domingo, 23 de dezembro de 2012

Only memories

Um dia eu decidi me matar, sair por aí que nem uma louca desvairada, era a hora e eu não poderia mais ir adiante com tal coisa, talvez fosse noite, talvez fosse dia, saí pelas ruas à sua procura, eu queria ver pela última vez aquele seu sorriso, escutar aquela voz que tanto amava, era esse meu último desejo, e então, o fiz.
Fui ao seu encontro, não realmente apaixonada, mas ensandecida, ah, seu sorriso! poderia ama-lo só pela beleza que é de vê-lo sorrindo, o hálito com cheiro de vodca, essa é a única lembrança do seu cheiro, qual é o seu perfume? e o cheiro natural da sua pele? ah, são tantas coisas que é melhor deixar para lá, eu queria apenas a perversidade e a pureza do seu coração por um último segundo, queria apenas ler a sua alma por uma última vez e sentir o gosto da sua pele em mim, dançamos conforme o ritmo, aproveitamos os últimos momentos de memória que poderíamos nos recordar um dia, mas não, não haveriam mais lembranças e nem mais suspiros, como eu poderia dizer que eu não te amo? tudo complicado demais para ser dito, era só a sua intensidade que fazia o coração acelerar.
Talvez fosse tarde, não tinha como dizer, nosso tempo havia se esgotado e a música tinha parado de tocar, toda a sua intensidade tinha acabado e o meu coração chorava, eu podia escutar seu choro em suas batidas, seguia cegamente um caminho para casa, oh, o caminho para o adeus, memórias me vinham e eu me despedia delas carinhosamente, mesmo as dolorosas, aquelas que faziam o coração se apertar, eu queria dizer adeus a todas memórias, a todas as nossas memórias juntos, ah, meus amores, eu estou partindo, eu estou indo, vocês irão me perdoar se eu vier a esquecê-los?    
Estava em casa, eu sabia que estava lá, finalmente em casa, abri a porta para a piscina e vi o que me parecia ser uma foto jogada na beira da piscina e fui até ela e a peguei no chão, uma foto feliz, minha, sua e de qualquer um que fosse, mas era uma memória feliz, sorri, e observei aquilo até escutar o barulho da porta atrás de mim, virei e havia visto um rosto assustado assim que me viu, nos encaramos, sem que eu entendesse muito todo aquele pavor naqueles olhos escuros, olhei em volta, e apenas quando olhei para baixo tudo tinha sentido.
Ah, você, você! você havia me acertado em cheio, eu estava sangrando, meu peito sangrava, levei a mão ao local ferido sentindo a blusa molhada e olhei para mão suja de sangue um tanto chocada. Au revoir! Au revoir! It's a sweet goodbye, my love. O mundo havia ficado embaçado a minha volta e não sentia mais nada, apenas as memórias vindo em minha mente, uma delas estava na minha mão, eu caía, talvez eu tivesse largado a foto enquanto a minha queda não terminava, a minha queda gelada e molhada, parecia em câmera lenta, parecia que eu caía de um penhasco, acertei a superfície da água e afundei, o mundo havia se escurecido, era noite! mas antes de ser noite, você veio, nossa última memória me veio, você, seus olhos, seu hálito adocicado de vodca e o sorriso, sim, o sorriso. Adeus!
Agora eu podia dizer livremente, era manhã, todos já haviam ido embora, você já não estava mais ali, havia desaparecido, sumido, todos eles, cada um deles, todas as lembranças tinham sumido, não completamente, suas marcas estavam em mim, mas eles tinham ido embora, todos os meus amores, por que todo adeus é triste, mas tão revigorante? o gosto de vodca havia ficado, apenas o gosto, o sorriso e os olhos se apagaram, junto com os outros hábitos, cheiros e características, o gosto da fumaça de cigarro ou o cheiro de um perfume que eu nem sequer lembrava mais o nome, nada mais fazia sentindo, me espreguicei e abri a janela naquela calma manhã, olhei para o espelho e sorri o sorriso que tanto amava.  
 

domingo, 16 de dezembro de 2012

Ergh!


Someone is dying.

a mulher quis se jogar em cima do corpo dele,  abraça-lo, sentir pele com pele e um beijo salgado de suor, quis tê-lo só para ela. as lágrimas escorreram, como isso pôde acontecer?
ela se aproximou dele, aconchegando-se em seus braços, sentia vontade de sumir.
suas mão alisaram a pele lisa e os músculos da barriga, o desejo de passar as unhas e fazê-lo sangrar, sangrar até a morte, a fez sorrir.
o homem ao lado, se mexeu, abriu os olhos e em seguida os fechou novamente, respirou fundo e demorou mais um pouco para poder acordar e olhar a mulher que tinha o rosto manchado de lágrimas ao seu lado.

- bom.. dia?! - disse ele , a mulher o olhou indiferente e nada disse - por que você está chorando?
- quem disse que eu estou chorando? - a mulher escondeu o rosto nele, o fazendo rir, ele puxou carinhosamente o rosto da mulher para cima, a encarou com um olhar divertido, enquanto limpava as lágrimas dela, deu um beijo leve na testa dela antes de encara-la de novo e dizer sorrindo:
- seus olhos me dizem isso.

aquele ar divertido, sorriso sereno e perfeito, como se nada tivesse acontecendo, a deixou com raiva, como é que ele não percebia aquilo?

Someone is dead.

ela queria arrancar o peito fora, as lágrimas de raiva se explodiram e ela sentou por cima do homem com as mãos fechadas no pescoço dele, o deixando um tanto surpreendido.

- ótima forma de acordar. agora me diz, o que foi que aconteceu, mulher? - disse o homem atordoado com aquela situação.
- você me pergunta o que aconteceu? olhe para gente, olhe para mim, você faz eu me apaixonar por você, faz com que tudo pareça perfeito quando não é. quantas outras você trata assim? quantas outras você ama? você vai me abandonar e eu não vou suportar isso - ela fez mais força em volta do pescoço do homem - então, eu prefiro que você morra!

o homem a encarou sério, riu sarcasticamente e trocou as posições num passe de mágica, ficando por cima da mulher, deixando-a assustada.

-  é isso que você acha? - tirou do pescoço as mãos já sem força da mulher e jogou os braços dela por cima dos seus ombros e encaixando-se a força entre a pernas dela. sorriu - tudo bem, então, eu deixo você me matar quando você quiser, mas saiba que eu também amo você, e como desejo antes de morrer, eu quero matar você de prazer.

ele fez pressão no quadril dela, fazendo-a sentir a excitação dele, um suspiro de satisfação saiu pelos lábios da moça, ele deitou o resto do corpo por cima do dela e deu um beijo entre muitos que viriam em seguida.

um beijo grudado no pescoço suado, ela o deu e ele não demorou muito para se levantar e vestir uma samba canção que estava jogada pelo chão, ela o observou e se levantou da cama em seguida pegando as roupas jogadas no chão e vestindo-se.

sentou na cadeira que estava no meio do quarto, enquanto o homem procurava por algo nas coisas dele. ele parou de repente de mexer na cômoda e virou olhou a mulher sentada na cadeira que o observava, sorriu e foi até ela.

- então, quer dizer que a senhorita me ama e eu não te amo? - riu.
- exato.
- ok, eu perco a droga do meu tempo com você várias e várias vezes, sempre te vejo, digo que aprecio muito da sua companhia, além do mais que você não acha que eu me arrisco demais estando com você, vai que um dia desses você decide que eu fiz algo que eu supostamente não fiz e me mata? maluca do jeito que você é, não duvido de nada , mas acho que se você não fosse também, não sei se te amaria tanto quanto eu amo agora.
- mas... mas... - ele pôs a mão na boca da garota;
- sem mais e nem menos, é isso, a gente deixa tudo exatamente como está agora, eu não tenho outras e nem tenho interesse em tê-las, agora, você pára de bobeira, ok? e venha vamos tomar café, namorada - deu um beijo rápido nos lábios dela, enquanto ela apenas o olhava atônita, sorriu e saiu do quarto.
a mulher acompanhou os movimentos dele, com os olhos e a cadeira, e ficou olhando para porta, sem nem saber o que pensar ou dizer sobre aquilo. era verdade aquilo que ela tinha escutado, não estava sonhando não? uns minutos se passaram ali, e de repente a porta se abriu devagar e só a cabeça do homem apareceu sorridente.

- acho que eu esqueci uma coisa aqui - ele foi até ela e a pegou no colo - já que você não quer vir por conta própria, vou ter que te levar no colo  - e pela primeira vez no dia, a moça sorriu para ele, o deixando ainda mais sorridente - então, vamos que eu to com fome.

- idiota! - e o beijou.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

It's a celebration.

" I think I'm ugly
And nobody wants to love me
 
Just like her I wanna be pretty

I wanna be pretty
Don't lie to my face cuz I know
I'm ugly "








É bizarro, é tudo muito bizarro.

A verdade é: eu sou uma idiota, burra, magrela e branquela que não passa de um rostinho bonito, mas que é um vazio por dentro. Por que eu não consigo demonstrar que eu estou simplesmente quebrada? A única coisa que eu consigo fazer é ser idiota e me sentir assim.

Parece que as pessoas só me vêem como... sexo, eu pensei que já tinha parado de vender essa imagem, mas parece que eu continuo com ela. Sabe quando você tenta de todas as formas ficar bonita, mas você se olha no espelho e vê algo completamente horroroso? Como as pessoas conseguem me achar bonita quando eu sou tão sem graça, sem atrativos e nem um pouco inteligente?

Eu tento ver filmes, ler livros só para ter algo para conversar, ser um pouco mais interessante, só para poder me sentir um pouco melhor, eu vou a academia, eu me cuido do melhor jeito possível, mas para quê, me explica, para quê? Eu só me sinto uma idiota maior ainda fazendo isso.Que merda, eu tenho um coração, eu tenho sentimentos! Não adianta eu dizer isso, não adianta eu demonstrar que eu sou uma idiota para as pessoas, por que aí sim que elas vem em mim só para dizer "E aí, gata, eu morro de tesão em você, vamos transar?" e no minuto seguinte estar postando foto com a namorada com a legenda "Ai, olha como somos um casal perfeito/ Eu e meu môzu", porra, quer foder, fode com a sua namorada ou então pega alguma outra menininha ou paga uma puta. Queria só ver se eu fosse uma filha da puta master e mostrasse as mensagens de seus namorados pras essas meninas, o que elas achariam, mas nem sou louca, o problema não é meu, e muito provavelmente se eu o fizesse, falariam que eu estou tentando separar casal, que eu sou uma puta que começou a seduzir o cara e blá blá blá, e tudo isso só por que e.

Abdiquei de muita coisa, deixei de lado várias coisas que me faziam mal, parei de beber que nem uma desgraçada, deixei de ir para cama com as pessoas, e quando o fiz me arrependi muito, não pela pessoa ou por ter sido bom/ruim, mas... parecia errado, eu não deveria, mas uma vez eu seria objeto. O erro está em mim, é a única explicação, eu sou um erro. Quem vai querer ser amigo de alguém como eu? Sempre fui destrutiva demais, parece que quanto mais a gente tenta mudar, mais as coisas se tornam difíceis. Eu estou indo pelo caminho certo? Às vezes parece melhor ter continuado naquele caminho, porque as pessoas não iriam gostar de mim de qualquer forma, iriam continuar me vendo como um objeto, eu iria ficar de mimimi, mas seria menos sofrimento.
Fazia tanto tempo que eu não pensava em suicídio, e veja, cá estou eu pensando nisso de novo, eu nunca vou conseguir crescer, eu nunca vou conseguir ser uma mulher, serei sempre a merda de uma garota mimadinha cheio de problemas de pré-adolescente. Eu realmente deveria me tacar de uma janela, mas nem para isso eu sirvo, porque é só pensamento mesmo.

Eu tenho os amigos mais lindos do mundo e às vezes eu olho para eles e acho que não sou o suficiente, que encho demais pedindo atenção, não só deles, mas de todo o resto.

Por que eu sou assim? Por que eu não posso ser normal que nem as outras pessoas? Eu tento ser legal, atenciosa, gentil, eu perdoei aqueles que já me machucaram um dia e ainda falo com eles, não com frequência e nem com muita confiança, mas ainda sim falo; tenho tentado dar chances as novas pessoas que tem entrado na minha vida e mesmo assim parece que eu to fazendo tudo errado, parece que eu to falando com as pessoas erradas, que não serão elas que vão ser as minhas amigas.

Não sei mais por onde ir, não sei mais onde pisar, só sei que eu tenho feito tudo isso por aqueles que ainda estão do meu lado, que eu sei que se eu cair vão me segurar, só que eu não tenho mais coragem de pedir ajuda, não depois de tantas e tantas que eles me deram.

Eu tenho sentido um vazio gigante, parece que um pedaço importante meu ficou em algum lugar no passado e eu não sei que pedaço foi esse, não sei onde eu deixei, parece que se foi e isso é desde que eu estava no Canadá ou logo depois que eu voltei, eu não sei, só sei que eu não me sinto completa ou preenchida, eu nem sequer consigo escrever direito ou pelo menos algo decente. Sumiu, sumiu dentro de mim e eu não consigo achar mais. É algo devastador, uma solidão imensa por essa perda, e eu nem sequer sei o que é isso.

Tudo que eu queria era parar de complicar as coisas, sentar numa mesa de bar, beber uma cerveja e ver as pessoas passarem, ou ir a praia e ver as ondas do mar quebrando na areia, relaxar completamente. Viajar ou simplesmente sumir do mundo, das pessoas, por um dia, esquecer dos meus problemas, de mim.

Infelizmente eu não consegui transformar isso numa história, contar de forma indireta, até porque aquele homem que conta histórias e que as escreve, sumiu, não sei onde ele está, se foi junto com esse pedaço de mim.

Um brinde à minha estupidez, eu sou egoísta demais.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Let it go



Aquela música tocava dentro da casa onde meu nome tinha sido chamado. Ah, aquela música que trazia boas lembranças, machucava o coração e fazia chorar. Eu não tinha nascido ali, meu sotaque não era igual de todas aquelas pessoas a minha volta, mas eu me sentia em casa.

Entrei naquela casa, aquele cheiro de comida vindo da cozinha, mas não era só isso, era o cheiro da casa e das lembranças vividas nela, das pessoas dali: confortante, meu cheiro estava misturado no meio de tudo aquilo, eu morava ali.

Móveis, paredes... passei lentamente entre eles, tocando e sentindo até chegar ao corredor estreito e escuro, sendo clareado apenas por luzes de outros cômodos, andei arrastando as mãos nas paredes frias e adentrei na cozinha sendo recebido pelo sorriso mais doce, mais brilhante de todos.

Ela veio em minha direção e me abraçou de forma quente, da forma que só ela sabia fazer, me abraçou da forma mais doce possível e todo aquele vazio e solidão se foram, aquele quente se apossou do meu peito novamente.
"Você está tão magro e pálido, precisa comer mais, não acha? Vou cuidar direitinho de você de novo.Lembra dessa música? Eu sei que você adora. " - riu. 

E eu apenas sorri de volta, as lágrimas quase escorrendo por toda aquela calorosa recepção, por todo aquele amor, por tudo aquilo estar acontecendo de novo.



Abriu os olhos e sentou-se assustado olhando em volta procurando a saber onde é que estava: estava em casa, no seu quarto e suspirou com um pesar, saiu da cama indo direto para o banheiro lavar o rosto e voltou para o quarto sentando-se na beirada da cama.

A tristeza invadiu o peito, ou será que já estava ali?

Encarou-se no espelho que tinha de frente a cama: pálido, magro demais e... vazio. Por que era tão sem graça? Tão sem atrativos, um alguém que se morresse não faria falta no mundo, quem iria se interessar por alguém tão quieto, chato e desinteressante?

O aperto no peito aumentou junto do nó na garganta, por que havia sonhado com aquilo, com ela? Se ela estivesse ali, tudo seria diferente, tudo teria sido diferente e talvez não fosse essa pessoa tão cinza que era, tão apagada.

Ah, aquela música! Nem gostava mais daquele estilo de música, os anos haviam se passado e ele era uma pessoa totalmente diferente; correu para o computador, assim que ligou, acessou algum site que desse para ouvir música e pôs o nome daquela música e assim que carregou, colocou o fone e escutou aquela música que fazia anos que não escutava.

Enquanto a música tocava, as lembranças vinham e colocavam um sorriso em seu rosto, hora ou outra cantava o que ainda sabia da letra.

Sentiu-se completo e aquecido por um momento, fora levado por lembranças repletas de inocência e alegrias. Há quanto tempo não sabia o que era ser preenchido? Havia se tornado algo completamente vazio, não conseguia sentir-se preenchido, alguma coisa faltava. O quê?

A música havia terminado e então deu replay, precisava daquilo de novo, havia se esquecido como era bom sentir-se preenchido.

Estrelas ainda brilhavam no céu, escura e sem lua, algumas poucas nuvens e um silêncio confortante, sem aqueles barulhos de quando o sol está brilhante no céu e foi em uma noite dessas que ele havia se deixado em algum lugar e não sabia mais onde achar, era repleto de vazio.

Saiu de frente do computador e foi para janela observar a cidade que ainda dormia. Por que era tudo tão complicado? Por que tinha que complicar tanto as coisas? Poderia ser mais engraçado, mais divertido, mais interessante e até mais bonito, mas por mais que se esforçasse nada parecia adiantar.

Queria ver, tocar e sentir aquela mulher de novo, queria que as suas lágrimas fossem limpas novamente, queria sentir sua presença mesmo dormindo, mas nada disso aconteceria, tudo já tinha sido desfeito com tempo,  o sorriso dela já tinha se esvaído.

Pediu as estrelas, à lua escondida e a qualquer outra coisa que viesse em sua cabeça, pedia com força para que aquele sorriso nunca se apagasse e como num piscar de olhos, sentiu aquele outro corpo enlaçar o seu por trás, ficou tenso por momentos até tomar a coragem de olhar para trás e encarar aquele sorriso fraco nos lábios dela, virou-se completamente para ela e a deixou leva-lo para onde quer que fosse.

O colocou na cama e os dois se encaravam sem trocar uma palavra, ele deitado e ela em pé ao lado da cama. Ela o mataria e levaria sua alma consigo? Antes que dormisse, antes que morresse, antes que aquele sonho lúcido acabasse, ela disse:

"Onde é que nós estamos agora?"





sexta-feira, 23 de março de 2012

Buried Myself Alive

A carta havia chegado, a jovem correu em direção a caixa de correio querendo te-la logo em mãos. Entrou dentro de casa, e entre tantas correspondências, achou a que queria, cheirou antes de abri-la e levou próximo ao coração disparado.

Não sabia se ria ou se chorava, era incerto aquele sentimento, tinha medo de abrir aquele pequeno envelope e ver palavras que machucassem, mas queria ver palavras que a confortassem também. Sentia alívio, sabia que a mensagem havia chegado e que havia sido correspondida.

Sentou à mesa e leu a carta atentamente, leu e releu, o coração acelerava cada vez mais e mais aquele aperto incomodava, aquela sensação de nervosismo, estava inquieta.

Pegou o papel e a caneta pronta para corresponder, mas o que diria? por onde começava? não sabia, estava perdida em seus pensamentos, era tanta coisa para falar, tanta coisa para demonstrar que não sabia nem mais qual era o começo ou o fim daquilo, ela havia começado com aquilo e iria até o fim, era necessário para ambos.

Rodopiou a casa, fez tantas outras coisas antes de começar aquela carta, só por não saber começa-la, onde era o começo? onde era o fim? ah, teria de começar algum dia, e seria naquela hora, estava de pé, parada em frente a porta do cômodo em que o papel em branco e a caneta estavam, respirou fundo antes de entrar naquele quarto, e sentou-se à mesa, olhou o papel e pensou, pegou na caneta e começou:

"Minha querida amiga,
Quero que saiba que fiquei muito feliz em saber que me correspondeu e que fiquei ansiosa a sua espera. Por onde eu começo? Eu não sei, mas eu quero saber, mas se começarmos juntos saberemos. Para ser sincera, eu não tenho palavras, pois eu não esperava isso, eu esperava que fosse querer me matar, que me enviasse ódio e tudo que eu li foi a nossa dor, o nosso amor.

Suas palavras teriam me feito chorar, se eu conseguisse, a sensação é de aperto no coração, mas as lágrimas não me vem mais, seria isso uma anestesia? não sei, mas me sinto feliz por isso, por essa nossa correspondência.

Talvez nessa história toda, acho que foi o que mais me compreendeu, o que mais via quem eu era, mesmo debaixo de tanta indiferença, mesmo no esconderijo que eu me escondia. Ah! talvez isso tenha me matado, um dia todos perdem a paciência até mesmo os mais santos.

Se soubesse tudo que eu pensei, em todas as nossas conversas imaginárias, de fato, iria rir, ou não, são tantas coisas a serem ditas, foram muitas as coisas que eu não disse? sim, e eu quero dizer, eu preciso te dizer, e é por isso que eu comecei com isso, e olha que coisa mais poética, a forma que começamos, a forma que eu achei para chegar a você, mas são tantas coisas para serem ditas que não falarei disso agora.

Oh! Eu sei tanto do seu amor, eu o senti e simplesmente pisei nele, te esfaqueei da pior maneira que podia fazer, como eu iria te contar? e olha que foram muitas vezes que eu quis, que eu tentei, mas nunca tive realmente coragem, foram tantas as vezes que eu te escrevi, mas em seguida rasguei e queimei, apaguei só para que você não soubesse. Se eu tivesse te contado, como seria? teria sido pior? eu não sei, mas acho que teria sido algo com mais caráter de minha parte, a dor teria sido a mesma.

Por que eu não deixei que você me guiasse? Eu era livre, eu queria me sentir dessa maneira, mas eu tinha medo da forma que você julgava, eu tinha medo de você me castigar, eu não queria a sua reprovação, mas era dela que eu precisava e era ela que eu não quis escutar, dava as costas e ia para o meu mundo ilusório só para sofrer depois com a realidade e dar as costas para ela muitas e muitas vezes que eu julgasse necessário.

Na verdade, acho que mesmo agora eu não faça ideia do quanto você me amou, mas eu sempre soube que amou e teve paciência, foi um verdadeiro anjo, um papel de mãe que não era seu. A liberdade é cruel demais se você não souber usa-la, as coisas perdem o controle e a gente acaba não vendo isso e erra, se perde no meio dela, e não conseguimos saber onde foi que tudo isso começou, mesmo as coisas estando erradas, elas se seguiram até tudo explodir e ir para os ares, igual a uma bomba, à nossa paciência quando termina ou a nossa raiva quando ela não pode ser mais controlada. Eu não duvido do seu amor, e nunce duvidarei, e espero que saiba que eu também te amei, e ainda que te amo e que sinto a sua falta, todos nós erramos, fomos para o lado errado, pois já estávamos nele e não tinha mais saída.

Já senti ciúmes, já quis te por em um lugar onde ninguém pudesse te tirar e te alcançar, um lugar só meu, já chorei por achar isso ou aquilo, eu queria tê-la para mim quando nem eu mesma não me tinha e eu não poderia arcar com isso, queria te matar de amor por não poder ser minha, por ser de outros também, mas não o faria, da mesma liberdade que eu tanto amava, eu deveria da-la a você para escolher o que quisesse e quem quisesse. Eu tentei te proteger da dor, tentei te manter longe de tudo e te disse para ir e ter outros, mas não adiantou, aquilo voltava para você e vice-versa, e talvez a interpretação de tudo aquilo que te falei foi completamente errada após a descoberta, mas eu só queria que você não sofresse mais, que esquecesse, pois você não merecia, nem eu merecia você. Quanta falta de caráter a minha! mas eu quis, juro que quis te manter protegida, provável até de mim mesma.

A verdade é que eu me esqueci de quem eu era e me tornei algo que um dia havia dito nunca me tornar, fiz coisas que uma vez prometi nunca fazer e me perdi então. Sexo, drogas e álcool? e cadê o amor? cadê a pureza? onde estavam? eu não sabia, mas eu voltei a saborear a essas coisas que já havia esquecido, poderia me sentir uma criança de novo, mas a infância já havia ido embora, como suportar tudo isso?

Nunca sequer os escutei rumores sobre mim, a única coisa que sabia era que eu era o monstro do século, que só de ver a minha sombra era algo o suficiente para te fazer vomitar, mas que você suportava a presença dele e que eu era imperdoável, mas eu não sabia se era verdade, eu tinha tantas dúvidas, eram tantas coisas que para mim não faziam sentido, ou que façam, mas era só você para poder me explicar. Todas essas coisas me fizeram ficar mais distante ainda de falar com você, de saber se era realmente verdade ou não , eu não queria me sentir ferida.

Durante todo esse tempo foram tantas poucas coisas que me aconteceram, mas o suficiente para me fazerem ver a verdade, ir à busca disso, que me fizeram ter coragem de arranjar um meio de chegar a você.

Meu silêncio foi a minha covardia de não encarar os fatos, e talvez, por pensar que eles já estavam resolvidos por outros. Como pude deixar os outros falarem quando eu que tinha que falar? como eu pude deixar as pessoas falarem dos meus sentimentos, quando era eu quem sentia? Só eu sabia da verdade escondida em mim, e não me permiti dizer, e agradeço que tenha me deixado falar mesmo apesar do tempo passado, tempo perdido.

Que pessoa tola eu sou!

Quero que saiba quem eu sou, e eu sou essa pessoa que eu estou te descrevendo, sou esses sentimentos que te disse, ainda me parece tudo um tanto confuso, mas me achei em algum lugar dessa confusão toda. Nunca me senti tão em mim quanto eu me sinto agora, eu me sinto mais eu.
Chega ser estranho dizer isso.

Depois de tudo isso, quando veio a calmaria, eu pude perceber pessoas que nunca me deixaram, que nunca deixaram de falar comigo, nem mesmo quando eu as tratava mal, quando eu as ignorava e elas continuaram a falar comigo, enquanto àqueles que eu sempre dei valor, fizeram experimentar do mesmo veneno, é ironia demais, mas eu pude descobrir o quanto essas pessoas que eu não dei atenção são legais, por mais incompreensíveis que sejam para mim. Eu era cruel demais, eu mereci o que eu tive, todo o castigo foi uma coisa boa e o meu maior medo é voltar ao mundo, as pessoas que me faziam mal, eu não voltarei para isso, eu construí um muro bem alto em minha volta, alto até demais, rígido nada passava sem eu permitir, mas eram livres para sair. Castidade. Um certo dia eu experimentei daquilo de novo, só uma dose, e eu me arrependi e vi que eu não mudei numa questão que eu preciso mudar, aprender a ganhar não, aprender a dizer não.


Tem sentimentos que a gente sente e que ninguém pode explicar, coisas que a gente acha que ninguém pode, não era mútuo, porque eu tinha medo de você, mas quando estava passando a ser, tudo se foi.

'Now I'm sitting alone, I'm looking for help, left me here on my own, I'm gonna hurt myself, maybe losing my mind, I'm still wondering why, had to let the world let it bleed me dry'

Sinto a sua falta, quero te ver e quero te dizer o que eu não disse aqui, te deixar claro tantas coisas que eu esqueci, pois são tantas... e tem o sono que está querendo me levar.

Iremos nos encontrar, num dia só nosso, ninguém precisa saber, ou podemos gritar ao mundo, e a partir daí que a gente vê toda a verdade diante da gente.

Eu me tornei uma pessoa que assiste filmes o tempo todo e tenta deixar tudo menos confuso só para achar a si mesma cada vez mais e mais."

quinta-feira, 22 de março de 2012

Elle Me Dit

- Apenas deixe ir, não se prenda a isso, mas carregue com você sempre nas lembranças os bons momentos e não estacione na dor.

A janela aberta, um pequeno anúncio do amanhecer no céu, uma xícara de café na janela e outra na mesinha e duas pessoas.

O homem a olhou, a expressão vazia no rosto, indecifrável seus pensamentos, nem se a menina tentasse ler com poderes psíquicos, se existissem, conseguiria, pensamentos e sentimentos dele estavam guardados onde ninguém pudesse tirar, arrancar, eram só dele, ninguém além dele sabia o quanto sofria.

- Eu queria poder esquecer tudo isso, queria te pegar pelas mãos e correr com você por aí, feitos dois loucos, ou apaixonados, mas não devo dizer isso, eu sei que te machuca. Dói em mim, mas deve doer mais em você, não é mesmo?

Não respondeu, apenas se manteve frio e o silencioso. Ela sorriu magoada.

- Foi intenso, não foi? mas foi doloroso. A vida deveria ser que nem esses filmes que a gente assiste de romance, sempre com um final feliz, onde as pessoas esquecem rápido a dor e aprendem com todos os erros que cometeram, assim, fácil, é por isso que eu gosto dos finais tristes e reais, pois é assim que a vida é. Mas eu gosto também de finais felizes, eu fico imaginando que talvez, em algum dia, eu terei o meu, assim como você o terá.

Pegou a xícara de café olhando para o líquido escuro, pensando no que diria, passaram a maior parte da noite em silêncio, sem encarar um ao outro, e já era quase manhã quando ela decidiu falar, sabia que dele não viria nada, era ela que tinha o que dizer, era ela quem queria conversar.

- Quer mais café? o seu já acabou há um certo tempo, não é mesmo?

Apenas acenou um positivo com a cabeça, e a moça seguiu em direção a cozinha, enquanto ele apenas olhava a janela aberta sentado naquela poltrona que ele tanto adorava, mas que não era dele, era dela e aquilo automaticamente fazia com que já não fosse mais tão confortável quanto era antigamente.

Ela apareceu com uma garrafa térmica e serviu, deixando a garrafa ao lado da xícara, assim poderia se servir quando quisesse.

- Sirva-se quando e o quanto quiser, sabe que não precisa perguntar, mesmo que... - pausou, respirou fundo e sorriu - a intimidade tenha acabado.

Cada minuto o céu ficava mais claro, a chegada da manhã. A menina se posicionou em frente a janela, admirando o céu e o sol que chegava iluminando aquela nova manhã.

- Infelizmente, errei, não só com você ou com outros, errei comigo também, e demorei para perceber, demorei demais pro meu gosto, mas ao menos percebi, e quando o fiz, machucou mais do que eu pensei, não conseguia me mover, não conseguia pensar, não conseguia falar, não conseguia nada, a não ser ficar imóvel em algum canto onde o sol não pudesse me alcançar, onde eu pudesse chorar em paz com as minhas dores e meus erros. Não sei te dizer se cheguei ao fundo do poço naquele momento ou se eu sempre estive nele e não via isso. Eu cavei a minha própria cova e me enterrei depois, pois era isso que eu precisava, era isso que eu queria: sumir, morrer. Não diga que não, você viu isso, não diga que eu estou mentindo, pois não estou, você viu e só não sabia o porquê. Talvez eu tenha inventado alguma mentira para explicação de todas aquelas coisas, talvez não, não consigo lembrar, mas não faz a menor diferença isso agora.


Respirou fundo a garota, sentia um peso no peito, sentia tristeza, mas não queria demonstrar, e não iria. Ele a ouvia atentamente, não tirava os olhos dela, e quanto mais falava, mais nervoso ele ficava. Precisava de um cigarro: procurou nos bolsos do casaco, apalpou os bolsos da calça e nada, lembrou que havia decidido parar de fumar e quis se dar um tiro por aquilo, como não havia pensado antes de chegar àquele apartamento de que iria precisar de um maço ou mais de cigarro?

- Procurando por cigarros? - ela riu.
-Sim, e pelo visto, os esqueci - mentiu, não queria dar detalhes de sua vida ou escolhas.
- Fique aqui e já os trago - e a garota deixou a janela e sumiu pelo corredor.

E uma coisa havia o deixado curioso: desde quando ela começara a fumar? sempre havia sido contra, e sempre reclamava de quando fumavam ao seu lado, e quando queria ser má, jogava os maços que encontrava no lixo, na privada ou fazia qualquer coisa para inutiliza-los.

Ela apareceu com um maço e um isqueiro, ele nunca tinha ficado tão feliz em acender um cigarro e traga-lo quanto antes, nem mesmo em situações mais intensas que aquela.

- Eu sei o que você deve estar pensando, que eu estou fumando, mas não, não estou. Eu ganhei uma caixa cheia de maços, agora a pessoa que me deu isso, acho que ela não tem muita noção das coisas, até porque ela sabe que eu não fumo - riu - se quiser, pode levar, eu pensei em jogar no lixo, e vou, se ninguém quiser. Quer?

- Seria ótimo - sorriu levemente alegre e a menina novamente sumiu no corredor, aquilo definitivamente era a sua volta com o cigarro, e o melhor, era de graça e exatamente o que ele fumava, era sorte (ou azar) demais, mas aquilo o fez feliz. Alguma coisa boa naquela visita.

Voltou e entregou a caixa com vários maços dentro, olhou para dentro e sorriu ainda mais em ver várias caixinhas daquelas. Quantos eram: 20, 40? não tinha ideia, mas estava satisfeito.

- Um presente, vamos por assim.
- Obrigado.

Ela só sorriu para ele e voltou ao lugar que estava anteriormente. O silêncio novamente ficou com os dois, absortos em seus pensamentos e imersos em sentimentos que não demonstrariam um ao outro.

- Eu sumi de vista de todos, e de repente, tudo veio ao seu ápice, fazendo com que eu voltasse a ser vista, então mais enterrada eu fiquei, mais eu me escondi, que nem uma covarde, mas eu me condenei ainda mais do que antes, eu sabia que aquilo iria acontecer, eu sentia, aquilo não saia da minha cabeça. Só queria que as pessoas me esquecessem, não queria vê-las jogando os meus erros e o que eu queria esquecer na minha cara. E assim que tudo passou, eu pensei que fui melhorando, as coisas aparentemente, pareciam que estavam melhores para todos, até chegar um dia em que eu descobri que todos estavam bem, que todos haviam se saído bem, menos eu, eu ainda tava soterrada, só não tinha percebido isso antes, não era a mesma dor, não era toda aquela coisa de antes, mas eu ainda não havia saído daquele poço mais fundo do que aparentava ser.

Pegou a xícara para tomar mais do café e não tinha quase nada, completou e voltou ao seu lugar, olhou para o sol brilhante que machucava a vista de tão forte que era, mas ainda sim, a manhã era fria, ambos vestiam casacos pesados, e mesmo brilhante e amarelo, tinha um tom triste.

- Eu estava vazia, mesmo tendo exposto meus pensamentos às pessoas, eu não conseguia dizer e nem mostrar meus verdadeiros sentimentos, meu papel estava sempre branco, não saía uma palavra, um desenho... nada, era um branco, um vazio que eu não conseguia expor com arte, as palavras vinham a garganta e ficavam entaladas ali, era algo completamente sufocante, era vazio e branco, estava preso em mim, eu não conseguia me expor e eu precisava disso. Tudo parecia tão bem, pensei comigo, por que eu não consigo? por que? e aquela pergunta ficava na minha mente, e o tempo passou gentilmente, e um certo dia eu consegui, não era exatamente o que eu queria e não saiu como eu imaginei que fosse, mas já era um alívio, eu havia conseguido passar para o papel alguma coisa, aquilo realmente me fez me sentir um pouco melhor, mas depois daquilo não havia conseguido mais, eu tentava, eu começava e não terminava, nada, nada e nada de novo, aquele vazio, aquele branco, aquela trava não me deixava, e quando eu conseguia fazer alguma coisa, ao meu ver, não era bom o suficiente e eu também não queria demonstrar aos outros, não porque não era bom o suficiente, já mostrei várias coisas não tão boas assim, mas era medo, medo, eu estava quebrada por demais, muito machucada, e nem eu sabia disso, eu na verdade, não tinha ideia e as pessoas a minha volta também não haviam percebido, você não estava mais lá, assim como os outros, talvez você teria percebido, ou não. Não importa agora. Eu me rendi ao medo de viver, eu me rendi a todos os meus medos, e só percebi quando eu estava sozinha, completamente só, e não tive a ajuda que eu esperava ter e de quem eu esperava, e aquilo foi um tapa para mim, daqueles bem fortes, igual ao que você me deu, ou talvez mais forte, mas eu já tinha tanto medo, tanta dor que aquilo não fez tanto efeito assim e não demonstrei nada, eu era um vazio, um branco, um fantasma que as pessoas nem sequer lembravam mais, eu fiquei satisfeita com isso, mas era terrivelmente solitário, e quando passou pela minha cabeça em voltar a viver, eu senti medo de voltar a ser aquilo e em todas outras coisas que me fariam sofrer, que fariam os outros sofrerem, eu estava simplesmente dividida: e agora? e agora?, me perguntava, então eu deixei isso fluir dentro de mim, deixei ir, e guardei em mim apenas o que era bom, não que eu fosse descartar o que era ruim, jamais, só que eu não podia viver com medo ou com raiva, eu perdoei a todos que me magoaram, a todos que eu senti um ódio mortal, e acima de tudo, eu me perdoei, perdoei os meus erros, mas não pedi perdão aos outros, por orgulho e medo ou simplesmente por não querer reviver um passado e coloca-lo em questão de novo, mas isso não significa que eu não estava arrependida, pois estava sim, mas eu deixei ir, tudo, virei a página, sem ter posto um ponto final, pois eu não sabia se um dia eu voltaria a ela, nem que fosse só para dizer desculpas, e finalmente aquele branco começou a ter formas, a ter contornos e reflexos, começou a formar algo, e as cores, ah, as cores, eu pude vê-las claramente, toca-las como nunca fiz antes, e eu comecei a moldar tudo que podia, então eu percebi que era hora de expor tudo que estava no meu peito, tudo que ficara entalado na minha garganta e o que só ficava na mente, se as pessoas iam ver ou não, tudo bem, eu não me importava, eu não estava fazendo aquilo por elas, eu estava fazendo por mim, pelo menos uma única vez, eu fiz algo de bom por mim. Que me julguem, que coloquem tudo aquilo de novo, que me exponham e xinguem, pensei, mas pelo menos fiz a arte que precisava fazer, caso a vissem, eu senti que deveria fazer isso, por mais que o medo me rondasse as vezes, eu tinha de enfrenta-lo fingindo que eu não estava. Sou tão humana quanto você, por mais que não aparente, e a minha decisão de te ver foi só quando tudo estava pronto, quando eu não tinha mais medo de encarar meus próprios sentimentos, as pessoas, quando eu saí da minha covardia, eu fiz tudo da forma que você quis, pediu, dei sugestões, quis entrar num acordo mutuo, e aqui estamos, na minha sala, onde a noite se foi e o amanhã chegou, eu te abraçaria, se pudesse, eu voltaria ao seu mundo, se fosse permitido, eu faria muitas coisas, foi como eu disse, a minha vontade é de te pegar pela mão num dia de chuva e sair correndo por aí, sempre de mãos dadas, e esquecer todas as coisas por quais passamos, esquecer todas as dores, mas não é possível, tudo se foi, já não sei mais quem é você e você já não sabe mais quem eu sou, nos perdemos um do outro, fizemos o que era imperdoável um ao outro, e já não temos mais intimidade alguma, e mesmo que tentássemos de novo, se seguíssemos juntos, jamais poderíamos jogar um na cara do outro o que fizemos um ao outro, eu sei que o que você fez para mim foi por minha própria culpa, por mais que as minhas intenções tivessem sido outras, o que eu tinha feito dava outra interpretação, a errada, e não posso culpa-lo, mas mesmo assim, eu fiquei com raiva, até porque, ao meu ver, você foi longe demais também, quis todos os holofotes em cima de você, aparentemente, fez o que não devia e ainda colocou pessoas que não tinha nada a ver conosco nessa confusão toda mesmo quando ela de fato não existia mais, isso de fato, foi imperdoável, mas depois de um tempo, eu perdoei, mesmo não merecendo, mesmo não tendo pedido, mesmo....

- Elisabeta...

- Não diga nada pois eu ainda não terminei, ou eu digo tudo de uma vez ou eu não digo nada, não vamos deixar as coisas pela metade, mesmo que já tenhamos passado dela, mas vamos até o final com isso, depois você diz o que quiser. E como eu estava dizendo, mesmo que você não tenha se arrependido por nada feito, nada dito, eu te perdoei, mas não por seu erros, mas por mim, eu não o perdoo pelos erros cometidos, mas o perdoo mesmo assim, porque como eu vou perdoar alguém que nem sequer se arrependeu de nada? não há motivo de perdão quando a pessoa não quer, só quando a nossa consciência pede, é difícil explicar, mas é necessário dizer, e espero que um dia, quem sabe, você me perdoe também, e entenda o que eu estou tentando te dizer, nunca duvide do amor que eu senti, das palavras que te disse, saiba que tudo foi verdadeiro, apesar dos erros cometidos, e que nunca tive intenções de machucar ninguém, não era nada mais, nada menos que alguém perdido no próprio egoísmo e cegueira. Dê asas a sua imaginação, interprete da forma que quiser, e se sentir ofendido, pode xingar, bater, ferir, que eu vou acata-las, mas não irei respondê-las, como nunca o fiz, só não sei se elas vão fazer o efeito que você quer, mas se quiser ignorar e sair por essa porta como se nunca tivesse ouvido isso, como se nunca estivesse sentado nessa poltrona a noite toda, tomando café e depois fumando, tudo bem, se quiser não acreditar, fique por sua conta, é com você. Eu irei sempre carrega-lo com carinho nas lembranças, pois tivemos ótimos tempos juntos, compartilhamos sonhos, sorrisos, desejos e vontades juntos, e acho que isso que vale a pena lembrar, isso que vale a pena e ser contado, agora, quanto aos erros e dores, a gente carrega isso como um aprendizado, não se estacione na dor, se tiver sentindo, é só olhar para as coisas boas e mesmo que bata saudades, seja forte, mas não fique rancoroso, não leve a dor e ódio com você pela vida que isso não nos leva a nada. Quem sou eu para dar um discurso assim? talvez, ninguém, mas quem é você para dizer que eu não posso te dizer essas coisas? talvez, ninguém também, até por que não estou fazendo por mal, mas só para tudo não termine mal, pois eu quero seu bem. Então, sinta-se a vontade e diga o que quiser.

O homem tremia na cadeira, o cigarro esquecido entre os dedos, não sabia o que sentia ao certo, engoliu seco, era difícil, muito difícil se mover ou fazer qualquer coisa. O silêncio havia reinado naquela sala, o ar era ligeiramente pesado, a dor apertava no peito mais que qualquer outra coisa. Por que aquilo de novo? não, não era aquilo de novo, era só o ponto final de tudo, será?

Levantou-se, ficou de frente aquela garota, ela tinha um sorriso quase que malicioso no rosto e ele tinha ódio nos olhos.

- Você espera que eu acredite nisso depois por tudo que eu passei? - riu descrente - é muita coragem em achar isso. O que você quer: que eu passe a mão na sua cabeça e diga que está tudo bem agora? Você espera que eu a perdoe só por que agora é uma "boa" menina desejando o bem aos outros? quer me mostrar o que, que está fazendo bonito e que é uma boa samaritana? Não sei se merece, guarde as suas mentiras para você, pois eu não vou cair na sua rede de mentiras contadas, não de novo.

- Deveria ter prestado atenção nas coisas que te disse, não é minha intenção fazer com acredite, interprete como quiser. Já não sabemos quem somos, eu posso te encontrar na rua, sem querer, esbarrar em você e te perguntar quem você é. Se em algum dia a vida achar que devemos estar novamente juntos, estaremos e iremos nos encontrar nesse caminho, haverá um "nós" de novo, mas acredito que nenhum de nós dois estejamos preparados um para o outro, mas isso a gente vê pela frente, que só o futuro irá nos dizer. Você sempre se preocupou, sempre amou demais, e eu nunca vi isso, e se vi, senti medo desse amor, dessa coisa tão intensa que você sente, percebi quando já era tarde. Eu só quero que tudo fique bem para nós dois, e que se for pra te ver sofrendo, que seja por novas coisas, novas pessoas e não as mesmas coisas de antes.

Ela o abraçou tão forte, tão quente e tão... triste, aquilo era um adeus, não era? ou só um começo? ninguém sabia dizer, ele ainda tentava assimilar as coisas que ela havia dito, não queria acreditar naquilo, a razão dizia que era tudo uma mentira, mas o coração falava que era verdade, relutante, retribuiu àquele abraço intenso, àquele sentimento que ele não sabia explicar qual era, era triste, mas ao mesmo tempo feliz, continha raiva, mas também enchia de alegria, o coração parecia que ia pular a qualquer momento. Ele optou por não pensar em nada.

Beijou o topo da cabeça dela, ela chorava com o rosto escondido em seu peito e ele chorava com o rosto deitado na cabeça da jovem, mantiveram aquele abraço por tempo indeterminado, incontável, não queriam terminar com aquilo, pois seria o fim de tudo.

Desfizeram-se um do outro, ela limpou as lágrimas dele e ele as dela, se encararam, ficaram em silêncio.

- Qualquer dia que quiser vir aqui tomar um café, em silêncio, apareça, fique aqui a noite inteira, se quiser, sente-se na poltrona que tanto ama.

- Quem sabe, no dia que eu te perdoar, eu volto.

- Esperarei, então... quem sabe um dia você aparece.

Seus lábios se tocaram de leve por curto tempo, e ele a deixou caminhando em direção à porta, ele pegou a caixa de cigarros e parou em frente a porta, respirando fundo, se virou para ela:

- Obrigado pelos cigarros e pelo café - sorriu.
- De nada - retribuiu o sorriso.
- Adeus?
- Por enquanto, talvez.
- Adeus.

Saiu por aquela porta não querendo pensar em nada, só queria estar em casa, dormindo um sono sem sonhos.

- "This is the way you left me, I'm not pretending. No hope, no love, no glory. No happy ending. This is the way that we love, like it's forever, then live rest of our life, but not together" - e sorriu sozinha naquela sala sozinha apenas acompanha pelo sol, no qual olhou em direção vendo um novo dia como nunca tinha visto antes.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

All I Need

Preparei tudo, deixei exatamente no ponto que eu gostava,
era só mais outra dose daquela droga que poderia ser melhor que qualquer orgasmo que eu tivera na vida, sentia percorrer em minhas veias e já me sentia dopado, já sentia todos os efeitos daquela coisa que me levaria à morte se deixasse.

Suas palavras vinham em mente, e eu me estremecia com o toque delas em minha imaginação, aquele sentimento quente pulsava em meu peito e eu sorria igual um tolo apaixonado, quem via pensava que eu tinha sérios problemas mentais.

Eu tinha me apaixonado pela pessoa mais errada possível, era prazer masoquista de te amar.

Um amor intenso que saía faísca, que quando brigávamos era a nossa derrota, era escuridão e a terceira guerra mundial, um amor que quando terminava era morte para ambos, por mais errado que fosse te amar, por mais insensível que você fosse, eu sabia que tinha um espaço em coração, eu sabia.

Tínhamos achado amor um no outro quando não havia amor nenhum na gente, entre, era apenas um algo sem esperança alguma, sem futuro e não tínhamos idéia do quão intenso seria, do quão destruidor viria a ser e de quantos machucados e sorrisos arrancaríamos.

Dentre todas as drogas que consumíamos, a maior éramos nós mesmos, eu te consumia e vice-versa, o prazer de quando beijávamos o mundo girava em torno da gente e sumíamos nesse giro, as luzes piscavam, as pessoas riam, choravam e viviam e o beijo continuava e mais dopados ficávamos, mais risos e mais tontura.

O sexo era algo mágico, violento e enlouquecedor, era amor e entorpecente.

Meus gritos não foram suficiente para eu me livrar daquela dor no peito, os dois chorando e arrasados de frente para o outro jogados no chão, sujos e desejando um ao outro num momento que devíamos estar o mais distante possível. Eu via dor nos seus olhos.

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAh!
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAh!

Memórias. Gritos.

Eu estava naquele nosso apartamento, no nosso lugar, bêbado e drogado por lembranças nossas que faziam pensar que ainda estávamos juntos, que ainda me iludiam.

" Come on, Come on
Apenas olhei para ela e sorri"

Estava à procura de alguma coisa qualquer que te substituísse, qualquer coisa, estava completamente acabado naquela sala, por mais que a minha mão passeasse pelo meu corpo a procura de me saciar com a ajuda de lembranças e imaginação, eu precisava mais de você, do seu corpo ou de qualquer outra coisa quente.

Aquela dor daquele dia vinha ao peito, mas... eu tinha que deixá-la ir, eu deitei no chão as lágrimas saíram automaticamente, olhava para tudo como se estivesse à procura de algo que tivesse perdido e aquele algo era você.

Estava a beira do desespero, não queria deixa-la ir embora da minha mente ( nunca sairia do meu coração), mas eu tinha que deixar.

"Acordei no sofá sem saber o que estava realmente acontecendo, esfreguei os meus olhos e a vi parada sorrindo para mim enfrente a porta do apartamento.

Goodbye, my love"