domingo, 7 de dezembro de 2014

Fernando

Fernando e suas cores. Seu jeito cafajeste de ser guarda, no fundo, um rapaz sensível e até mesmo romântico. Por trás da malicia de homem, há apenas um pequeno garoto. Fernando, um rapaz de coração de ouro, por mais durão e insensível que se mostre. Vitima do machismo, quem sabe. Corpo másculo, sensual, pele morena, olhos negros, um sorriso que faz qualquer mulher ou homem se desmanchar, desperta o lado mais selvagem e sensual em qualquer pessoa, um pouco cínico, e é até ciumento, faz manha e fica tímido (sem que ninguém perceba) quando vê a pessoa que gosta passar. Faz pose de cafajeste, e é, mas gosta mesmo é de ficar na cama, abraçado a outra pessoa, carinhoso, sendo e sentindo-se amado. Ah, Fernando... Fernando não sabe disso, mas eu sei. Desperta em mim doçura. 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Escreva

"Escreva" - alguém disse. Quase que uma semana depois, outro alguém disse o mesmo, só que com outras palavras. No mínimo, engraçado, engraçado por achar que não escrevo bem e que a minha escrita não faz falta. Comecei a escrever alguma coisa inventada, achei romântico demais, apesar de todo o meu romantismo, o odeio, mesmo que talvez alguns não pensem que sou. Hoje, não quero romantizar. Bem, sobre o que eu poderia escrever? Ah, poderia escrever o que eu sinto, mas acho que no momento ando um tanto trancada em mim para poder escrever sobre tal, então... por que não escrever sobre isso? Escrever sobre escrever. O primeiro acha que eu sou uma boa escritora, talvez por uma carta destinada a ele, onde havia um belo poema e algumas bonitas palavras, e o segundo, bem, não sei se ele me acha uma boa escritora ou porque é apenas alguém que me acompanha desde a adolescência, onde na época, conversávamos bastante. Fico feliz por isso. Pensei em escrever sobre ele, o segundo, mas escrever o que também? Não lembro muita coisa e, hoje em dia, o que sei dele? Nada. Andei pensando que realmente faz um tempo que não escrevo e de alguma forma estranha, senti vontade e saudades de fazê-lo. Bem, na verdade, isto é uma mentira deslavada, eu escrevi em algum outro lugar longe do computador. Talvez devesse escrever mais coisas por escrever, coisas que não são sobre mim, mas completamente eu. Escrever é algo pessoal, é algo que diz sobre a gente, mesmo que a gente não diga um 'eu' no texto. Escrever sempre foi uma forma de me expressar, acho que a única forma da qual eu realmente sei falar sobre as coisas que precisam serem ditas no dia-a-dia e nada falo, causando uma raiva de mim mesma por ser tão... calada, mesmo achando que essa palavra não seja a que eu quero. Queria sim saber escrever (e falar!) como algumas pessoas aos quais admiro bem de longe ou de perto, mas eu não sou elas, não posso escrever sobre o que elas escrevem, nem como elas escrevem, eu sou eu e elas são elas, nunca será igual, tenho que me conformar com a forma que escrevo e melhora-la, se caso seja esse o desejo. Mas, ah, talvez seja a Júpiter em Virgem que nunca acha que aquilo tá bom o suficiente, aquela tendência ao perfeccionismo que muitos virginianos por aí tem, mas isso também não vem ao caso. Não tenho muito o que dizer agora ou hoje, mas se o primeiro vai ler, não faço ideia, até porque não sei se ele entra aqui. O segundo, acredito que sim. Dedicado a eles. 

sábado, 5 de julho de 2014

Espelho, espelho eu

Pôs-se nua diante do espelho, indiferente àquele corpo que refletia a sua imagem, observou detalhes e nuances em seu corpo que apenas ela conhecia. Descia o olhar lentamente depois de examinar minuciosamente cada lugar, não queria perder um detalhe sequer. Finalmente, chegou a seu sexo. Observou bem, e se perguntou mentalmente: era seu sexo, a sua genitália que a fazia mulher? definitivamente, não, sua identidade como mulher não se encontrava ali, era apenas um detalhe, sua alma, seu gênero, sua essência, concentravam-se em seu estômago, ali era formado o seu ser, sempre que qualquer coisa que lhe acontecia, era o seu estômago o primeiro a sentir, seu estômago era como se avisasse se ela estava bem ou mal, psicologicamente; era ali que seus sentimentos ficavam guardados. Dizem os mais espirituais que todos temos chacras e o do estômago é o vital. Não era hora de pensar em espiritualidade, porém queria saber, encontrar a parte do seu corpo que a fazia ser quem era. A resposta poderia ser o estômago, mas ainda não a satisfazia, sentia que era muito maior que aquela carne e ossos e órgãos que a compunham, sentia que a sua alma ficava além do seu chacra vital do seu órgão digestivo. O que a fazia mulher? O que a fazia ser quem e como era? não encontrava sua identidade e gênero em parte alguma do corpo, era a alma. Poderia dizer que era mulher, pois assim se sentia, poderia dizer que era S., pois este era o seu nome, mas não era o seu nome que a definia ou a caracterizava, não era o seu nome que dizia quem S. era. Quem era? Seu corpo era seu? Ela pertencia a si mesma? Não sabia dizer, porém tinha a sua alma, era única certeza que tinha e que aquilo pertencia somente a si. Será que tudo o que vivia era apenas uma ilusão de si mesma? Não conseguia se identificar no espelho, não gostava do que via, por mais que aos olhos de outros parecia agradar a visão daquele corpo, daquele rosto, e o que fazia não gostar, não era a carne, mas a essência, o que, naturalmente, para ela, deixava a carne feia. Queria ver-se inteiramente no espelho, porém era só o corpo que via, queria ir adiante, muito além disso, ultrapassar a linha do corpo e da alma, queria en(con)trar em sua própria imensidão, no seu infinito particular, mas não sabia dizer onde encontrava tudo isso, ficava frustrada em ter que achar apenas o estômago para o seu ser. De tanto se observar e nada encontrar, chegou a conclusão que pudesse ser vazia, logo, a razão para toda a melancolia que sempre guardou dentro de si. Não podia Ser, caso fosse vazia. Nem sentir. Ela não era o seu corpo, seu corpo era oco, vazio, não podia achar-se nele, ela não era ninguém, então. A palavra 'vazia' repetia-se em sua mente. Abraçou ao próprio corpo tentando sentir a si mesma e se consolar por ser um nada. Os seios se juntaram, dando a impressão  de que eram mais volumosos, porém não, eles eram pequenos com os mamilos rosados, talvez gostasse dos seus seios, lhe pareciam sensuais, perfeitos para qualquer homem ou mulher num ato libidinoso. Acariciou-os, mediu-os com as mãos e isso fez-se perceber seu coração, outro lugar ao qual os sentimentos, a alma, a identidade estavam, era como se primeiro o estômago falasse e o coração em seguida respondia com um aperto dolorido e batidas mais fortes que faziam o sangue percorrer por todo o corpo, subir ao rosto e deixa-la mais enrubescida nas feições, isso poderia atingir ao pulmão, dependendo qual fosse a emoção, poderia deixa-la sem ar ou fazê-la ofegante. Aproximou o rosto do espelho, examinou mais uma vez, o que era dela, o que era dos pais dela? os olhos da mãe e a boca do pai, o formato do rosto era parecido com o da avó, seria o rosto dela, um rosto próprio? o que era apenas seu naquele rosto? Era seu o que a diferenciava de sua mãe, de seu pai ou avós, ela era a mistura de todos eles, portanto, era e não era seu, caso tenha filhos de seu próprio ventre, seus filhos terão as características de toda sua família, mais as do pai, logo, isso o diferenciará dela e do pai, então, seu filho será diferente de todos, assim como ela era diferente de sua família por mais semelhanças que houvessem. Características podem não ser próprias, mas numa mistura,  se tornam únicas. Afastou-se do espelho, voltando ao anterior, observando o inteiro, mas o que era o inteiro? já que não podia observar o seu verdadeiro ser. Para os outros, o seu corpo era o verdadeiro ser, para ela, não, mas também não sabia o que era o verdadeiro eu, pois não o achava em lugar algum. Estômago, coração, sangue, pulmão, formavam seu corpo, sentiam as suas sensações, mas isso poderia ser outro humano, outro humano também podia sentir as mesmas coisas que sentia, talvez de maneira própria, seu corpo não era a resposta para suas perguntas: quem e o que era, o que fazia ela ser ela, por que sentia-se ou era mulher. Pensou que deveria se amar, talvez fosse esse o problema: falta de amor ao próprio corpo, ao próprio ser, à própria alma. Egocentrismo tinha algo haver com amor próprio? Não sabia, mas aquilo a fez sorrir e até admirar um pouco do que via.  Escutou um barulho do lado de fora do quarto, o que tirou a sua atenção do corpo e do espelho, eram os seus pais chegando de algum lugar qualquer. Respirou fundo. Olhou a janela e foi até ela, contemplou a paisagem, viu o céu escuro com os seus diamantes brilhantes e pensou que se fosse o céu, seria inteira e infinita. Seu nome fora chamado no lado de fora. Suspirou. Pôs o roupão e foi ver o que queriam.   

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Meraki

A jovem abriu os olhos e a primeira coisa que encontrou foram os dele, que pareciam tão sonolentos quanto os dela deviam estar. A janela ao fundo fazendo que a luz entrasse, os olhos marrons e sonolentos e o esboço de um sorriso de bom dia formou um cenário perfeito à vista daquela mulher, poderia tirar uma foto e observá-la todos os dias por tamanha sutileza, delicadeza e doçura que era o conjunto. Nunca pensou que azul, verde e marrom + luz pudesse ser tão harmonioso como aquilo. Aconchegou-se nos braços dele e o coração se aqueceu ainda mais. Jamais haveria uma manhã tão doce quanto àquela, mas não podia negar que por trás de toda sutileza do momento, havia a excitação e o desejo ardente de possuí-lo, a cena (ou o homem) era extramente sensual. O homem dos olhos marcantes, pensou, esse era o nome da obra de arte que tinha ao seu lado. Talvez estivesse com um sorriso sonolento, podia sentir a felicidade dentro de si queimando, por mais que quisesse negar. Ganhou um cheiro no pescoço e como ela gostava desses cheiros e beijos, melhor que isso era quando a mão dele passeava pelo o seu corpo, mãos que a seguravam com firmeza, serpenteavam por ela com força, com desejo. Como ela amava as mãos dele no corpo dela! Ele tentou levantar, ela o trouxe de volta, não deixaria sair dali sem um beijo sequer. Aconchegaram-se um nos braços do outro, entre carinhos e abraços, saiu um beijo e do beijo, ah, o beijo que era sempre uma explosão: quando começava, terminava em sexo, era fato e, como todo fato, aconteceu. Explosivo. Agressivo. Excitante. Violento. Era Marte, era Áries em guerra, só não era guerra o que faziam. Ofegante. Veio, então, a erupção do momento e o ponto final daquela manhã. Descansavam, porém, não foi por muito tempo, ele sentou-se no colchão, sorriu para ela e disse baixo:

- Vou tomar banho, tudo bem? 

Ela só sorriu de volta e fez um 'sim' com a cabeça, sendo assim, o homem levantou-se, pegou as roupas no chão e saiu do quarto. A mulher fechou os olhos, levou a mão nos cabelos e suspirou pesado.  Oh, por deuses, por que tinha que se sentir daquela maneira? Sua vontade era de fazer seu coração um cofre, colocá-lo lá dentro e guarda-lo apenas para si. Melhor, queria ser o coração dele, assim, não sofreria com o desejo, nem com o que sentia, seria parte dele, os sentimentos dele... Engoliu seco, interrompeu seus pensamentos, não podia, nem queria pensar daquela forma. Era amor? Preferia pensar que não, é difícil amar quando não se pode amar, quando nunca soube o que é o amor, quando escolhe caminhos que a vida te impede disso. Racionalize as emoções, era esse o seu lema. Depois da felicidade, a dor que ardia por dentro era bem maior, mas não se deixava levar por isso. Queria que um buraco negro a sugasse, toda aquela confusão a deixava maluca. A porta bateu. No segundo seguinte, ele entrou com a calça social preta e a blusa social branca completamente aberta, os cabelos molhados e a toalha no pescoço: deslumbrante, irresistível. Poderia devorá-lo ali mesmo, em pé, mas sabia que a hora da partida se aproximava, ficou apenas encarando-o deitada e ele, que não tirava aquele sorriso doce dos lábios, se aproximou e sentou na cama e tirou do bolso a carteira, e da carteira, o dinheiro. Contou e entregou nas mãos dela. 

- Vê se está certo - contou o dinheiro uma, duas vezes, ponderou, e tirou a metade do que tinha ali e devolveu - Metade?

- Uma fica por conta da casa - sorriu e pôs o dinheiro na mesinha ao lado da cama. 

O homem levantou-se, deixou a toalha pendurada num cabideiro, fechou a blusa, ajeitou a calça, foi até a porta e preparou-se para sair do quarto, olhou para a mulher deitada e disse: 

- Te ligo essa semana, sim?

Ela acenou com a cabeça, ele sorriu e saiu porta a fora, não demorou mais que três minutos e ela escutou o som da porta de entrada do apartamento. Respirou pesarosa e aliviada. Levantou-se e foi até a janela pelada, olhou o céu: azul vivo, azul claro, azul bonito, poucas nuvens, mas o vento que batia era frio, assim como seu coração parecia estar, como ela gostaria que estivesse. 

"Mr. Oiseau saiu do meu ninho e voou direto para onde seu coração se encontra. O coração de Mr. Oiseau não se encontra aqui"   

Voltou-se para o quarto, olhou o cômodo e pensou no que faria agora, já que estava com o dia livre, olhou para o dinheiro ao lado da cama e mordeu o lábio de leve pensando o que faria com aquilo, não podia ficar com o dinheiro, definitivamente, não. Vestiu-se, pegou a bolsa e o dinheiro, saiu do apartamento e procurou por qualquer coisa onde pudesse deixar o que não te pertencia, ou até pertencia, porém não deveria. Rodou por aí, despreocupadamente, não precisava de relógio, não tinha pressa e era um dia bonito para estar fora de casa. Parou, comeu alguma coisa, tomou um sorvete e voltou a andar, passou por uma praça, viu um homem deitado, dormindo no banco e resolveu aproximar-se. Olhou, examinou e achou o lugar perfeito para deixar o dinheiro. Abriu suavemente o casaco que o homem usava e deixou o dinheiro lá dentro. Estava satisfeita, sorriu para o homem que acordava e foi embora. Fez o certo, estava satisfeita e já podia voltar para casa. O caminho de volta foi tão lento quanto o de ida, estava anoitecendo. Passou num mercadinho. Estava muito feliz.  

"Hoje à noite terá Yakissoba para o jantar." 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

o gato e o pássaro

pássaro tu
eu gato

toda vez que você se vai, meu coração se parte,
não tenho asas, como tu, e o que me sobra
é ficar na janela a te observar a voar
e a desejar a ser um pássaro, para um dia,
quem sabe, poder voar junto de tu.
será que tu, pássaro,
deixaria gato, eu, voar ao teu lado?
fico à espreita de tua felicidade,
a felicidade de que não sou parte,
só um observador, desejando
um pouquinho, ser um dia o motivo
do teu (sor)riso.
pássaro, tu, não se vá, não se vá
venha aqui me cortejar, fique aqui ao meu lado
ou deixe que eu vá aí ao teu.
não faça mais uma vez o meu coração chorar
com a partida que fará um dia
você nunca mais voltar.
enquanto isso, estou apenas a te contemplar.

domingo, 25 de maio de 2014

je ne suis pas seul

solidão é quando se olha no espelho e vê um vazio.
meu coração anda por aí sendo feliz
e aquecido por outros
deixando-me aqui
nessa triste noite fria.
solidão é não ser dono do próprio corpo
é estar só consigo mesmo em pensamentos
prostituta da sociedade
vendem o meu corpo, exploram-me
sem que eu sequer queira ou permita.
solidão pode ser ou pode estar, pode ter.
solidão é não pertencer a si mesmo
mas a outro
solidão é ter amigos
mas não ser o seu próprio amigo
a solidão é a companhia dos
sozinhos.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Love Is A Losing Game

"For you I was a flame
Love is a losing game
Five story fire as you came
Love is a losing game"
Acho que em momento algum eu não havia reparado o quanto havia ficado feliz de conhecê-lo, mesmo o achando estranho, ou o quanto havia ficado ansiosa para poder conversar de novo com ele. Mas eu soube, desde a primeira vez que troquei uma palavra com ele que aquele encontro era para estar acontecendo, eu senti os anjos sussurrarem em meu ouvido, eu senti uma coisa dentro de mim mudar, previ o futuro. Foi como se eu tivesse reencontrado algo que há muito tempo não via. Eu estava matando saudades de alguém que nunca vi na vida e senti a liberdade transcorrer pelas minhas veias enquanto conversávamos, senti as asas se abrirem e senti meu coração se acelerar, acho que, intuitivamente, já sabia o que estava para acontecer, sem ter noção do que viria adiante. Acho que o seu jeito, suas palavras e atitude me encantaram de forma desapercebida e meu coração se incendiou suavemente por isso. Lembranças agora desse encontro tão doce, me fazem sorrir da inocência disso tudo, mas se eu soubesse o que me viria depois, eu nunca teria entrado nesse jogo chamado paixão, eu nunca teria desejado isso, porque a bagunça foi boa, mas o estrago me foi enorme. Apostei todas as minhas fichas, joguei com todas as cartas que tinha na manga, fiz de tudo para ganhar o jogo, fui até onde pude ir e perdi, não perdi só esse jogo, perdi tudo que havia conquistado, o mundo em minha volta se desmoronou. Talvez eu esteja adiantando os fatos, mas foi doce, suave e tenro enquanto as coisas não se resolviam entre nós dois, mas quando se resolveu também, foi uma combustão. Como eu posso esquecer quando eu disse o que queria e ele beijou outro alguém na minha frente? Ah, isso não me dói, mas já era a prenuncia da destruição, ou de quem ele era, mas mesmo com início já dando errado, eu jamais poderia esquecer da chuva que nos abençoou durante o nosso primeiro beijo e muito menos do sorriso e da felicidade que eu sentira com aquilo tudo e a excitação com que fui dormir, esperando ansiosamente a próxima chuva que viria e eu pudesse novamente sentir os lábios dele nos meus. Não é como se eu tivesse esquecendo das vezes que saímos antes do beijo acontecer, como tomar um café e conversar na livraria de um shopping, ou sairmos para ver um filme e terminarmos numa cachoeira, acho que foi a partir desse dia que comecei a me sentir atraída por ele, ou será que foi quando eu dei uma pequena desequilibrada e ele cuidou de mim? mas isso talvez já não seja mais importante. O que veio depois disso? Não sei ao certo, mas acho que começamos os nossos encontros ''secretos'' num apartamento para vermos filmes, o que não posso afirmar que aconteceu muito. Lembro muito bem que sempre levava cerveja, porque só assim eu ficaria menos tímida, ficaria menos desinibida e teria coragem para beija-lo e conforme esses encontros aconteciam, outra coisa foi despertando em mim até que um dia aconteceu dele acariciar o meu seio e aquilo despertar um fogo ainda maior. Pronto! A partir daí não tinha mais volta, acho, de verdade, que já gostava dele quando nos beijamos, mas a partir daquele ponto, mesmo sem perceber, já estava apaixonada. Depois desse momento, filmes era só uma desculpa para o sexo e foi sendo assim até alguma noite e eu não consigo lembrar quando foi que toda a magia desse momento acabou, não havia mais filmes talvez. Acho que ficamos um tempinho sem nos ver, não sei, eu sei que esse tempo sem encontros existiu e eu sei que fiquei atordoada com isso, mas consigo me lembrar quando ele me convidou para ir até sua casa e eu fiquei muito envergonhada, uma noite que eu basicamente não dormi, enquanto parecia que ele não acordaria tão cedo. Agora, eu quase posso sentir o que senti naquela noite, eu lembro que desejei que durasse para sempre, que eu pudesse ficar ali, nos braços dele eternamente e rezei para que ele sentisse por mim o mesmo que eu sentia por ele, rezei com tanta força que quase acreditei que fosse reciproco. Foi a noite mais mal dormida e mais doce entre todas as outras que eu tive com ele. Mais uma vez, não consigo lembrar, porém sei que ele sumia algumas vezes e sei que eu sempre ficava nervosa com isso e sei que ele sempre aparecia de novo me chamando para alguma coisa, e aí que nessa ele me chamou para algo que talvez mudasse muita coisa para mim e, então, começaria o declínio.  


"Though I'm rather blind
Love is a fate resigned
Memories mar my mind
Love is a fate resigned"

Eu lembro da primeira noite naquele lugar, acho que não entendi muito bem o que era, acho que estava assustada, não sei, acho que fiquei uns dois dias por lá, acho que transamos no telhado, não sei.  Acho que voltei para lá depois de alguns dias. Lembro de algumas coisas especificas, mas não consigo lembrar da ordem cronológica sobre este lugar, minhas memórias são embaralhadas. Isso foi da segunda ou terceira vez, já não conseguia mais negar a paixão que sentia por ele, lembro de ter passado mal pelo uso de alguma substância, lembro de olhar a lua e de estar com a cabeça no colo dele e lembro dele olhando para os lados como se estivesse procurando alguém e lembro da dor que senti por isso. Pela segunda vez foi feita o uso daquilo e pela segunda vez eu passei ainda mais mal e eu deitei naquele banco e, de novo, a minha cabeça estava no seu colo e não sei quanto tempo ficamos daquele jeito, mas o celular dele tocou e ele disse 'já volto' e foi lá fora atender, fiquei esperando, enquanto passava mal e ele não voltou, nem sequer se preocupou se eu estava bem, apenas me deixou de lado e foi para os braços de outra pessoa. E eu? Ah, eu não podia fazer nada, nem falar nada, já que não admitia ama-lo, por mais que eu tivesse admitido, gostava de dizer que éramos amigos + sexo, porém isso não impediu que a faca entrasse, que o coração não se partisse em mil. Não posso culpa-lo completamente pelo meu sofrimento, também tenho dedos de culpa. Escrevendo isso agora, eu quase que posso chorar. Disse para ele o que sentia, ou melhor, escrevi: 'Me perdoa', e ele respondeu: 'Pelo o que?' e eu disse: Por estar sentindo ciúmes. Você sabe o que isso significa, né?' e, eu já sabia qual era a resposta, ele não sentia o mesmo por mim, eu caí em lágrimas. Acho que ele deve ter amado mais a ela do que a mim, mesmo pelo o curto período de tempo que ficaram. Tanto faz, mas eu decidi continuar sendo amiga dele, continuei indo para aquele lugar, me habituei as pessoas e a distância entre eu e ele, até que surgiu uma viagem. Foram tempos difíceis, mas onde eu senti muita coragem. Aquela viagem onde era a primeira vez que pegávamos carona, onde foi tudo muito divertido, onde eu o beijei e achei estranho, onde dormimos num posto morrendo de frio e quando voltamos dela, não podia negar a tensão sexual que surgiu e o melhor sexo que tivemos e, assim, voltamos. Foi agradável e bonito, o que me fazia sofrer era essa coisa que ele tinha de dizer 'não precisamos de um nome ou definição para o que temos' e era isso o que eu usava para poder justificar toda aquela dor e insegurança que ele me passava. Eu lembro que ele havia me feito uma pergunta, agora, qual era, não sei e eu lembro que eu fiquei de dar a resposta pessoalmente e nesse período eu já estava emocionalmente cansada, passou um final de semana e nada foi dito, passou outro e é difícil contar essa parte da história, mas estávamos no final de tudo, a morte cruzou o meu caminho, como eu poderia suportar aquela perda? Ele. Ele era a única coisa que me fazia me sentir bem, era a minha droga, era a pontinha de felicidade que eu tinha, eu podia rir e sorrir do lado dele, a dor era esquecida por mim, o que importava era que eu estava ali com ele, a gente andava de mãos dadas na rua e essa era minha maior alegria. Pura tolice, junto com essas lágrimas que teimam em descer ao lembrar disso. Eu estava cega de paixão, porque eu não conseguia ver que ele não me amava, por mais que soubesse disso. Como alguém pode preferir ir a um lugar ao invés de dar suporte a alguém que acaba de perder o pai? Isso não é nem de perto é amizade, eu lembro do grito que eu dei quando ele saiu da minha casa, enquanto o enterro acontecia. Meu pai estava sendo enterrado e ele estava saindo pela porta fora, não aguentei nem 10 minutos naquele silêncio aterrorizante da minha casa e corri atrás dele pedindo para que ficasse. Depois desse ocorrido, voltamos àquele lugar e o nosso tempo juntos estava prestes a acabar. A última lembrança boa de que tenho. Estávamos lá, junto de todas aquelas pessoas que eu tanto adoro e sinto uma saudade no peito, mas uma saudade que dói por tudo que me aconteceu. Lembro quando eu o abracei e ficamos daquela forma por bastante tempo, eu tinha entre os meus braços tudo o que parecia mais importar para mim e lembro que quando estávamos no ponto de ônibus de ter feito um convite para passar comigo o final de semana em que faria um mês de morte e lembro que ele disse que viria e o ônibus chegou e então a gente começou a conversar, não sei exatamente o que dissemos, sei que falei "eu tive a impressão de que deveria ter te conhecido" e lembro do sorriso tímido que ele deu e eu poderia dizer o quão perfeito era aquela imagem e aquela viagem tão meiga, acabou, ele desceu no ponto dele e eu segui o meu caminho. A semana passou e eu esperava ansiosamente para chegada do final de semana, talvez fosse quinta ou sexta, havia a mensagem dele 'Perdoe-me, não posso ir porque eu quero muito mesmo viajar' e aquilo foi a minha gota d'água. Surtei. Por que, Deus, por que ele não podia fazer uma só coisa por mim? Por que era sempre eu que tinha que ir de encontro a ele? Por que eu tinha que perder o meu pai ?  Por que nada deu certo para mim? Já não aguentava mais a ausência que tinha do meu pai, já não aguentava mais amar aquela pessoa egoísta. A loucura já estava quase derrubando a porta, mas naquele fatídico final de semana, minhas pernas fraquejaram enquanto eu tentava segurar tudo por dentro, mas enfraqueci de vez e tudo veio com força máxima e me derrubou. E ele voltou, mas a minha sanidade partiu. Aquela noite! A noite em que eu surtei ao lado dele e ele apenas deitou a cabeça na mochila, a noite em que ele sabia que eu não estava bem e ele conversava despreocupadamente, a noite que tentaram se aproveitar do meu corpo em pleno surto e ele nem sequer se preocupou com isso. A noite em que ele me abandonou. E nunca mais me procurou, voou para os braços de outro alguém, enquanto tudo o que eu queria eram o braços dele. Assim, as coisas terminaram. O tempo passou rápido para mim, ainda bem, mas ainda há marcas, ainda há dor e revolta e, talvez, amor, mas nada disso importa, muito menos esse texto. Então, por que escrevê-lo? Não sei, a procura de alguma coisa óbvia, mas que eu não consigo enxergar, à procura do conforto. Eu me pergunto: E se eu nunca tivesse entrado naquele lugar? Ou melhor, se eu nunca tivesse voltado para lá? Será que eu teria sofrido menos? mesmo com tantos sofrimentos, poderia dizer que ao mesmo tempo teve muita magia. Sinto saudades quando paro para pensar nas coisas boas deste lugar agora abandonado. E como estão as coisas agora? Ele ama a outra pessoa e eu, eu só sou eu, eu fui algo completamente conveniente, Eu nunca poderia ser ela, porque eu só sou bonita, desinteressante, passiva e fácil, porém orgulhosa, quem vai amar uma pessoa como eu? Beleza não põe na mesa. E o orgulho envenena a alma. Acho também que ele me reprimia por ama-lo, será que ele reprime a outra?  Aposto com todas as fichas que não e isso não é de meu interesse também, porém talvez eu o reprimisse com o meu jeito. Acho que se eu tivesse falado mais,  feito mais o que eu queria, se eu tivesse seguido o meu coração... E se, e se eu tivesse dito a ele o quanto eu o achava sensual? Ou que eu adorava observa-lo dormir, escutar a sua respiração calma e o coração batendo? E que eu amava o seu cheiro? Ou o quanto achava encantadora a sua voz? E o quão inteligente eu acho que ele é? Eu rio, porque eu sei que nada disso funcionaria, mas eu sei que tive medo de demonstrar o meu amor, porque se até pelo os meus pais eu não sei, mesmo que agora o meu pai esteja em outro lugar, eu nunca soube amar ou demonstrar amor. E essa minha mania de querer justificar tudo, é terrível. Pior que isso, só a outra mania de querer me culpar. Mas eu não sou vitima, sou tão culpada quanto. Por mais que ele diga, 'fui covarde', eu não consigo engolir, porque é muito mais fácil dizer 'eu nunca te amei, muito menos me importei, eu só queria sexo', me sentiria melhor em escutar isso. Rio. Não adianta eu ficar à procura de nada, eu estou aqui e ele está lá, nos braços de outro alguém, acabou. E eu não posso apenas me centralizar nas coisas ruins, vieram as coisas boas com isso: eu cresci e mudei, se talvez ele nunca tivesse entrado na minha vida, eu nunca seria o que sou hoje, e, parando para pensar assim, tudo torna-se positivo. Quando a dor vai embora, o amor vem. É como diz a música: 'eu que nunca amei a ninguém, pude, então, enfim amar'. É triste despedir-se de algo quando se ama. Que eu nunca tivesse amado, o amor é uma aposta perdida. Talvez, entre todas as coisas, ele foi o melhor e o pior de tudo que já me ocorreu.

''Over futile odds
And laughed at by the gods
And now the final frame
Love is a losing game''

sábado, 17 de maio de 2014

there's a man in my heart, ops, in my couch

Essa casa agora está mais destruída, porém antes era pequena e agora está maior, aquele que dormia no sofá, ocupou a sala, o quarto e todo o resto, com seu cheiro, sua essência. Você se foi, ele ficou. Ainda sinto uma saudade gostosa sua, queria que você entrasse pela porta e me enchesse com a sua paz, com o seu carinho, com a sua luz e sensualidade, queria que você pudesse espantar o homem do sofá que me assombra, mas que me faz suspirar pelos cantos. O homem do sofá... que doce! Aquele dia em que você saiu de minha cama e me deixou sozinho, ele já estava aqui dentro, do sofá ocupou a cama e, na cama, o corpo inteiro e, quando eu percebi, estava em todos os cômodos, sua essência chegou em minha alma e arrancou meu coração fora, levou todos os móveis bons, deixou os velhos e quebrados. E eu fiquei a espera-lo, fiquei a te esperar com teu riso. Agora, luto contra essa invasão que ele me deixou, tento apaga-lo de dentro de mim e reacendo a sua memória nesse sofrimento que ele me trouxe, te procuro por aí, em outros corpos, em outros braços, em outros beijos, mas no olhar e no coração é apenas o homem do sofá. Procuro ainda mais por ele. Querido, por que você quando entrou por aquela porta e invadiu apenas a cama, e não a casa, o olhar e alma? Te queria em minha essência, te tenho em minhas memórias, mas não completamente em meu peito. Onde está você agora? Nos braços de outra pessoa, assim como o homem que deixou tudo ainda mais bagunçado, mais quebrado. Olho para o mesmo espelho partido, acho que é a representação de mim: sou um homem de alma ferida e o coração mil vezes partido. Acho que esta é a minha natureza: ferir e ser ferido. Mas quer saber? Agora que a casa está abandonada, as lágrimas já secaram e eu estou aqui, sentado na sala e no meio de toda essa bagunça, de toda essa quebradeira, com o espelho na mão, as janelas continuam abertas para o vento e a vida entrarem. Nunca estive tão bem comigo e genuinamente feliz no meio de tanta dor.
Sorrio.

domingo, 23 de março de 2014

Queria ter asas e voar.
Queria ser um pássaro, um pássaro imigrante.
Queria ser um pássaro para poder atravessar oceanos e mares, voar inúmeros céus.
Queria ser um pássaro e voar bem alto e lá do céu, observar cidades grandes que se tornam pequenas.
Queria ser um pássaro para que quando estivesse lá no alto do céu, pudesse contar as pessoas o quanto elas são minúsculas e quanto os seus problemas são ainda mais minúsculos que elas, por maior que eles aparentam ser.
Ah, como eu queria ser um passarinho para poder cantar em suas janelas e fazer com que seus dias ficassem ainda mais bonitos e poder conta-los sobre as diversas belezas que esse mundo tem e esconde, sobre os inúmeros encantos que se encontram em coisas tão simples e que nem sequer percebem com o dia-a-dia
Ah, como eu queria...