A gente te ama.
Aquelas palavras ecoavam na mente dele como se fosse quase uma música.
A gente te ama.
Queria arrancar o coração do peito, queria jogar todos aqueles pensamentos no lixo, queria por um ponto final em tudo aquilo. Sentia ódio e frustração por tudo, por eles e por si mesmo.
Não entendia como conseguia ser tão estúpido, não entendia o porquê de ser sempre as mesmas coisas, a mesma história e a mesma mentira.
O silêncio era bem vindo em sua mente, mas não vindo deles. Era uma traição, uma faca fincada no peito que atingia até a alma. Poderia suportar tudo, menos aquilo. Talvez estivesse dopado em sua própria dor, largado e afogado em suas próprias lágrimas.
A dor se agarrava em seu peito , as lágrimas surgiam e a vontade de gritar de aumentava.
Cantarolando algo qualquer, fazendo uma dança sem sentindo, seguia até ao aparelho de som, queria música, queria vida, queria algo que o entendesse.
Mentiras e silêncio.
As quimbas de cigarros e mais alguns baseados por toda a sala, garrafas e latas de bebidas alcoólicas espalhadas por todo o apartamento e as drogas já todas consumidas. A melhor forma de sumir com a dor.
Deitou-se no sofá e mergulhou direto naquela paisagem que tanto conhecia: calmo e cinza, sombrio e macabro, cheio de pensamentos e sentimentos, mas ele queria mergulhar no vazio, no imensidão do nada e se ver livre, livre de tudo o que lhe fazia mal, que o corrompia e que envenenava seu coração, livre de todas as pessoas.
Dizia ele que era fraco, não sabia escutar o que não queria, mas não se importava realmente, só sorria em desgosto.
Olhava para toda aquelas pessoas que diziam que o amava e queria se livrar de cada uma delas, dizer a cada uma delas que as odiava e que as queria longe, quando na verdade era louco de amor e queria ser um só com elas, não queria de forma alguma que elas olhassem para outras pessoas, elas eram dele.
O que era uma mentira.
Ninguém era dele, as mentiras só eram contadas para fazê-lo pensar assim, e a verdade escondida para fazê-lo sentir um completo idiota quando as descobrisse.
Sentia-se covarde, não conseguia se livrar de nenhuma delas, ele as amava demais para tal coisa, era imensamente doloroso saber sobre a traição, mas era insuportável estar sem elas.
Há quanto tempo estava naquele barco? Nem lembrava mais, já não lembrava de muita coisa, já não tinha mais no que acreditar, nem em si mesmo, já haviam levado tudo o que restava de si.
Lembrar que vivia era sempre um pesadelo, queria voltar a dormir, se esquecer que existia e que continuava respirando. Sonhar era sempre tão melhor, tão bom... sonhos seriam sempre sonhos e talvez fosse a única coisa que ainda restava.
Entrou em estado torpor, foi a fundo em suas lembranças e tentou lembrar de cada sorriso, risada, lágrimas, gritos... cada lembrança e sentimento, tudo. Sentia sono, muito sono e cansado, tão cansado que era quase impossível levantar, seu corpo era uma pedra, e ficou onde estava, foi mais fundo em tudo, mais lúcido e mais sóbrio.
A música tocava e o telefone também, estava ocupado demais apagando cada memória e tirando cada sentimento de seu coração, estava ocupado demais dormindo. Que tocasse.
Dormiu por três dias, e não sabia se era por causa das drogas, não sabia se era por falta de dormir por dias. Já não sabia de mais nada.
Quando acordou, o corpo continuava cansado e a mente pesada, caiu do sofá e foi para um banho gelado. A música continuava tocando.
A água passeava pelo seu corpo, e todos os pêlos eriçavam pelo toque gelado e o acordavam para vida. Levou a mão aos cabelos e percebeu o quão grandes estavam os seus cabelos, não se importava também. A mão passeou pelo corpo tentando sentir a si mesmo, cada pedaço, cada centímetro, tentava se sentir ao máximo, queria voltar sentir-se seu.
A cabeça que estava livre de pensamentos, voltou com aquelas palavras que o feriam tanto e sentiu as lágrimas quentes saírem tímidas, um riscado molhado e quente entre a pele já molhada e gelada.
Ficou incontável tempo de baixo d'água tomando banho e reconhecendo-se de novo. Saiu do chuveiro, enrolou a toalha na cintura e não ligava de se enxugar e muito menos em molhar o chão, se apoiou na pia e encarou a si mesmo no espelho, seu reflexo era abatido, pálido e cansado, talvez estivesse um pouco mais magro.
Não queria pensar em saúde, e saiu do banheiro indo para o quarto por uma roupa, o dia era um tanto frio.
Entrou pela sala, e observou toda a bagunça. Queria mudar, queria ver mudança e começou a arrumar todo o lixo, endireitar as coisas e consertar tudo que estava quebrado, enxugar o chão molhado.
Passou um dia inteiro arrumando o apartamento, e quando se pôs a observa-lo sentiu que ainda não estava limpo, tinha que se livrar de tudo, a dor ainda estava ali em algum canto e ele não sabia onde.
A semana passou. Uma mudança aconteceu.
O apartamento não era mais o mesmo, tinha trocado móveis, jogado coisas que não serviam fora, posto toda a dor no lixo.
E o telefone continuara a tocar, sem parar, a música seria eterna naquele apartamento e talvez pessoas tivessem ido visita-lo e ele não estava em casa ou nem tinha se dado ao trabalho de atender a porta.
Não se importava com mais nada, tinha um mundo novo e só seu e agora teria de se acostumar com ele, com o vazio.
Pintaria as paredes da sala ou mudaria de apartamento, estava incerto sobre. Levou o cigarro a boca e um gole no whisky, sentado no sofá e reparando em todas as diferenças no seu apartamento.
Fingia que esquecia a dor, fingia que esqueceu as palavras, elas continuavam lá em algum canto da sua mente, em alguma parede de seu apartamento. A dor ainda estava instalada em seu peito, mas queria ser forte, respirar calmo e dar um passo de cada até se livrar de todo o passado.
Terminou com o whisky num gole e decidiu que brincaria de suicídio depois.