quarta-feira, 22 de maio de 2013

You Will You Will

Caminhava lentamente pela casa, entrava em quartos e saía em salas; passava horas a fio em corredores longos, descansava em bibliotecas, dançava pela cozinha e, finalmente, achava sua liberdade numa porta aberta para o seu vasto quintal.

Voltou a valsar e cantar em seu jardim e junto, o passado, presente e futuro se misturavam num só, suas lembranças se misturavam com o agora; pessoas já mortas reviviam apenas para saudá-la. Oh, que saudade de tudo aquilo que já havia vivido, que saudades de todas aquelas pessoas que agora estavam ali novamente, pensou.

Era noite, era meia-noite, a lua estava prata, cheia, brilhante e contemplava aquela moça que estava num jardim, num quintal, numa floresta. Ou seria ela quem contemplava a lua? Não interessa, o que realmente importava naquele momento único na vida daquela mulher eram as lembranças, a casa e a sua liberdade. Cadê você? Perguntou ela, mas não obteve resposta, mas conforme caminhava, agora não pelo seu quintal, mas num lugar talvez mágico, onde as pessoas conversavam à beira de um lago, casais faziam piqueniques e crianças corriam umas atrás das outras, ela seguia para o alto daquele morro que pudesse significar o fim, ou quem sabe, o começo de alguma coisa.

Seguia encantada com as maravilhas que via, com as pessoas que estavam ali; cada passo era uma lembrança, aquelas pessoas não eram estranhas, mesmo que não soubesse quem eram, elas estiveram em algum lugar de sua vida, fosse uma criança da qual vira chorar perdida da mãe ou um homem que estava sentado ao lado dela num banco de algum parque, não importava, eram todos lembranças suas, todos de um passado remoto ou presente. Quando alguém ali era algum conhecido, amigo ou apenas um ex-amante, lhe acenava e ela retribuía com o sorriso mais doce, com ternura e saudade. Ah, como queria voltar àquele tempo! Que bom reviver tudo isso, disse.

De repente, havia voltado para o presente, para o brilho da lua cheia novamente; tão belo quanto a cena anterior, mas um tanto mais solitário; não que aquilo fizesse com que ela parasse de percorrer seu caminho, o faria pois era o mesmo, tanto naquela paisagem, como na outra, o chamados eram os mesmos.  Não tinha medo, como muitos pudessem achar, havia curiosidade, outros chamavam de coragem, alguns diziam que havia enlouquecido, mas apenas ela sabia, não o que lhe esperava, mas o que tinha acontecido a ela para que seguisse.

O tempo agora era intercalado entre paisagens passadas, acolhedoras e cheias de sorrisos, com a paisagem única, sombria e solitária. Ah, que confuso tudo isso, quero uma só coisa, quero a verdadeira paisagem, pensou e assim, aos poucos tanto a paisagem do presente, quanto a do passado, se misturavam e se tornavam uma só: futuro. Não era mais noite, era dia, mas não era tão quente, ventava e as flores e folhas desabrochavam das árvores; ficara encantada com a paisagem. Estivera ali antes? Indagou em pensamento, não lembrava daquilo, mas foi surpreendida com as mais diversas aves que ali tinha, algumas penas caíam quando voavam, e como eram belas suas penas, mesmo as mais simples. Queria poder pegar todas e guarda-las para si, mas se contentou em pegar apenas as mais belas e guarda-las em seu peito. E, então, o vento soprou forte e trouxe algo bonito e exótico; apontou e gritou: ”Que lindo, que lindo! Oh, céus, estou maravilhada, é verdade, é verdade sim”, porém, a sua surpresa maior não foi aquela, foi o cheiro que o vento havia trago junto daquela linda ave; o cheiro que se misturava com os das flores e árvores era sutil, mas, para ela, era forte o suficiente para ser percebido; há quanto tempo não sentia aquele cheiro? Sorriu.  O coração disparou com aquilo, entretanto, o peito não se aguentou quando além do cheiro, sentiu a presença. Há quanto tempo não o via? E as lágrimas escorriam devagar dos olhos para o rosto. Não chorava de tristeza, mas de emoção; sabia que se virasse o veria, podia sentir o seu olhar e não aguentando mais tanto suspense e tanta ansiedade, virou-se e foi recebida pelo olhar mais amoroso e o sorriso mais doce de todos. Era ele sim, ele estava de volta para ela.

“Querido, querido” gritou “ você voltou, sim, está de volta” aqui, suspirou “não tem ideia de quanto tempo eu esperei por isso” e ele apenas riu, achando graça e beleza na forma que a mulher expressava sua felicidade, fosse pelo choro, fosse pelas palavras que dizia, fosse por tudo: o lugar de beleza extraordinária,  a mulher que chorava emocionada e fazia com que ficasse ainda mais linda; ah, não importava, o silêncio era apenas para um admirar o outro, para que criassem ansiedade e para que quando se abraçassem, fosse o momento mais mágico que haviam vivido até então. Não demorou muito para que isso acontecesse, tempo máximo de 5 minutos, porém para ambos havia sido além da eternidade aquele tempo em silêncio, lágrimas e sorrisos.

Se não fosse o aperto forte do corpo dele com o dela, ela teria caído, os joelhos estavam fracos, mesmo que o abraço estivesse forte, mas não era isso que a preocupava agora, na verdade, não tinha mais preocupações. “Ah, querido, por que faz isto comigo? Por que demora tanto para chegar e me mata de saudades? Por que é tão frio assim e me deixa abandonada? São tantas coisas...” e ele riu “Você sabe, minha querida, sabe que não deixo as minhas emoções me controlarem; assim como sabe que eu tenho sonhos a realizar. Ah, meu amor, como você fica linda assim, tão emocional” deu um beijo leve nos lábios dela “Minha querida, prometo que não partirei mais, ficarei aqui ao seu lado e, se, porventura, a vida me chamar de novo, levarei você comigo, sempre esteve em meus pensamentos, mas agora, a levarei do meu lado para todos os cantos que for”.


Sorriram. Beijaram-se. Fizeram amor de baixo de uma árvore. E assim foi.