quarta-feira, 11 de junho de 2014

Meraki

A jovem abriu os olhos e a primeira coisa que encontrou foram os dele, que pareciam tão sonolentos quanto os dela deviam estar. A janela ao fundo fazendo que a luz entrasse, os olhos marrons e sonolentos e o esboço de um sorriso de bom dia formou um cenário perfeito à vista daquela mulher, poderia tirar uma foto e observá-la todos os dias por tamanha sutileza, delicadeza e doçura que era o conjunto. Nunca pensou que azul, verde e marrom + luz pudesse ser tão harmonioso como aquilo. Aconchegou-se nos braços dele e o coração se aqueceu ainda mais. Jamais haveria uma manhã tão doce quanto àquela, mas não podia negar que por trás de toda sutileza do momento, havia a excitação e o desejo ardente de possuí-lo, a cena (ou o homem) era extramente sensual. O homem dos olhos marcantes, pensou, esse era o nome da obra de arte que tinha ao seu lado. Talvez estivesse com um sorriso sonolento, podia sentir a felicidade dentro de si queimando, por mais que quisesse negar. Ganhou um cheiro no pescoço e como ela gostava desses cheiros e beijos, melhor que isso era quando a mão dele passeava pelo o seu corpo, mãos que a seguravam com firmeza, serpenteavam por ela com força, com desejo. Como ela amava as mãos dele no corpo dela! Ele tentou levantar, ela o trouxe de volta, não deixaria sair dali sem um beijo sequer. Aconchegaram-se um nos braços do outro, entre carinhos e abraços, saiu um beijo e do beijo, ah, o beijo que era sempre uma explosão: quando começava, terminava em sexo, era fato e, como todo fato, aconteceu. Explosivo. Agressivo. Excitante. Violento. Era Marte, era Áries em guerra, só não era guerra o que faziam. Ofegante. Veio, então, a erupção do momento e o ponto final daquela manhã. Descansavam, porém, não foi por muito tempo, ele sentou-se no colchão, sorriu para ela e disse baixo:

- Vou tomar banho, tudo bem? 

Ela só sorriu de volta e fez um 'sim' com a cabeça, sendo assim, o homem levantou-se, pegou as roupas no chão e saiu do quarto. A mulher fechou os olhos, levou a mão nos cabelos e suspirou pesado.  Oh, por deuses, por que tinha que se sentir daquela maneira? Sua vontade era de fazer seu coração um cofre, colocá-lo lá dentro e guarda-lo apenas para si. Melhor, queria ser o coração dele, assim, não sofreria com o desejo, nem com o que sentia, seria parte dele, os sentimentos dele... Engoliu seco, interrompeu seus pensamentos, não podia, nem queria pensar daquela forma. Era amor? Preferia pensar que não, é difícil amar quando não se pode amar, quando nunca soube o que é o amor, quando escolhe caminhos que a vida te impede disso. Racionalize as emoções, era esse o seu lema. Depois da felicidade, a dor que ardia por dentro era bem maior, mas não se deixava levar por isso. Queria que um buraco negro a sugasse, toda aquela confusão a deixava maluca. A porta bateu. No segundo seguinte, ele entrou com a calça social preta e a blusa social branca completamente aberta, os cabelos molhados e a toalha no pescoço: deslumbrante, irresistível. Poderia devorá-lo ali mesmo, em pé, mas sabia que a hora da partida se aproximava, ficou apenas encarando-o deitada e ele, que não tirava aquele sorriso doce dos lábios, se aproximou e sentou na cama e tirou do bolso a carteira, e da carteira, o dinheiro. Contou e entregou nas mãos dela. 

- Vê se está certo - contou o dinheiro uma, duas vezes, ponderou, e tirou a metade do que tinha ali e devolveu - Metade?

- Uma fica por conta da casa - sorriu e pôs o dinheiro na mesinha ao lado da cama. 

O homem levantou-se, deixou a toalha pendurada num cabideiro, fechou a blusa, ajeitou a calça, foi até a porta e preparou-se para sair do quarto, olhou para a mulher deitada e disse: 

- Te ligo essa semana, sim?

Ela acenou com a cabeça, ele sorriu e saiu porta a fora, não demorou mais que três minutos e ela escutou o som da porta de entrada do apartamento. Respirou pesarosa e aliviada. Levantou-se e foi até a janela pelada, olhou o céu: azul vivo, azul claro, azul bonito, poucas nuvens, mas o vento que batia era frio, assim como seu coração parecia estar, como ela gostaria que estivesse. 

"Mr. Oiseau saiu do meu ninho e voou direto para onde seu coração se encontra. O coração de Mr. Oiseau não se encontra aqui"   

Voltou-se para o quarto, olhou o cômodo e pensou no que faria agora, já que estava com o dia livre, olhou para o dinheiro ao lado da cama e mordeu o lábio de leve pensando o que faria com aquilo, não podia ficar com o dinheiro, definitivamente, não. Vestiu-se, pegou a bolsa e o dinheiro, saiu do apartamento e procurou por qualquer coisa onde pudesse deixar o que não te pertencia, ou até pertencia, porém não deveria. Rodou por aí, despreocupadamente, não precisava de relógio, não tinha pressa e era um dia bonito para estar fora de casa. Parou, comeu alguma coisa, tomou um sorvete e voltou a andar, passou por uma praça, viu um homem deitado, dormindo no banco e resolveu aproximar-se. Olhou, examinou e achou o lugar perfeito para deixar o dinheiro. Abriu suavemente o casaco que o homem usava e deixou o dinheiro lá dentro. Estava satisfeita, sorriu para o homem que acordava e foi embora. Fez o certo, estava satisfeita e já podia voltar para casa. O caminho de volta foi tão lento quanto o de ida, estava anoitecendo. Passou num mercadinho. Estava muito feliz.  

"Hoje à noite terá Yakissoba para o jantar." 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

o gato e o pássaro

pássaro tu
eu gato

toda vez que você se vai, meu coração se parte,
não tenho asas, como tu, e o que me sobra
é ficar na janela a te observar a voar
e a desejar a ser um pássaro, para um dia,
quem sabe, poder voar junto de tu.
será que tu, pássaro,
deixaria gato, eu, voar ao teu lado?
fico à espreita de tua felicidade,
a felicidade de que não sou parte,
só um observador, desejando
um pouquinho, ser um dia o motivo
do teu (sor)riso.
pássaro, tu, não se vá, não se vá
venha aqui me cortejar, fique aqui ao meu lado
ou deixe que eu vá aí ao teu.
não faça mais uma vez o meu coração chorar
com a partida que fará um dia
você nunca mais voltar.
enquanto isso, estou apenas a te contemplar.