Você partia, seus passos continuavam firmes no chão, seguindo em frente... as lágrimas caiam sem que eu percebesse, volte aqui, corri, corri e corri até você. Por quê?, perguntei, e corri mais para poder te alcançar. Meu tudo. Quando cheguei atrás de você, pronto para agarrar seu pulso e impedir sua partida, você deu mais um passo: rápido e firme, escapando de minha mão, aquela música começou a tocar em alguma lugar, não sabia dizer se era só dentro da minha mente ou em algum lugar aleatório. Volte. Continuei na mesma posição sem olhar para qualquer um dos lados, só para você. E mais aquela música se repetia, me causando profundo desgosto. Aquele sentimento de novo: desespero, vazio. Abandonado.
Novamente, aquele mar imenso, fui posto lá de novo. Frio e escuro, desesperador. Olhei para os lados, procurando algo, algum sinal de vida, queria sair dali. Olhei para cima vendo a luz que vinha do céu, mas era só um borrão. Quero chegar lá, quero me sentir quente de novo. Veio aquela música, fechei os olhos e tampei os ouvidos, não queria mais escutá-la. Silêncio dentro da minha mente. Ensurdecedor. As imagens de você partindo vieram à mente. Abri os olhos com a mesma força com que eu os fechei, olhei em volta de novo, e a música repetitiva, tocava, deixando-me ainda mais desesperado. Comecei a nadar em direção da luz, fugindo daquela música, daquele frio. Nadei o mais rápido que mais pude, era difícil chegar a superfície. Quanto mais chegava perto, mas longe parecia estar. Minhas lágrimas quentes mesclavam-se com a água salgada dor mar gelado. Queria sentir algo vivo, queria respirar.
Queria aquela droga, mais uma dose com gelo... não, queria a garrafa inteira, sem gelo, quente. Queria sentir o alcóol me esquentando e a droga pulsante em meu sangue, encontrar um lugar para descansar e um peito, um colo para dormir, já estava cansado de nadar, encontrar saída para aquela eternidade sem fim, era difícil continuar respirando. Uma saída, um salva vidas... qualquer coisa que não me faça mais nadar, mesmo que eu tenha que desistir e afundar de vez naquele azul profundo e calmo que eu tanto gostava, mas que tanto me assustava e me fazia tremer de frio.
De repente a saída, a luz que me machucou a vista de tão forte que era, de tão claro e vivo. Pude respirar com alívio, um ar novo. Horas, horas naquela vertigem, no delírio de estar em algo seguro, terra firme. Boiando, olhos fechados, sentindo o sol em meu rosto e meu corpo flutuar, de repente a luz sumiu e me fez abrir vagarosamente os olhos, olhei para o lado e vi um barco vagarosamente parando ao meu lado, mais um delírio, a abstinência de tudo, sentindo falta da realidade. Eu queria sair daquela ilusão que me fazia entrar em desespero. Voltei a fechar os olhos ignorando aquele barco que fazia parte da minha alucinação. Aquela música, aquela música de novo... E meu nome sendo chamado. Abri meus olhos e olhei em direção do barco e lá estava tudo o que eu queria ver, tudo o que eu queria tocar, sentir.
Naquele barco, de volta para terra, de volta para casa, caindo fora daquela ilusão, indo para bem longe daquele lugar. Ele me olhava calmo e sorridente, e eu o olhava assustado, como se fosse um fantasma, corri para abraçá-lo, e ele desviou. De novo escapando das minhas mãos. Você me perdeu, disse, e a gente não pode se tocar.
Tudo se desmancha vagarosamente e a última coisa a sumir foi o seu sorriso. Era noite, a garrafa vazia, estava deitado no chão, sem realmente ter conhecimento do que se passava ou de que horas eram. Sentei no chão, olhei para os lados procurando saber o que se passava, coçando a cabeça. Levantei, fui em direção ao banheiro, lavei o rosto e olhei meu reflexo abatido no espelho. Tomei alguns remédios para dor de cabeça e fui para cozinha buscar um pouco de água. Eu não sabia mais o que fazer, sair daquele desespero, jogar aquela dor para longe.
Liguei o som. Aquela música. As lágrimas vieram sozinha, aquele sentimento de novo: desespero, abandono. Adeus. Não conseguia desligar o rádio ou trocar de música ou estação, era quase uma obrigação escutá-la. Masoquismo emocional. Tão calmo, tão inspirador... mas os sentimentos que passavam era de puro desespero, morte... abandono. Como uma música poderia me fazer sentir daquele jeito? Como uma música poderia descrever meus sentimentos sem nem ao menos dizer uma palavra? Lembraças, lembranças e lembranças, lembraças que partem o coração, e nos faz querer morrer. Sentimentos que fazem nos sentir sufocado, sentimento nostálgico.
Alguma coisa no passado muito triste aconteceu, e eu não sabia o que era, eu só sabia que havia acontecido, era esse o meu sentimento. Turbilhões de sentimentos e pensamentos me invadiram. Queria me livrar disso tudo. Queria ir para longe, mesmo estando longe, porém, dessa vez, mais longe ainda... o longe onde você estava. Meu corpo, minha alma choravam. Tão profundo. Desesperador. Se não fosse tão tarde, gritava.
Olhei para uma foto em cima do móvel, peguei nela e a observei. Era tão feliz, tão feliz que chegava a irritar. Meu peito se aqueceu e eu vi o passado sendo desmanchado, como se alguém pegasse tudo que houve e queimasse. E eu deixei. Tudo tinha que se queimar e deixar ser queimado. Que o vento se encarregasse de levar tudo para longe, varrer toda poeira, todo o resto do que sobrou e que não prestava mais.
Eu estava cansado de tudo aquilo, há muito tempo eu estava fraco e eu não poderia mais lutar contra aquilo. Há muito tempo... que eu lutava sozinho e eu estava morrendo, já estava cansado daquilo tudo e era hora de voltar para casa.
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