Caminhava lentamente pela casa,
entrava em quartos e saía em salas; passava horas a fio em corredores longos,
descansava em bibliotecas, dançava pela cozinha e, finalmente, achava sua
liberdade numa porta aberta para o seu vasto quintal.
Voltou a valsar e cantar em seu
jardim e junto, o passado, presente e futuro se misturavam num só, suas
lembranças se misturavam com o agora; pessoas já mortas reviviam apenas para
saudá-la. Oh, que saudade de tudo aquilo que já havia vivido, que saudades de
todas aquelas pessoas que agora estavam ali novamente, pensou.
Era noite, era meia-noite, a lua
estava prata, cheia, brilhante e contemplava aquela moça que estava num jardim,
num quintal, numa floresta. Ou seria ela quem contemplava a lua? Não interessa,
o que realmente importava naquele momento único na vida daquela mulher eram as
lembranças, a casa e a sua liberdade. Cadê você? Perguntou ela, mas não obteve
resposta, mas conforme caminhava, agora não pelo seu quintal, mas num lugar
talvez mágico, onde as pessoas conversavam à beira de um lago, casais faziam
piqueniques e crianças corriam umas atrás das outras, ela seguia para o alto
daquele morro que pudesse significar o fim, ou quem sabe, o começo de alguma
coisa.
Seguia encantada com as
maravilhas que via, com as pessoas que estavam ali; cada passo era uma
lembrança, aquelas pessoas não eram estranhas, mesmo que não soubesse quem
eram, elas estiveram em algum lugar de sua vida, fosse uma criança da qual vira
chorar perdida da mãe ou um homem que estava sentado ao lado dela num banco de
algum parque, não importava, eram todos lembranças suas, todos de um passado
remoto ou presente. Quando alguém ali era algum conhecido, amigo ou apenas um ex-amante,
lhe acenava e ela retribuía com o sorriso mais doce, com ternura e saudade. Ah,
como queria voltar àquele tempo! Que bom reviver tudo isso, disse.
De repente, havia voltado para o
presente, para o brilho da lua cheia novamente; tão belo quanto a cena
anterior, mas um tanto mais solitário; não que aquilo fizesse com que ela
parasse de percorrer seu caminho, o faria pois era o mesmo, tanto naquela
paisagem, como na outra, o chamados eram os mesmos. Não tinha medo, como muitos pudessem achar,
havia curiosidade, outros chamavam de coragem, alguns diziam que havia
enlouquecido, mas apenas ela sabia, não o que lhe esperava, mas o que tinha
acontecido a ela para que seguisse.
O tempo agora era intercalado
entre paisagens passadas, acolhedoras e cheias de sorrisos, com a paisagem
única, sombria e solitária. Ah, que confuso tudo isso, quero uma só coisa,
quero a verdadeira paisagem, pensou e assim, aos poucos tanto a paisagem do
presente, quanto a do passado, se misturavam e se tornavam uma só: futuro. Não
era mais noite, era dia, mas não era tão quente, ventava e as flores e folhas
desabrochavam das árvores; ficara encantada com a paisagem. Estivera ali antes?
Indagou em pensamento, não lembrava daquilo, mas foi surpreendida com as mais
diversas aves que ali tinha, algumas penas caíam quando voavam, e como eram
belas suas penas, mesmo as mais simples. Queria poder pegar todas e guarda-las
para si, mas se contentou em pegar apenas as mais belas e guarda-las em seu
peito. E, então, o vento soprou forte e trouxe algo bonito e exótico; apontou e
gritou: ”Que lindo, que lindo! Oh, céus, estou maravilhada, é verdade, é
verdade sim”, porém, a sua surpresa maior não foi aquela, foi o cheiro que o
vento havia trago junto daquela linda ave; o cheiro que se misturava com os das
flores e árvores era sutil, mas, para ela, era forte o suficiente para ser
percebido; há quanto tempo não sentia aquele cheiro? Sorriu. O coração disparou com aquilo, entretanto, o
peito não se aguentou quando além do cheiro, sentiu a presença. Há quanto tempo
não o via? E as lágrimas escorriam devagar dos olhos para o rosto. Não chorava
de tristeza, mas de emoção; sabia que se virasse o veria, podia sentir o seu
olhar e não aguentando mais tanto suspense e tanta ansiedade, virou-se e foi
recebida pelo olhar mais amoroso e o sorriso mais doce de todos. Era ele sim,
ele estava de volta para ela.
“Querido, querido” gritou “ você
voltou, sim, está de volta” aqui, suspirou “não tem ideia de quanto tempo eu
esperei por isso” e ele apenas riu, achando graça e beleza na forma que a
mulher expressava sua felicidade, fosse pelo choro, fosse pelas palavras que
dizia, fosse por tudo: o lugar de beleza extraordinária, a mulher que chorava emocionada e fazia com que
ficasse ainda mais linda; ah, não importava, o silêncio era apenas para um
admirar o outro, para que criassem ansiedade e para que quando se abraçassem,
fosse o momento mais mágico que haviam vivido até então. Não demorou muito para
que isso acontecesse, tempo máximo de 5 minutos, porém para ambos havia sido
além da eternidade aquele tempo em silêncio, lágrimas e sorrisos.
Se não fosse o aperto forte do
corpo dele com o dela, ela teria caído, os joelhos estavam fracos, mesmo que o
abraço estivesse forte, mas não era isso que a preocupava agora, na verdade,
não tinha mais preocupações. “Ah, querido, por que faz isto comigo? Por que
demora tanto para chegar e me mata de saudades? Por que é tão frio assim e me
deixa abandonada? São tantas coisas...” e ele riu “Você sabe, minha querida,
sabe que não deixo as minhas emoções me controlarem; assim como sabe que eu
tenho sonhos a realizar. Ah, meu amor, como você fica linda assim, tão
emocional” deu um beijo leve nos lábios dela “Minha querida, prometo que não
partirei mais, ficarei aqui ao seu lado e, se, porventura, a vida me chamar de
novo, levarei você comigo, sempre esteve em meus pensamentos, mas agora, a
levarei do meu lado para todos os cantos que for”.
Sorriram. Beijaram-se. Fizeram amor de baixo de uma árvore. E assim foi.