quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sorvete

As nuvens negras começaram a fazer estrondos, a chuva começara a cair fina e as pessoas começaram a correr, abrir seus guardas chuvas e entrar em lojas ou ir para suas casas para se protegerem da chuva.

Ela olhou para cima sentindo a chuva leve molhando seus cabelos e suas roupas, entrou na loja, cogitou se deveria ou não, e comprou o sorvete, o que levou um sorriso doce ao seus lábios. Enquanto a vendedora punha as bolas de sorvete no cone, ela observava o lado de fora da loja, via a chuva caindo.

Pagou. Saiu. A chuva se transformou num temporal, não queria esperar, não tinha medo da chuva, gostava e gostava mais ainda com sorvete. Tomava sorvete debaixo da chuva, o corpo tremia de frio, mesmo agasalhada, era a chuva, era o vento e o sorvete. Gostava daquela sensação de frio, mesmo que seu corpo implorasse por algo quente.

O sorriso continuava em seus lábios, parecia uma criança, as pessoas que a observavam por dentro de lojas e de baixo de seus guarda chuvas achavam-na louca. Uma mulher que parecia uma menina tomando sorvete de baixo de chuva como se fosse um dia de sol.

Os cabelos longos, ondulados e negros que estavam presos numa trança que deitava em seu ombro esquerdo, os olhos verdes mel e a pele branca. As roupas em tons neutros, mas o suficiente para chamar atenção.

Sinal fechado.

Atrevessava a rua quando olhou para o lado. Arregalou os olhos, assustada, mas em seguida sorriu; em questão de segundos.

E no meio de um dia cinza, o cone do sorvete deitava no chão e o sorvete colorido de sabor manga, morango e sky agora se misturava junto ao vermelho do seu sangue. O dia cinza ganhava cores.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Libertador

A gente te ama.

Aquelas palavras ecoavam na mente dele como se fosse quase uma música.

A gente te ama.

Queria arrancar o coração do peito, queria jogar todos aqueles pensamentos no lixo, queria por um ponto final em tudo aquilo. Sentia ódio e frustração por tudo, por eles e por si mesmo.

Não entendia como conseguia ser tão estúpido, não entendia o porquê de ser sempre as mesmas coisas, a mesma história e a mesma mentira.

O silêncio era bem vindo em sua mente, mas não vindo deles. Era uma traição, uma faca fincada no peito que atingia até a alma. Poderia suportar tudo, menos aquilo. Talvez estivesse dopado em sua própria dor, largado e afogado em suas próprias lágrimas.

A dor se agarrava em seu peito , as lágrimas surgiam e a vontade de gritar de aumentava.

Cantarolando algo qualquer, fazendo uma dança sem sentindo, seguia até ao aparelho de som, queria música, queria vida, queria algo que o entendesse.

Mentiras e silêncio.

As quimbas de cigarros e mais alguns baseados por toda a sala, garrafas e latas de bebidas alcoólicas espalhadas por todo o apartamento e as drogas já todas consumidas. A melhor forma de sumir com a dor.

Deitou-se no sofá e mergulhou direto naquela paisagem que tanto conhecia: calmo e cinza, sombrio e macabro, cheio de pensamentos e sentimentos, mas ele queria mergulhar no vazio, no imensidão do nada e se ver livre, livre de tudo o que lhe fazia mal, que o corrompia e que envenenava seu coração, livre de todas as pessoas.

Dizia ele que era fraco, não sabia escutar o que não queria, mas não se importava realmente, só sorria em desgosto.

Olhava para toda aquelas pessoas que diziam que o amava e queria se livrar de cada uma delas, dizer a cada uma delas que as odiava e que as queria longe, quando na verdade era louco de amor e queria ser um só com elas, não queria de forma alguma que elas olhassem para outras pessoas, elas eram dele.

O que era uma mentira.

Ninguém era dele, as mentiras só eram contadas para fazê-lo pensar assim, e a verdade escondida para fazê-lo sentir um completo idiota quando as descobrisse.

Sentia-se covarde, não conseguia se livrar de nenhuma delas, ele as amava demais para tal coisa, era imensamente doloroso saber sobre a traição, mas era insuportável estar sem elas.

Há quanto tempo estava naquele barco? Nem lembrava mais, já não lembrava de muita coisa, já não tinha mais no que acreditar, nem em si mesmo, já haviam levado tudo o que restava de si.

Lembrar que vivia era sempre um pesadelo, queria voltar a dormir, se esquecer que existia e que continuava respirando. Sonhar era sempre tão melhor, tão bom... sonhos seriam sempre sonhos e talvez fosse a única coisa que ainda restava.

Entrou em estado torpor, foi a fundo em suas lembranças e tentou lembrar de cada sorriso, risada, lágrimas, gritos... cada lembrança e sentimento, tudo. Sentia sono, muito sono e cansado, tão cansado que era quase impossível levantar, seu corpo era uma pedra, e ficou onde estava, foi mais fundo em tudo, mais lúcido e mais sóbrio.

A música tocava e o telefone também, estava ocupado demais apagando cada memória e tirando cada sentimento de seu coração, estava ocupado demais dormindo. Que tocasse.

Dormiu por três dias, e não sabia se era por causa das drogas, não sabia se era por falta de dormir por dias. Já não sabia de mais nada.

Quando acordou, o corpo continuava cansado e a mente pesada, caiu do sofá e foi para um banho gelado. A música continuava tocando.

A água passeava pelo seu corpo, e todos os pêlos eriçavam pelo toque gelado e o acordavam para vida. Levou a mão aos cabelos e percebeu o quão grandes estavam os seus cabelos, não se importava também. A mão passeou pelo corpo tentando sentir a si mesmo, cada pedaço, cada centímetro, tentava se sentir ao máximo, queria voltar sentir-se seu.

A cabeça que estava livre de pensamentos, voltou com aquelas palavras que o feriam tanto e sentiu as lágrimas quentes saírem tímidas, um riscado molhado e quente entre a pele já molhada e gelada.

Ficou incontável tempo de baixo d'água tomando banho e reconhecendo-se de novo. Saiu do chuveiro, enrolou a toalha na cintura e não ligava de se enxugar e muito menos em molhar o chão, se apoiou na pia e encarou a si mesmo no espelho, seu reflexo era abatido, pálido e cansado, talvez estivesse um pouco mais magro.

Não queria pensar em saúde, e saiu do banheiro indo para o quarto por uma roupa, o dia era um tanto frio.

Entrou pela sala, e observou toda a bagunça. Queria mudar, queria ver mudança e começou a arrumar todo o lixo, endireitar as coisas e consertar tudo que estava quebrado, enxugar o chão molhado.

Passou um dia inteiro arrumando o apartamento, e quando se pôs a observa-lo sentiu que ainda não estava limpo, tinha que se livrar de tudo, a dor ainda estava ali em algum canto e ele não sabia onde.

A semana passou. Uma mudança aconteceu.

O apartamento não era mais o mesmo, tinha trocado móveis, jogado coisas que não serviam fora, posto toda a dor no lixo.

E o telefone continuara a tocar, sem parar, a música seria eterna naquele apartamento e talvez pessoas tivessem ido visita-lo e ele não estava em casa ou nem tinha se dado ao trabalho de atender a porta.

Não se importava com mais nada, tinha um mundo novo e só seu e agora teria de se acostumar com ele, com o vazio.

Pintaria as paredes da sala ou mudaria de apartamento, estava incerto sobre. Levou o cigarro a boca e um gole no whisky, sentado no sofá e reparando em todas as diferenças no seu apartamento.

Fingia que esquecia a dor, fingia que esqueceu as palavras, elas continuavam lá em algum canto da sua mente, em alguma parede de seu apartamento. A dor ainda estava instalada em seu peito, mas queria ser forte, respirar calmo e dar um passo de cada até se livrar de todo o passado.

Terminou com o whisky num gole e decidiu que brincaria de suicídio depois.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Deep Blue

Você partia, seus passos continuavam firmes no chão, seguindo em frente... as lágrimas caiam sem que eu percebesse, volte aqui, corri, corri e corri até você. Por quê?, perguntei, e corri mais para poder te alcançar. Meu tudo. Quando cheguei atrás de você, pronto para agarrar seu pulso e impedir sua partida, você deu mais um passo: rápido e firme, escapando de minha mão, aquela música começou a tocar em alguma lugar, não sabia dizer se era só dentro da minha mente ou em algum lugar aleatório. Volte. Continuei na mesma posição sem olhar para qualquer um dos lados, só para você. E mais aquela música se repetia, me causando profundo desgosto. Aquele sentimento de novo: desespero, vazio. Abandonado.

Novamente, aquele mar imenso, fui posto lá de novo. Frio e escuro, desesperador. Olhei para os lados, procurando algo, algum sinal de vida, queria sair dali. Olhei para cima vendo a luz que vinha do céu, mas era só um borrão. Quero chegar lá, quero me sentir quente de novo. Veio aquela música, fechei os olhos e tampei os ouvidos, não queria mais escutá-la. Silêncio dentro da minha mente. Ensurdecedor. As imagens de você partindo vieram à mente. Abri os olhos com a mesma força com que eu os fechei, olhei em volta de novo, e a música repetitiva, tocava, deixando-me ainda mais desesperado. Comecei a nadar em direção da luz, fugindo daquela música, daquele frio. Nadei o mais rápido que mais pude, era difícil chegar a superfície. Quanto mais chegava perto, mas longe parecia estar. Minhas lágrimas quentes mesclavam-se com a água salgada dor mar gelado. Queria sentir algo vivo, queria respirar.

Queria aquela droga, mais uma dose com gelo... não, queria a garrafa inteira, sem gelo, quente. Queria sentir o alcóol me esquentando e a droga pulsante em meu sangue, encontrar um lugar para descansar e um peito, um colo para dormir, já estava cansado de nadar, encontrar saída para aquela eternidade sem fim, era difícil continuar respirando. Uma saída, um salva vidas... qualquer coisa que não me faça mais nadar, mesmo que eu tenha que desistir e afundar de vez naquele azul profundo e calmo que eu tanto gostava, mas que tanto me assustava e me fazia tremer de frio.

De repente a saída, a luz que me machucou a vista de tão forte que era, de tão claro e vivo. Pude respirar com alívio, um ar novo. Horas, horas naquela vertigem, no delírio de estar em algo seguro, terra firme. Boiando, olhos fechados, sentindo o sol em meu rosto e meu corpo flutuar, de repente a luz sumiu e me fez abrir vagarosamente os olhos, olhei para o lado e vi um barco vagarosamente parando ao meu lado, mais um delírio, a abstinência de tudo, sentindo falta da realidade. Eu queria sair daquela ilusão que me fazia entrar em desespero. Voltei a fechar os olhos ignorando aquele barco que fazia parte da minha alucinação. Aquela música, aquela música de novo... E meu nome sendo chamado. Abri meus olhos e olhei em direção do barco e lá estava tudo o que eu queria ver, tudo o que eu queria tocar, sentir.

Naquele barco, de volta para terra, de volta para casa, caindo fora daquela ilusão, indo para bem longe daquele lugar. Ele me olhava calmo e sorridente, e eu o olhava assustado, como se fosse um fantasma, corri para abraçá-lo, e ele desviou. De novo escapando das minhas mãos. Você me perdeu, disse, e a gente não pode se tocar.

Tudo se desmancha vagarosamente e a última coisa a sumir foi o seu sorriso. Era noite, a garrafa vazia, estava deitado no chão, sem realmente ter conhecimento do que se passava ou de que horas eram. Sentei no chão, olhei para os lados procurando saber o que se passava, coçando a cabeça. Levantei, fui em direção ao banheiro, lavei o rosto e olhei meu reflexo abatido no espelho. Tomei alguns remédios para dor de cabeça e fui para cozinha buscar um pouco de água. Eu não sabia mais o que fazer, sair daquele desespero, jogar aquela dor para longe.

Liguei o som. Aquela música. As lágrimas vieram sozinha, aquele sentimento de novo: desespero, abandono. Adeus. Não conseguia desligar o rádio ou trocar de música ou estação, era quase uma obrigação escutá-la. Masoquismo emocional. Tão calmo, tão inspirador... mas os sentimentos que passavam era de puro desespero, morte... abandono. Como uma música poderia me fazer sentir daquele jeito? Como uma música poderia descrever meus sentimentos sem nem ao menos dizer uma palavra? Lembraças, lembranças e lembranças, lembraças que partem o coração, e nos faz querer morrer. Sentimentos que fazem nos sentir sufocado, sentimento nostálgico.

Alguma coisa no passado muito triste aconteceu, e eu não sabia o que era, eu só sabia que havia acontecido, era esse o meu sentimento. Turbilhões de sentimentos e pensamentos me invadiram. Queria me livrar disso tudo. Queria ir para longe, mesmo estando longe, porém, dessa vez, mais longe ainda... o longe onde você estava. Meu corpo, minha alma choravam. Tão profundo. Desesperador. Se não fosse tão tarde, gritava.

Olhei para uma foto em cima do móvel, peguei nela e a observei. Era tão feliz, tão feliz que chegava a irritar. Meu peito se aqueceu e eu vi o passado sendo desmanchado, como se alguém pegasse tudo que houve e queimasse. E eu deixei. Tudo tinha que se queimar e deixar ser queimado. Que o vento se encarregasse de levar tudo para longe, varrer toda poeira, todo o resto do que sobrou e que não prestava mais.

Eu estava cansado de tudo aquilo, há muito tempo eu estava fraco e eu não poderia mais lutar contra aquilo. Há muito tempo... que eu lutava sozinho e eu estava morrendo, já estava cansado daquilo tudo e era hora de voltar para casa.