saber da sua. Eu sei que você precisa de mim, da pouca força que posso te oferecer, não finja que não."

Ele sorriu, e eu sorri junto.

Não falamos mais nada após isso,
o silêncio se encravou em nossas bocas,
as palavras invadiram nossos pensamentos,
e os sentimentos, nosso coração.

Pegou o único cigarro que estava na janela
e acendeu com o único fósforo que tinha
dentro da caixa.
Encostou a cabeça na grade da janela, e olhou
lá para fora, o olhar entristecido, sério. Quis
falar qualquer coisa, mas as palavras não
saíram, eu as engoli seco. Doía ver aquela cena,
mas me manti firme.

O silêncio me enlouquecia,
aquele olhar me dava pontapés,
socos e facadas, me deixava
imóvel diante dele, e eu não
conseguia fazer nada, um gesto,
um movimento, suspirar ou
dizer uma palavra para tirá-lo
de seus pensamentos e voltar
com sua atenção para mim. Eu
sabia, não precisava perguntar
para saber que o que ele pensava
o feria muito.

Deu sua última tragada,
respirou fundo.

"E esse foi o meu último cigarro hoje."

Não respondi,
não tinha o que responder.

"Que horas são?"

Olhei o relógio no pulso.

"15h39"

"É melhor aproveitarmos, né? Temos só mais vinte minutos."

"Claro"

Mas o silêncio persistiu
e parecia continuar até o fim.

Ele voltou a olhar
para o lado de fora
pela janela com a cabeça
apoiada na grade. Devia
gostar muito dali.

Fale alguma coisa,
eu estou aqui,
veja, você não
está sozinho,
eu estou aqui,
é só olhar para
mim.

Pensei.

"Quero sair daqui logo, mas ainda vai demorar"

"Passa rápido"

"Quando é bom, passa muito rápido"

"O tempo é o mesmo, sempre, nunca passa rápido e nem devagar, é só impressão que temos. Por enquanto você tem a impressão de que vai passar tudo muito devagar, mas quando você olhar para trás, tudo foi rápido, muito rápido"

Ele me encarou,
mas nada falou,
apenas ficou
me olhando...

" Verd..."

O sinal tocou, era a hora de ir embora.

Olhamos ao mesmo tempo para a porta,
em direção de onde vinha o barulho.

"Terei que ir"

Respirou fundo, parecendo insatisfeito.

"Infelizmente"

"Mal conversamos sobre os assuntos importantes"

Sorri.

"Mas o mais importante foi que você veio"

"Talvez, mas eu tenho que ir, né?"

Não me respondeu,
olhou para o chão parecendo
que ia chorar.

Eu rezei: não chore!

Levantei da cadeira
e me ajeitei para poder
dar a partida a qualquer
momento.

Ele olhou para mim
com os olhos marejados,
e meu coração se partiu
em migalhas.

"É claro"

E fui até ele dar um abraço
apertado. Ficamos daquele
jeito até uma enfermeira
bater na porta pedindo
que eu me retirasse logo.

Dei um beijo em sua testa
e outro em sua bochecha,
nos encaramos e ele chorava.

Oh, Deus, por quê?!

Limpei as suas lágrimas,
eu choraria a qualquer
momento, mas evitaria
até o último segundo.

"Não chore"

Sussurrei.

"Eu tenho que ir, tchau."

Levantei e fui até a porta,
antes de sair por ela, me
virei para ele e acenei um
tchau, ele acenou outro, mas
me encarava com um olhar de
criança abandonada, ignorei
e saí pela porta, fechando-a
em seguida.

Andei pelos corredores daquele
lugar, me sentia arrasada, sem
forças, andava vagarosamente,
mas queria sair dali o mais rápido
possível, eu só queria chorar, me
sentia sem rumo, sem direção.

Saí, respirei o ar fresco do lugar
que era em volta de muito mato,
árvores e plantas.

Ventava, eu me sentia aliviada,
me sentia viva, estava parada nas escadas
de frente da porta, olhava para o céu até
fechar os olhos para sentir o vento no
meu rosto, esvoaçando o meu cabelo e
levando todos os meus sentimentos
embora.

Respirei fundo, olhei para o chão
e toda aquela dor me atingiu de novo,
então, finalmente eu chorei.

Chorei igual a uma criança perdida
que chora à procura de seus pais,
ou de uma esposa que fica viúva.

Sentei nas escadas, e chorei até
eu me cansar.

Queria colo, queria carinho,
eu era uma criança que
precisava de amor.

Levei as mãos no rosto,
e chorei mais.

Um casal saía daquele
inferno branco, e parou
só para me acudir.

Vocês podem me amar?
Vocês podem amar aquele homem?
Se sim, então fiquem.
Se não, então morram.

Eu só quero amor.
Eu só quero que dêem amor
para ele, para mim.

A mulher, que na verdade,
era uma senhora já, sentou
ao meu lado, segurou a minha
mão, me confortando.

O homem, que também já
era de idade avançada, pôs
a mão no meu ombro.

"É triste, eu sei que é triste, é um inferno"

Disse ela.

Eu a encarei e chorei mais.
Queria morrer. Ali.

Não sei quanto tempo
fiquei ali, não sei o quanto
de lágrimas eu chorei, só
sei que eles ficaram comigo
até a última gota, até o choro
cessar, até o tempo acabar.

Recompus-me e despedi deles,
desci as escadas, e parei, assisti
eles entrando no carro e indo
embora. E em algum lugar do
peito, senti uma pontada de
esperança.

Segui para o meu carro, em seguida,
para casa.

Não me importei com a hora,
não me importei com nada.

Arranquei as roupas e dormi,
um sono profundo e sem
sonhos.

Dormi o suficiente para
ser considerada morta.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Cigarros

Tudo confuso demais para ser entendido.
Já é tarde, já é noite, é madrugada e eu quero dormir antes que amanheça, não quero ver o sol, não posso ver o sol, não quero ver vida para saber que estou morto... Epa, espera!, eu não sou um vampiro, mas não me sinto mais vivo. Quero vida, devo assistir ao nascer do sol? Minhas pernas tremem, meus braços doem e minha cabeça gira, vejo o mundo todo junto, tudo num só, misturado.

Gosto, gosto do sabor amargo, cinza e áspero.
Uma manhã particularmente clara e de poucas nuvens (quase raras) , entro de baixo do chuveiro, água gelada que poderia ser mar, lago, rio, cachoeira, mas não chuveiro. Banho tomado, café forte e amargo sendo feito e a fumaça do cigarro escapando pelos meus lábios, fugindo pelas narinas, um bolo de papéis cheios de notícias em cima da mesa, mas não me interessa notícias, me interessa o gosto amargo do café e o cinza do cigarro. Um queijo, uma taça de vinho, mas é de manhã, quem se importava? Dia de sábado, céu aberto, azul, azul claro, azul vivo, quero preto, verde e cinza.

O telefone toca, toca e toca, não tem ninguém , tem eu, e quem disse que eu quero falar? Quem falou que eu estou em casa, que eu estou vivo? Se quiser que eu atenda, ligue na hora certa, daqui a dez minutos, quem sabe, duas horas, mas definitivamente, não estou, não quero estar nesse apartamento branco, vazio que só tem eu, não quero estar, mas estou, eu não quero atender. Eu não vou atender.

Ponho uma música, talvez um rock, um pop, um clássico, um jazz, o que eu estiver afim de ouvir, qualquer coisa, menos o barulho estridente do telefone. São oito horas e vinte e dois minutos e eu quero fumar de novo, quero outro cigarro, onde eu fumo? não quero a sala, já cansei da cozinha, tem a varanda, mas eu não quero claridade demais , esqueci dos quartos, mas no meu quarto ficará cheirando a cinza, ao áspero, e eu não gosto desse cheiro, gosto do sabor. É, quarto, fumarei no quarto, não importa o cheiro, as cinzas, só eu que durmo lá, não fodo mais ninguém, me masturbo, e só. Não ligo.

Um novo apartamento, é isso, um amor, quem sabe, meu coração já está maduro, tão maduro que já começa a apodrecer. Uma vida, é e-xa-ta-men-te disso que eu preciso. Perfeito. Deito na cama, acendo meu cigarro, o cinzeiro fica em cima da cama, agora, já tenho um lugar, já estou com meu cigarro, preciso de algo mais, uma punheta: mas não são horas para isso, é só uma desculpa para não fazer, não ligo para as horas, apenas não quero fazer; assistir TV: chato, não, é sábado. Poderia ver quem me ligou, mas eu não quero falar, eu saí; ler um livro: talvez, tá começando a ficar melhor; dançar a música que vem da sala: estou cansado; ver um filme: dá sono... dormir? por que não pensei nisso antes? Per-fei-to. Mas eu quero fumar, fumar e fumar outro, outro e outro e todos os outros cigarros, quero acabar com o meu maço.

Ah! Mas que vontade de sonhar, de relaxar, que vontade de deixar de existir por horas, deixo o cigarro para depois, para outra hora, eu já fumei hoje, eu não dormi, estou cansado, cansado e com sono, mas não cansado só porque eu não dormi, estou cansado de tudo, e com sono, é por isso que eu vou dormir, eu quero sonhar, a irrealidade, o absurdo, o surreal e as sensações reais e o impossível que o sonho trás.

O céu escuro, estrelado, um ventro frio, um lago na minha frente, ou um rio? Deus, seria uma cachoeira? Não sei, tá escuro e eu não escuto nada, só sinto cheiro de água, mas água doce, não salgada. Desnudo-me e entro na água congelante e sigo adiante, mas espera, eu estou sonhando não é mesmo? É, eu estou em um sonho, nada vai me acontecer, eu que sei, o sonho é meu, onde eu parei? nú na água, eu estremeço e, de novo, meu corpo treme, mas não pelo frio, mas sim pelas mãos quentes que me tocam. Pode queimar,sua mão é calorosa demais para um corpo gelado e nu como o meu, estou com frio, cuidado!, disse. Suas mãos me tocam, alisam e me viram de frente para sua pessoa. Quem é você? não sei nem se é homem ou mulher, não importa, tanto faz, apenas quero que continue. Continue. Algo pousa em meu ombro, eu não sei, nem quero saber, quero apenas essas mãos quentes... ficou um tanto pornogáfico, mas eu não ligo, se for para ser, que seja, que me foda, que eu foda, está ótimo. Vou seguindo, eu preciso ir mais a frente, dou um passo, e agora não são apenas as mãos, os braços envolvem a minha cintura e o corpo quente se encosta no meu, frio e nú, mas não me importo, eu sigo, e o corpo, abraçado ao meu, segue também, e mais fundo vai ficando, mais vamos nos afundando, mas eu não tenho medo, tenho só que seguir, andar, um corpo quente em mim e uma borboleta verde em meu ombro, é isso, é uma borboleta: verde. E eu continuo, sigo e nós três vamos afundando juntos até estarmos completamente afogados.

Levanto, fumo, mijo, tomo o resto de vinho que está na garrafa, agora são quatro horas e sete minutos, meu humor melhora, mas continuo a não saber se estou em casa, se caso me ligarem, posso assistir um filme agora, ler um livro e até dançar, mas opto por não ficar em casa e quem for me ligar, eu não escutarei, de verdade dessa vez. Vou para o banheiro, escovo os dentes, faço a barba de dois dias sem ser feita, lavo o rosto, tiro as roupas e ponho outras e saio. Cigarro, carteira, isqueiro e chaves nos bolsos, tudo ok. Paro de frente a entrada do meu prédio, olho para os lados decidindo para onde e qual direção eu vou, acendo um cigarro antes disso. Esquerda. Um bar, uma lanchonete, uma padaria, um restaurante, o que for, quero apenas tomar algo, fumar e assistir as pessoas passarem. Eu poderia ir de carro, mas não quero ir rápido, não estou com pressa. Devagar eu ando, lentamente eu chego, sento e peço algo para beber.

As horas passam, o céu vai escurecendo, as pessoas vão indo, outras vindo e eu me canso de não pensar, meu cigarro acabou e o meu limite de café já se foi, pago e saio, não quero ver ninguém, nenhum rosto conhecido, quero ser um desconhecido num grupo de desconhecidos ( ou seria conhecidos? não sei), vou para algum lugar, um outro qualquer, não quero ir para casa, então sento em um banco de uma praça cheio de crianças, pais e responsáveis, carrocinhas de pipoca, sorvete, doces e cachorro quente e muito iluminado. Poderia ter um filho, produção independente, será que posso?... que coisa mais feminina de se dizer, sem prenconceitos, claro, e eu não quero ter filhos! destaco bem o 'não', crianças são, de fato, completamente insuportáveis, e por achar isso, me surpreendi: fiquei por tanto tempo ali observando-as brincando, chorando, fazendo birras e pirraças, caindo e se machucando sem nem saber o porque. Era a falta do que fazer, o tédio.

Saí da praça, voltaria para casa, pro vazio, branco e para a pontada de dor. Caminhei tão lento, tão distraído. Comprei um suco, coisa rara, um outro maço, não que o meu estivesse acabando, era apenas para ter mais um. Tarde, é noite: nove horas e dezenove minutos, e o meu suco vai parar no chão, em mim e em quem esbarrou em mim, uma pena, seria raro eu tomar aquilo de novo. Olhei para o chão, olhei para mim e olhei para o corpo dele, para depois subir para o rosto, por fim, olhei nos olhos dele, bonitos, mas o sorriso era mais, mesmo que sem graça. Tirou uma caneta, uma folha da bolsa que carregava, anotou algo, arrancou um pedaço do papel e me entregou.

- Desculpa por derrubar o suco e te sujar - deu um passo para frente, um tchau com a mão e um sorriso mais relaxado - qualquer dia liga, aparece e eu te pago um suco.

Não entendi, mas respondi:

- Tá, tudo bem.

Deu mais outro tchau e se foi. Olhei para o papel, tinha dois números (um de celular e outro de residência/comércio) e um endereço, estranhei. Que cara mais louco, estranho e esquisito, talvez um solitário, pensei. Guardei o papel, continuei a caminhar lentamente até em casa, tomei um banho, pensei, hesitei... é, me masturbei, li um livro e fiz anotações, fumei pelo resto da noite e começo do dia, um novo dia, eu dormi.

terça-feira, 22 de março de 2011

Sim, sim, sim...

Uma noite de verão estrelada, o vasto campo com árvores em volta, o ar era fresco e o corpo estirado no mato, observando as estrelas e cantarolando uma música com uma garrafa de whisky e outras bebidas.

O carro não estava distante dali, só alguns passos que lá estava ele todo vermelho e lindo, mas isso não importava naquele momento, talvez só preocupasse na hora de ir embora quando o homem bêbado fosse embora, mas não era hora de pensar nisso.

Com o sorriso infantil, ele desenhava um rosto nas estrelas, um rosto que partira para longe de si sem nem ao menos dizer adeus, sem nem dizer o porque de ir embora. O que ele tinha feito, afinal? Gostaria de saber, aquilo doía demais ser deixado para trás.

As lembranças vinham a mente sem que permitisse, e o coração pulsava com mais agitação, balançou a cabeça tentando mandar as lembranças para longe e deu mais um gole na bebida amarga e forte.

Respirou fundo, fechando os olhos com uma expressão de dor e raiva, e ficou por um curto período de tempo assim, quando abriu os olhos e viu as estrelas, voltou com o sorriso.

Umas de suas mãos que repousavam na grama, agora estava em seu peito tateando o cordão em seu pescoço. Riu em desgosto, pois não queria lembrar, mas procurava por lembranças, e aquele cordão... fora dado a ele no último dia em que estiveram juntos.

Sentou na grama, tirou o cordão e deu mais um gole no líqüido, deixou a bebida ao seu lado na grama e encarou o pingente daquele cordão.

"Onde é que você está indo?"

As lágrimas escorreram pelo seu rosto, a dor era maior que podia suportar e tudo que queria era apenas resposta para uma pergunta: Por quê?

Por suas lembranças, ela estava sempre sorrindo, e quando não estava bem, apenas perguntava o porque de estar triste, se não queria dizer, não insistia, só dizia que estaria ali quando a outra quisesse contar.

Naquele dia, naquele último dia... o homem sentiu que ela estava diferente, mas não quis perguntar o que havia acontecido, esperava que a mesma fosse contar o que não aconteceu, e agora, se arrependia tanto de não ter perguntado.

"Onde é que você está se escondendo?"

Apertou o colar na mão e levou aos lábios, beijando o objeto e voltou a coloca-lo em volta do pescoço.

O gole na bebida tinha sido o maior de todos agora, queria ficar bêbado logo, esquecer do que sentia e fingir que tudo ainda estava bem e que ela estava ali junto dele e poder sorrir verdadeiramente por algumas horas.

Voltou a deitar na grama e a olhar o céu estrelado, talvez uma estrela cadente passasse e ele pudesse fazer um pedido. Gargalhou sozinho do próprio pensamento que tivera, como era infantil aquilo, mas ainda sim uma esperança de que tudo voltaria ao normal, de que ela voltaria, ou pelo menos ligaria dando uma resposta.

Procurou pelos bolsos do casaco o cigarro junto do isqueiro ficando frustrado em não achar, apalpou os bolsos da calça e nada, então, lembrou que havia deixado no carro e num só salto ficou de pé, só então percebeu o quão tonto estava por causa da bebida e riu à toa achando graça do que não tinha.

Foi até ao carro atrás do cigarro, enquanto procurava escutou seu celular tocar que também estava ali, sem nem ver quem era atendeu num simples e costumeiro "alô?", e mais outro alô perguntou, e nada de uma resposta do outro lado da linha, decidiu perguntar "quem é?"
e continuou mudo, respirou fundo, e disse "desculpa, mas ou eu não tô te escutando ou o gato comeu a sua língua" e desligou o celular e voltou à procura do cigarro até encontra-lo.

Encostado no carro, com o cigarro entre os dedos e soltando a fumaça dos lábios, se deu conta da ligação, entrou no carro de novo e o vasculhou atrás do celular, assim que achou e olhou o número, teve a enorme decepção em saber que o número estava oculto, jogou o celular para o banco de trás e foi atrás de mais bebida.

Bebeu até a garrafa quase acabar, já embriagado, se jogou na grama sentado e acendeu mais outro cigarro, o sorriso era de decepção, e mais uma tragada deu no cigarro.Terminou com a bebida amarga e foi atrás de outra.

Já era madrugada quando o homem já estava jogado na grama e não conseguia nem levantar de tão bêbado que estava, ria alto, falava com pessoas não presentes e quando olhava para estrelas, sorria.

Sentiu o colar em seu pescoço, e então o tateou mais uma vez e ficou segurando, e mesmo possuído pela bebida em algum lugar dele alguma coisa ainda se mantinha sóbria.

"Seja a mesma, por favor"

Riu suave e a lágrimas caíram, por que é que ele foi pensar naquilo se estava tão bem antes? Porque nem assim conseguia não pensar.

Quis beber mais, mas não tinha nada cheio em seu alcance o que o fez resmungar algumas palavras não entendíveis aos ouvidos de quem estava sóbrio e mais alguns xingamentos, seria difícil sair dali na situação em que estava.

Desistiu de tentar se mover para procurar outra bebida, se virou de frente para o céu de novo e esticou os braços e abriu as pernas, ficou todo largado na grama e riu, estava feliz demais.

Respirou pesado e fechou os olhos tentando ficar sóbrio, mas falhou como esperado e gargalhou, olhou para o céu negro e estrelado, arqueou a duas sobrancelhas e fez um bico, ele queria mais bebida.

Virou a cabeça para o lado e a viu se aproximar, não sabia se era apenas um sonho, uma ilusão causada pela bebida ou a realidade, estava bêbado demais para isso.

O sorriso calmo dela fez o coração do homem bêbado se agitar, não queria que aquilo fosse um sonho, e se fosse, não queria acordar.

"O que você quer?"
" Quero que fique, gostaria que ficasse"

Ela se aproximou do homem jogado na grama, cheio de garrafas vazias e guimbas de cigarros, se ajoelhou do lado dele e falou baixinho:

"Sim, sim, sim"

x

O homem não tinha idéia de que horas eram, só sabia que o sol o incomodava e queria ir embora dali de uma vez, acordou e sentou na grama com uma dor de cabeça filha da puta. Ele coçou os cabelos embolados e esfregou os olhos.

Olhou em volta e viu todas as garrafas jogadas, se espreguiçou e levantou já começando a catar todas as garrafas que estavam ali.

Assim que terminou de pegar todas as coisas que estavam no chão e joga-las no banco de carona e no banco de trás, sentou no lugar do motorista e ficou pensando no acontecimentos que lembrava da noite anterior.

Fechou os olhos e não sabia responder se foi apenas um sonho ou uma ilusão, mas era irreal demais para ser verdade, pelo menos assim que ele via e lembrava.

Balançou a cabeça de leve espantando esses pensamentos para longe e ligou o carro, indo em direção a sua casa onde dormiria mais em um sono onde não lembraria de sonhos.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Sufoco

É nesse mar que quero mergulhar,
fundo e profundo azul
congelar e ser esquecido.

Levarei a minha dor
para o fundo do oceano,
meus vícios se irão com
as ondas e
eu ficarei nu e sem fuga.

Nem o que me aquece
está mais aqui.

Parei de sentir, de
saber o que é se machucar,
esqueci completamente
o que era o amor.

Ah, Por quê?
Por que eu fui descobrir
o que era sentir novamente?
Tão sufocante, tão profundo
que sangro.

No desespero de não sentir nada,
eu senti a dor sufocante, passei
a lembrar o que era sofrer.

Jogarei-me do alto do penhasco,
deixarei o vento me carregar
para bem longe daqui.

Quero não sentir novamente,
quero esquecer que a dor
existe.

Vou jogar com a vida,
brincar com a morte.

Não sei para que direção
correr,
mas sei que o tempo
pode curar, a distância
fazer esquecer.

Sentir e não sentir
é igualmente
sufocante e
desesperador, totalmente
doloroso.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Estupidez

você à noite reza baixinho para que ninguém escute, mesmo que todos estejam dormindo, reza, implora para que toda tempestade passe logo e que a dor passe também. na calmaria da noite, você descobre que nem apoio tem mais, sente-se quebrado e tudo o que mais quer é dormir para se livrar da dor insana, mas lembra que virá o dia seguinte, então toma remédios para poder dormir mais, demorar o máximo de tempo dormindo, pois acordar é triste, doloroso, o peito se rasga de dor, e mesmo mergulhando nos vícios, fazendo as coisas erradas para estancar o sangue que não pára de escorrer, a ferida que não se fecha, você nunca quer acordar.
suavemente você diz "tudo vai passar, é só ter paciência", é nisso que tem que acreditar para suportar, é isso o que te faz querer seguir em frente, pois acredita que o amanhã será melhor, e quando te chamam de tolo ou bobo e idiota, é que não sabem o quanto você se sente solitário, a sua vontade é de gritar "hey, estou aqui e quero ser seu amigo", mas ninguém quer isso de você, ninguém vê seu coração e por isso você vai se degradando cada vez mais e mais.
então, tudo parece não ter saída, você segue em passos tortuosos, não é mais uma pessoa sóbria, você respira fundo e diz "tudo isso vai passar " e repete isso como um mantra e decide que quer melhorar, e assim se mantem erguido.
de dia, o céu é azul demais para os seus olhos escuros, o sorriso pequeno em seus lábios e a dor amarga em seus olhos, você sai mesmo assim, e na paisagem clara, acha que toda sua dor é besteira, é a vida, afinal, e só diz isso porque a claridade do sol incomoda e quer se passar por forte, só para não sofrer mais com a covardia que é.
uma dose a mais para sentir-se bem, um cigarro só para poder soltar a dor no peito pelos lábios, só mais outra pessoa para enganar a si mesmo, fingir que não é solitário, mas você acorda sozinho na cama, e se quebra mais uma vez, a dor se transforma em lágrimas e você evita a todo momento chorar, porque da última vez que chorou prometeu que não iria chorar mais, mas chora de novo, é incontrolável.
"calma, isso vai passar, a dor é uma besteira", pensa.
tudo o que mais quer é fingir que está tudo bem, e consegue... para os outros, mas ao mesmo tempo quer implorar ajuda, mas lembra que ninguém pode te ajudar, a não ser a si mesmo.
"vamos, mais uma dose", pede para o garçom.
na noite tranquila onde todos dormem, você caminha em passos lentos, transparecendo calmo, mas o coração se acelera, é só seguir em frente, continuar caminhando que no final de tudo estará a sua calma, afinal, você já se assumiu um covarde de vez, não precisa parecer forte para mais ninguém, a culpa de todo fracasso é sua, até mesmo quando tenta acertar, erra.
no final de todo o percurso, você sorri e respira fundo, o coração se acalma, uma música suave vem na mente, é uma das suas favoritas, o sorriso se alarga mais e você pergunta a todos, mesmo que esteja sozinho "se eu cair, vocês me pegam?", a resposta não viria, você ri e responde "não. então, nessa noite eu vou voar sozinho" e se joga no sono eterno e sem sonhos.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Ponto.

às vezes dói tanto que eu tenho vontade de sumir, as lágrimas caem de forma descontrolada e eu desmorono lentamente, sangro o suficiente para ser morto, mas não morro.
meu coração é um só e não quero mais ele, não quero mais você. não posso lutar contra algo tão forte assim, quem sou eu, afinal? apenas um estranho conhecido para você.
não suporto suas mentiras, mas preciso delas para poder dizer que tudo está bem, para me sentir confortável quando na verdade eu quero morrer.
venha ao meu encontro, estou sempre a sua espera, não quero morrer de desgosto e ansiedade apenas para ver o seu rosto e me deliciar com o som da sua risada, quero sentir o meu coração acelarar com o seu toque e quero me afundar mais na dor, ir de frente com a morte, mas por instantes quero apenas pensar que você é só meu e esquecer de toda a dor que carrego, esquecer de toda a verdade que eu sei sobre você.
quero não pensar ao seu lado, apenas, mesmo que no dia seguinte a dor caia toda sobre mim, mesmo que o mundo me incrimine por isso.
vamos, meu bem, não é tão difícil dizer a verdade, é tão fácil quanto mentir, então me mande embora, diga que eu não sou seu, fale e grite que ama e tem a outro, me fira até atravessar o outro lado, ande, me mate logo, me faça cair e tombar para eu não conseguir me erguer mais.
oh, meu anjo, não, não e não! não faça isso; sou apenas um coração partido e confuso, não faça isso, deixe-me aqui iludir na falsa esperança que um dia você será meu, te amo demais para querer te deixar, mas sofro demais para querer te amar, não sei o faço, meu amor, não sei o que quero ou para onde corro.
deixe-me apenas ficar enquanto há tempo, meu bem, nosso tempo é curto juntos, anda logo, venha esta noite me ver, estou de partida e não sei te dizer adeus, quero estar com você até o último segundo que o tempo me permitir, quero gasta-lo inteiramente contigo, então venha, meu amor, nosso tempo é curto demais, deite-se comigo até lá e me mate enquanto isso.