Tudo confuso demais para ser entendido.
Já é tarde, já é noite, é madrugada e eu quero dormir antes que amanheça, não quero ver o sol, não posso ver o sol, não quero ver vida para saber que estou morto... Epa, espera!, eu não sou um vampiro, mas não me sinto mais vivo. Quero vida, devo assistir ao nascer do sol? Minhas pernas tremem, meus braços doem e minha cabeça gira, vejo o mundo todo junto, tudo num só, misturado.
Gosto, gosto do sabor amargo, cinza e áspero.
Uma manhã particularmente clara e de poucas nuvens (quase raras) , entro de baixo do chuveiro, água gelada que poderia ser mar, lago, rio, cachoeira, mas não chuveiro. Banho tomado, café forte e amargo sendo feito e a fumaça do cigarro escapando pelos meus lábios, fugindo pelas narinas, um bolo de papéis cheios de notícias em cima da mesa, mas não me interessa notícias, me interessa o gosto amargo do café e o cinza do cigarro. Um queijo, uma taça de vinho, mas é de manhã, quem se importava? Dia de sábado, céu aberto, azul, azul claro, azul vivo, quero preto, verde e cinza.
O telefone toca, toca e toca, não tem ninguém , tem eu, e quem disse que eu quero falar? Quem falou que eu estou em casa, que eu estou vivo? Se quiser que eu atenda, ligue na hora certa, daqui a dez minutos, quem sabe, duas horas, mas definitivamente, não estou, não quero estar nesse apartamento branco, vazio que só tem eu, não quero estar, mas estou, eu não quero atender. Eu não vou atender.
Ponho uma música, talvez um rock, um pop, um clássico, um jazz, o que eu estiver afim de ouvir, qualquer coisa, menos o barulho estridente do telefone. São oito horas e vinte e dois minutos e eu quero fumar de novo, quero outro cigarro, onde eu fumo? não quero a sala, já cansei da cozinha, tem a varanda, mas eu não quero claridade demais , esqueci dos quartos, mas no meu quarto ficará cheirando a cinza, ao áspero, e eu não gosto desse cheiro, gosto do sabor. É, quarto, fumarei no quarto, não importa o cheiro, as cinzas, só eu que durmo lá, não fodo mais ninguém, me masturbo, e só. Não ligo.
Um novo apartamento, é isso, um amor, quem sabe, meu coração já está maduro, tão maduro que já começa a apodrecer. Uma vida, é e-xa-ta-men-te disso que eu preciso. Perfeito. Deito na cama, acendo meu cigarro, o cinzeiro fica em cima da cama, agora, já tenho um lugar, já estou com meu cigarro, preciso de algo mais, uma punheta: mas não são horas para isso, é só uma desculpa para não fazer, não ligo para as horas, apenas não quero fazer; assistir TV: chato, não, é sábado. Poderia ver quem me ligou, mas eu não quero falar, eu saí; ler um livro: talvez, tá começando a ficar melhor; dançar a música que vem da sala: estou cansado; ver um filme: dá sono... dormir? por que não pensei nisso antes? Per-fei-to. Mas eu quero fumar, fumar e fumar outro, outro e outro e todos os outros cigarros, quero acabar com o meu maço.
Ah! Mas que vontade de sonhar, de relaxar, que vontade de deixar de existir por horas, deixo o cigarro para depois, para outra hora, eu já fumei hoje, eu não dormi, estou cansado, cansado e com sono, mas não cansado só porque eu não dormi, estou cansado de tudo, e com sono, é por isso que eu vou dormir, eu quero sonhar, a irrealidade, o absurdo, o surreal e as sensações reais e o impossível que o sonho trás.
O céu escuro, estrelado, um ventro frio, um lago na minha frente, ou um rio? Deus, seria uma cachoeira? Não sei, tá escuro e eu não escuto nada, só sinto cheiro de água, mas água doce, não salgada. Desnudo-me e entro na água congelante e sigo adiante, mas espera, eu estou sonhando não é mesmo? É, eu estou em um sonho, nada vai me acontecer, eu que sei, o sonho é meu, onde eu parei? nú na água, eu estremeço e, de novo, meu corpo treme, mas não pelo frio, mas sim pelas mãos quentes que me tocam. Pode queimar,sua mão é calorosa demais para um corpo gelado e nu como o meu, estou com frio, cuidado!, disse. Suas mãos me tocam, alisam e me viram de frente para sua pessoa. Quem é você? não sei nem se é homem ou mulher, não importa, tanto faz, apenas quero que continue. Continue. Algo pousa em meu ombro, eu não sei, nem quero saber, quero apenas essas mãos quentes... ficou um tanto pornogáfico, mas eu não ligo, se for para ser, que seja, que me foda, que eu foda, está ótimo. Vou seguindo, eu preciso ir mais a frente, dou um passo, e agora não são apenas as mãos, os braços envolvem a minha cintura e o corpo quente se encosta no meu, frio e nú, mas não me importo, eu sigo, e o corpo, abraçado ao meu, segue também, e mais fundo vai ficando, mais vamos nos afundando, mas eu não tenho medo, tenho só que seguir, andar, um corpo quente em mim e uma borboleta verde em meu ombro, é isso, é uma borboleta: verde. E eu continuo, sigo e nós três vamos afundando juntos até estarmos completamente afogados.
Levanto, fumo, mijo, tomo o resto de vinho que está na garrafa, agora são quatro horas e sete minutos, meu humor melhora, mas continuo a não saber se estou em casa, se caso me ligarem, posso assistir um filme agora, ler um livro e até dançar, mas opto por não ficar em casa e quem for me ligar, eu não escutarei, de verdade dessa vez. Vou para o banheiro, escovo os dentes, faço a barba de dois dias sem ser feita, lavo o rosto, tiro as roupas e ponho outras e saio. Cigarro, carteira, isqueiro e chaves nos bolsos, tudo ok. Paro de frente a entrada do meu prédio, olho para os lados decidindo para onde e qual direção eu vou, acendo um cigarro antes disso. Esquerda. Um bar, uma lanchonete, uma padaria, um restaurante, o que for, quero apenas tomar algo, fumar e assistir as pessoas passarem. Eu poderia ir de carro, mas não quero ir rápido, não estou com pressa. Devagar eu ando, lentamente eu chego, sento e peço algo para beber.
As horas passam, o céu vai escurecendo, as pessoas vão indo, outras vindo e eu me canso de não pensar, meu cigarro acabou e o meu limite de café já se foi, pago e saio, não quero ver ninguém, nenhum rosto conhecido, quero ser um desconhecido num grupo de desconhecidos ( ou seria conhecidos? não sei), vou para algum lugar, um outro qualquer, não quero ir para casa, então sento em um banco de uma praça cheio de crianças, pais e responsáveis, carrocinhas de pipoca, sorvete, doces e cachorro quente e muito iluminado. Poderia ter um filho, produção independente, será que posso?... que coisa mais feminina de se dizer, sem prenconceitos, claro, e eu não quero ter filhos! destaco bem o 'não', crianças são, de fato, completamente insuportáveis, e por achar isso, me surpreendi: fiquei por tanto tempo ali observando-as brincando, chorando, fazendo birras e pirraças, caindo e se machucando sem nem saber o porque. Era a falta do que fazer, o tédio.
Saí da praça, voltaria para casa, pro vazio, branco e para a pontada de dor. Caminhei tão lento, tão distraído. Comprei um suco, coisa rara, um outro maço, não que o meu estivesse acabando, era apenas para ter mais um. Tarde, é noite: nove horas e dezenove minutos, e o meu suco vai parar no chão, em mim e em quem esbarrou em mim, uma pena, seria raro eu tomar aquilo de novo. Olhei para o chão, olhei para mim e olhei para o corpo dele, para depois subir para o rosto, por fim, olhei nos olhos dele, bonitos, mas o sorriso era mais, mesmo que sem graça. Tirou uma caneta, uma folha da bolsa que carregava, anotou algo, arrancou um pedaço do papel e me entregou.
- Desculpa por derrubar o suco e te sujar - deu um passo para frente, um tchau com a mão e um sorriso mais relaxado - qualquer dia liga, aparece e eu te pago um suco.
Não entendi, mas respondi:
- Tá, tudo bem.
Deu mais outro tchau e se foi. Olhei para o papel, tinha dois números (um de celular e outro de residência/comércio) e um endereço, estranhei. Que cara mais louco, estranho e esquisito, talvez um solitário, pensei. Guardei o papel, continuei a caminhar lentamente até em casa, tomei um banho, pensei, hesitei... é, me masturbei, li um livro e fiz anotações, fumei pelo resto da noite e começo do dia, um novo dia, eu dormi.
Nenhum comentário:
Postar um comentário