O homem a olhou, a expressão vazia no rosto, indecifrável seus pensamentos, nem se a menina tentasse ler com poderes psíquicos, se existissem, conseguiria, pensamentos e sentimentos dele estavam guardados onde ninguém pudesse tirar, arrancar, eram só dele, ninguém além dele sabia o quanto sofria.
- Eu queria poder esquecer tudo isso, queria te pegar pelas mãos e correr com você por aí, feitos dois loucos, ou apaixonados, mas não devo dizer isso, eu sei que te machuca. Dói em mim, mas deve doer mais em você, não é mesmo?
Não respondeu, apenas se manteve frio e o silencioso. Ela sorriu magoada.
- Foi intenso, não foi? mas foi doloroso. A vida deveria ser que nem esses filmes que a gente assiste de romance, sempre com um final feliz, onde as pessoas esquecem rápido a dor e aprendem com todos os erros que cometeram, assim, fácil, é por isso que eu gosto dos finais tristes e reais, pois é assim que a vida é. Mas eu gosto também de finais felizes, eu fico imaginando que talvez, em algum dia, eu terei o meu, assim como você o terá.
Pegou a xícara de café olhando para o líquido escuro, pensando no que diria, passaram a maior parte da noite em silêncio, sem encarar um ao outro, e já era quase manhã quando ela decidiu falar, sabia que dele não viria nada, era ela que tinha o que dizer, era ela quem queria conversar.
- Quer mais café? o seu já acabou há um certo tempo, não é mesmo?
Apenas acenou um positivo com a cabeça, e a moça seguiu em direção a cozinha, enquanto ele apenas olhava a janela aberta sentado naquela poltrona que ele tanto adorava, mas que não era dele, era dela e aquilo automaticamente fazia com que já não fosse mais tão confortável quanto era antigamente.
Ela apareceu com uma garrafa térmica e serviu, deixando a garrafa ao lado da xícara, assim poderia se servir quando quisesse.
- Sirva-se quando e o quanto quiser, sabe que não precisa perguntar, mesmo que... - pausou, respirou fundo e sorriu - a intimidade tenha acabado.
Cada minuto o céu ficava mais claro, a chegada da manhã. A menina se posicionou em frente a janela, admirando o céu e o sol que chegava iluminando aquela nova manhã.
- Infelizmente, errei, não só com você ou com outros, errei comigo também, e demorei para perceber, demorei demais pro meu gosto, mas ao menos percebi, e quando o fiz, machucou mais do que eu pensei, não conseguia me mover, não conseguia pensar, não conseguia falar, não conseguia nada, a não ser ficar imóvel em algum canto onde o sol não pudesse me alcançar, onde eu pudesse chorar em paz com as minhas dores e meus erros. Não sei te dizer se cheguei ao fundo do poço naquele momento ou se eu sempre estive nele e não via isso. Eu cavei a minha própria cova e me enterrei depois, pois era isso que eu precisava, era isso que eu queria: sumir, morrer. Não diga que não, você viu isso, não diga que eu estou mentindo, pois não estou, você viu e só não sabia o porquê. Talvez eu tenha inventado alguma mentira para explicação de todas aquelas coisas, talvez não, não consigo lembrar, mas não faz a menor diferença isso agora.
Respirou fundo a garota, sentia um peso no peito, sentia tristeza, mas não queria demonstrar, e não iria. Ele a ouvia atentamente, não tirava os olhos dela, e quanto mais falava, mais nervoso ele ficava. Precisava de um cigarro: procurou nos bolsos do casaco, apalpou os bolsos da calça e nada, lembrou que havia decidido parar de fumar e quis se dar um tiro por aquilo, como não havia pensado antes de chegar àquele apartamento de que iria precisar de um maço ou mais de cigarro?
- Procurando por cigarros? - ela riu.
-Sim, e pelo visto, os esqueci - mentiu, não queria dar detalhes de sua vida ou escolhas.
- Fique aqui e já os trago - e a garota deixou a janela e sumiu pelo corredor.
E uma coisa havia o deixado curioso: desde quando ela começara a fumar? sempre havia sido contra, e sempre reclamava de quando fumavam ao seu lado, e quando queria ser má, jogava os maços que encontrava no lixo, na privada ou fazia qualquer coisa para inutiliza-los.
Ela apareceu com um maço e um isqueiro, ele nunca tinha ficado tão feliz em acender um cigarro e traga-lo quanto antes, nem mesmo em situações mais intensas que aquela.
- Eu sei o que você deve estar pensando, que eu estou fumando, mas não, não estou. Eu ganhei uma caixa cheia de maços, agora a pessoa que me deu isso, acho que ela não tem muita noção das coisas, até porque ela sabe que eu não fumo - riu - se quiser, pode levar, eu pensei em jogar no lixo, e vou, se ninguém quiser. Quer?
- Seria ótimo - sorriu levemente alegre e a menina novamente sumiu no corredor, aquilo definitivamente era a sua volta com o cigarro, e o melhor, era de graça e exatamente o que ele fumava, era sorte (ou azar) demais, mas aquilo o fez feliz. Alguma coisa boa naquela visita.
Voltou e entregou a caixa com vários maços dentro, olhou para dentro e sorriu ainda mais em ver várias caixinhas daquelas. Quantos eram: 20, 40? não tinha ideia, mas estava satisfeito.
- Um presente, vamos por assim.
- Obrigado.
Ela só sorriu para ele e voltou ao lugar que estava anteriormente. O silêncio novamente ficou com os dois, absortos em seus pensamentos e imersos em sentimentos que não demonstrariam um ao outro.
- Eu sumi de vista de todos, e de repente, tudo veio ao seu ápice, fazendo com que eu voltasse a ser vista, então mais enterrada eu fiquei, mais eu me escondi, que nem uma covarde, mas eu me condenei ainda mais do que antes, eu sabia que aquilo iria acontecer, eu sentia, aquilo não saia da minha cabeça. Só queria que as pessoas me esquecessem, não queria vê-las jogando os meus erros e o que eu queria esquecer na minha cara. E assim que tudo passou, eu pensei que fui melhorando, as coisas aparentemente, pareciam que estavam melhores para todos, até chegar um dia em que eu descobri que todos estavam bem, que todos haviam se saído bem, menos eu, eu ainda tava soterrada, só não tinha percebido isso antes, não era a mesma dor, não era toda aquela coisa de antes, mas eu ainda não havia saído daquele poço mais fundo do que aparentava ser.
Pegou a xícara para tomar mais do café e não tinha quase nada, completou e voltou ao seu lugar, olhou para o sol brilhante que machucava a vista de tão forte que era, mas ainda sim, a manhã era fria, ambos vestiam casacos pesados, e mesmo brilhante e amarelo, tinha um tom triste.
- Eu estava vazia, mesmo tendo exposto meus pensamentos às pessoas, eu não conseguia dizer e nem mostrar meus verdadeiros sentimentos, meu papel estava sempre branco, não saía uma palavra, um desenho... nada, era um branco, um vazio que eu não conseguia expor com arte, as palavras vinham a garganta e ficavam entaladas ali, era algo completamente sufocante, era vazio e branco, estava preso em mim, eu não conseguia me expor e eu precisava disso. Tudo parecia tão bem, pensei comigo, por que eu não consigo? por que? e aquela pergunta ficava na minha mente, e o tempo passou gentilmente, e um certo dia eu consegui, não era exatamente o que eu queria e não saiu como eu imaginei que fosse, mas já era um alívio, eu havia conseguido passar para o papel alguma coisa, aquilo realmente me fez me sentir um pouco melhor, mas depois daquilo não havia conseguido mais, eu tentava, eu começava e não terminava, nada, nada e nada de novo, aquele vazio, aquele branco, aquela trava não me deixava, e quando eu conseguia fazer alguma coisa, ao meu ver, não era bom o suficiente e eu também não queria demonstrar aos outros, não porque não era bom o suficiente, já mostrei várias coisas não tão boas assim, mas era medo, medo, eu estava quebrada por demais, muito machucada, e nem eu sabia disso, eu na verdade, não tinha ideia e as pessoas a minha volta também não haviam percebido, você não estava mais lá, assim como os outros, talvez você teria percebido, ou não. Não importa agora. Eu me rendi ao medo de viver, eu me rendi a todos os meus medos, e só percebi quando eu estava sozinha, completamente só, e não tive a ajuda que eu esperava ter e de quem eu esperava, e aquilo foi um tapa para mim, daqueles bem fortes, igual ao que você me deu, ou talvez mais forte, mas eu já tinha tanto medo, tanta dor que aquilo não fez tanto efeito assim e não demonstrei nada, eu era um vazio, um branco, um fantasma que as pessoas nem sequer lembravam mais, eu fiquei satisfeita com isso, mas era terrivelmente solitário, e quando passou pela minha cabeça em voltar a viver, eu senti medo de voltar a ser aquilo e em todas outras coisas que me fariam sofrer, que fariam os outros sofrerem, eu estava simplesmente dividida: e agora? e agora?, me perguntava, então eu deixei isso fluir dentro de mim, deixei ir, e guardei em mim apenas o que era bom, não que eu fosse descartar o que era ruim, jamais, só que eu não podia viver com medo ou com raiva, eu perdoei a todos que me magoaram, a todos que eu senti um ódio mortal, e acima de tudo, eu me perdoei, perdoei os meus erros, mas não pedi perdão aos outros, por orgulho e medo ou simplesmente por não querer reviver um passado e coloca-lo em questão de novo, mas isso não significa que eu não estava arrependida, pois estava sim, mas eu deixei ir, tudo, virei a página, sem ter posto um ponto final, pois eu não sabia se um dia eu voltaria a ela, nem que fosse só para dizer desculpas, e finalmente aquele branco começou a ter formas, a ter contornos e reflexos, começou a formar algo, e as cores, ah, as cores, eu pude vê-las claramente, toca-las como nunca fiz antes, e eu comecei a moldar tudo que podia, então eu percebi que era hora de expor tudo que estava no meu peito, tudo que ficara entalado na minha garganta e o que só ficava na mente, se as pessoas iam ver ou não, tudo bem, eu não me importava, eu não estava fazendo aquilo por elas, eu estava fazendo por mim, pelo menos uma única vez, eu fiz algo de bom por mim. Que me julguem, que coloquem tudo aquilo de novo, que me exponham e xinguem, pensei, mas pelo menos fiz a arte que precisava fazer, caso a vissem, eu senti que deveria fazer isso, por mais que o medo me rondasse as vezes, eu tinha de enfrenta-lo fingindo que eu não estava. Sou tão humana quanto você, por mais que não aparente, e a minha decisão de te ver foi só quando tudo estava pronto, quando eu não tinha mais medo de encarar meus próprios sentimentos, as pessoas, quando eu saí da minha covardia, eu fiz tudo da forma que você quis, pediu, dei sugestões, quis entrar num acordo mutuo, e aqui estamos, na minha sala, onde a noite se foi e o amanhã chegou, eu te abraçaria, se pudesse, eu voltaria ao seu mundo, se fosse permitido, eu faria muitas coisas, foi como eu disse, a minha vontade é de te pegar pela mão num dia de chuva e sair correndo por aí, sempre de mãos dadas, e esquecer todas as coisas por quais passamos, esquecer todas as dores, mas não é possível, tudo se foi, já não sei mais quem é você e você já não sabe mais quem eu sou, nos perdemos um do outro, fizemos o que era imperdoável um ao outro, e já não temos mais intimidade alguma, e mesmo que tentássemos de novo, se seguíssemos juntos, jamais poderíamos jogar um na cara do outro o que fizemos um ao outro, eu sei que o que você fez para mim foi por minha própria culpa, por mais que as minhas intenções tivessem sido outras, o que eu tinha feito dava outra interpretação, a errada, e não posso culpa-lo, mas mesmo assim, eu fiquei com raiva, até porque, ao meu ver, você foi longe demais também, quis todos os holofotes em cima de você, aparentemente, fez o que não devia e ainda colocou pessoas que não tinha nada a ver conosco nessa confusão toda mesmo quando ela de fato não existia mais, isso de fato, foi imperdoável, mas depois de um tempo, eu perdoei, mesmo não merecendo, mesmo não tendo pedido, mesmo....
- Elisabeta...
- Não diga nada pois eu ainda não terminei, ou eu digo tudo de uma vez ou eu não digo nada, não vamos deixar as coisas pela metade, mesmo que já tenhamos passado dela, mas vamos até o final com isso, depois você diz o que quiser. E como eu estava dizendo, mesmo que você não tenha se arrependido por nada feito, nada dito, eu te perdoei, mas não por seu erros, mas por mim, eu não o perdoo pelos erros cometidos, mas o perdoo mesmo assim, porque como eu vou perdoar alguém que nem sequer se arrependeu de nada? não há motivo de perdão quando a pessoa não quer, só quando a nossa consciência pede, é difícil explicar, mas é necessário dizer, e espero que um dia, quem sabe, você me perdoe também, e entenda o que eu estou tentando te dizer, nunca duvide do amor que eu senti, das palavras que te disse, saiba que tudo foi verdadeiro, apesar dos erros cometidos, e que nunca tive intenções de machucar ninguém, não era nada mais, nada menos que alguém perdido no próprio egoísmo e cegueira. Dê asas a sua imaginação, interprete da forma que quiser, e se sentir ofendido, pode xingar, bater, ferir, que eu vou acata-las, mas não irei respondê-las, como nunca o fiz, só não sei se elas vão fazer o efeito que você quer, mas se quiser ignorar e sair por essa porta como se nunca tivesse ouvido isso, como se nunca estivesse sentado nessa poltrona a noite toda, tomando café e depois fumando, tudo bem, se quiser não acreditar, fique por sua conta, é com você. Eu irei sempre carrega-lo com carinho nas lembranças, pois tivemos ótimos tempos juntos, compartilhamos sonhos, sorrisos, desejos e vontades juntos, e acho que isso que vale a pena lembrar, isso que vale a pena e ser contado, agora, quanto aos erros e dores, a gente carrega isso como um aprendizado, não se estacione na dor, se tiver sentindo, é só olhar para as coisas boas e mesmo que bata saudades, seja forte, mas não fique rancoroso, não leve a dor e ódio com você pela vida que isso não nos leva a nada. Quem sou eu para dar um discurso assim? talvez, ninguém, mas quem é você para dizer que eu não posso te dizer essas coisas? talvez, ninguém também, até por que não estou fazendo por mal, mas só para tudo não termine mal, pois eu quero seu bem. Então, sinta-se a vontade e diga o que quiser.
O homem tremia na cadeira, o cigarro esquecido entre os dedos, não sabia o que sentia ao certo, engoliu seco, era difícil, muito difícil se mover ou fazer qualquer coisa. O silêncio havia reinado naquela sala, o ar era ligeiramente pesado, a dor apertava no peito mais que qualquer outra coisa. Por que aquilo de novo? não, não era aquilo de novo, era só o ponto final de tudo, será?
Levantou-se, ficou de frente aquela garota, ela tinha um sorriso quase que malicioso no rosto e ele tinha ódio nos olhos.
- Você espera que eu acredite nisso depois por tudo que eu passei? - riu descrente - é muita coragem em achar isso. O que você quer: que eu passe a mão na sua cabeça e diga que está tudo bem agora? Você espera que eu a perdoe só por que agora é uma "boa" menina desejando o bem aos outros? quer me mostrar o que, que está fazendo bonito e que é uma boa samaritana? Não sei se merece, guarde as suas mentiras para você, pois eu não vou cair na sua rede de mentiras contadas, não de novo.
- Deveria ter prestado atenção nas coisas que te disse, não é minha intenção fazer com acredite, interprete como quiser. Já não sabemos quem somos, eu posso te encontrar na rua, sem querer, esbarrar em você e te perguntar quem você é. Se em algum dia a vida achar que devemos estar novamente juntos, estaremos e iremos nos encontrar nesse caminho, haverá um "nós" de novo, mas acredito que nenhum de nós dois estejamos preparados um para o outro, mas isso a gente vê pela frente, que só o futuro irá nos dizer. Você sempre se preocupou, sempre amou demais, e eu nunca vi isso, e se vi, senti medo desse amor, dessa coisa tão intensa que você sente, percebi quando já era tarde. Eu só quero que tudo fique bem para nós dois, e que se for pra te ver sofrendo, que seja por novas coisas, novas pessoas e não as mesmas coisas de antes.
Ela o abraçou tão forte, tão quente e tão... triste, aquilo era um adeus, não era? ou só um começo? ninguém sabia dizer, ele ainda tentava assimilar as coisas que ela havia dito, não queria acreditar naquilo, a razão dizia que era tudo uma mentira, mas o coração falava que era verdade, relutante, retribuiu àquele abraço intenso, àquele sentimento que ele não sabia explicar qual era, era triste, mas ao mesmo tempo feliz, continha raiva, mas também enchia de alegria, o coração parecia que ia pular a qualquer momento. Ele optou por não pensar em nada.
Beijou o topo da cabeça dela, ela chorava com o rosto escondido em seu peito e ele chorava com o rosto deitado na cabeça da jovem, mantiveram aquele abraço por tempo indeterminado, incontável, não queriam terminar com aquilo, pois seria o fim de tudo.
Desfizeram-se um do outro, ela limpou as lágrimas dele e ele as dela, se encararam, ficaram em silêncio.
- Qualquer dia que quiser vir aqui tomar um café, em silêncio, apareça, fique aqui a noite inteira, se quiser, sente-se na poltrona que tanto ama.
- Quem sabe, no dia que eu te perdoar, eu volto.
- Esperarei, então... quem sabe um dia você aparece.
Seus lábios se tocaram de leve por curto tempo, e ele a deixou caminhando em direção à porta, ele pegou a caixa de cigarros e parou em frente a porta, respirando fundo, se virou para ela:
- Obrigado pelos cigarros e pelo café - sorriu.
- De nada - retribuiu o sorriso.
- Adeus?
- Por enquanto, talvez.
- Adeus.
Saiu por aquela porta não querendo pensar em nada, só queria estar em casa, dormindo um sono sem sonhos.
- "This is the way you left me, I'm not pretending. No hope, no love, no glory. No happy ending. This is the way that we love, like it's forever, then live rest of our life, but not together" - e sorriu sozinha naquela sala sozinha apenas acompanha pelo sol, no qual olhou em direção vendo um novo dia como nunca tinha visto antes.