Ele adicionava o produto daquele pote branco dentro da seringa enquanto eu o observava em silêncio e escondido. A malícia em seu rosto como se soubesse de algo e não podia contar.
O cigarro descansava no cinzeiro e diversas garrafas e latas de cervejas vazias e uma de whisky jaziam por toda sala, uma garrafa de alguma outra bebida que eu não consegui identificar estava no chão ao lado das pernas bem torneadas dele.
- Vai ficar aí só observando? Venha até a mim - disse sem nem olhar na direção em que eu me encontrava.
Surgi da escuridão, encaminhei até a sala mais clara pela luz da rua e da lua que estava alta, brilhante e cheia; parei na diagonal dele, encarando-o enquanto um sorriso maldoso adornava seus lábios.
- Então, o que você me conta?
Não respondi.
- Ainda com ele apenas para você ou esta dividindo-o com o outro? - engoli seco, seu tom sarcasmo e irônia me matavam internamente.
Suspirou, riu de leve, balançou a cabeça negativamente, deixou de lado o que tinha em mãos para finalmente me encarar, seus olhos me condenavam ainda mais, sua dor estava estampada ali, mesmo com toda malícia e cinismo que pudesse haver em seu rosto e sua voz.
- O gato comeu a sua língua? Acho que sim, então, você não se importa que eu continue a falar, não é mesmo? Espero que você goste do que irá ouvir - desviou o olhar para seringa e as diversas drogas que estavam em cima da mesa - e ver.
Queria gritar, falar, me mover, qualquer coisa, mas não conseguia nada além de ficar parado observando-o morrer. Voltou-se para seringa.
- Sabe no que eu estou pensando? Por que você não me pára? - o silêncio pesado pairou entre nós dois; ele riu - Ah é, desculpa a arrogância, mas eu esqueci que você não pode mais. Você não pode mais me controlar, não pode mais fazer nada comigo, e sabe por que? Porque você optou por um alguém que vai pra cama com outro que também é comprometido. Vocês estragaram tudo. E agora? Agora sofra como tem de sofrer.
Testou a seringa.
- Vocês três não podem fazer mais nada para salvar a mim e a ele, vocês causaram a nossa destruição. E agora... - riu sarcástico - vai assistir a minha morte.
Penetrou com a agulha a sua veia do braço e apertava vagarosamente a seringa para aquele veneno entrar em seu corpo.
- Veja, meu amor, a morte está entrando em meu corpo, está entrando em meu sangue e se espalhará por todo resto, é só uma questão de tempo, e você não pode fazer nada, a não ser ficar aí observando e... chorando - respirou fundo - e mesmo que me impeça de fazer algo nesse momento, voce sabe que já está feito e não há como voltar no tempo.
Pegou uma das embalagens de comprimido que estava em cima da mesa, metade já estava vazia e foi tirando cada comprimido do que restava ali, um por um até a embalagem ficar vazia. Engoliu todas as pílulas com a ajuda da garrafa de vodka que se encontrava ao lado de seus pés. Estava tão calmo que não parecia bêbado.
As lágrimas quentes rolavam pelo meu rosto, eu não podia suportar a verdade.
- A dor e a culpa conviveram comigo por muito tempo, eu não pude suportar a perda que eu tive da minha família, eu pensei que ao menos o teria, assim eu conviveria pacificamente com as duas até que o tempo me livrasse delas, mas não, não foi assim que aconteceu. Você se distanciou e, além da dor e da culpa se agravarem, a solidão veio me acompanhar. Eu perdi tudo, o que me restou foi o outro tão quebrado e traído e deprimido quanto eu. Como suportaríamos isso tudo?
Pausou. Bebeu. Continuou.
- Éramos tão perfeitos, tão doces... todos nós éramos tão felizes. Para que fomos estragar tudo isso? Veja agora, temos dois mortos e três que viverão para o resto de suas vidas infelizes, deprimidos, solitários e que terão a culpa em sua consciência para toda a vida, isso é, se não aguentarem e fazer o mesmo que nós dois fizemos: providenciar a própria morte.
Outra cartela de comprimidos diferentes do anterior fora usada e se encontrava cheia. Mais um gole na vodka. Um trago no cigarro. Um passo a mais para a morte.
Eu chorava tanto que soluçava alto, ele apenas me olhava com os olhos desprovidos de brilho, sentimento e vida.
- Você viu o resultado do que ta acontecendo agora nesta sala, isso aqui é apenas o que levou àquilo, a resolução - respirou fundo. - Meu amor, é tarde, é muito tarde, esvaneci muito rápido; ele se foi muito antes de mim e eu fui indo atrás dele.
Sua respiração já estava lenta, seus olhos já desprovidos de vida cada vez se fechavam e seu corpo deitava no sofá.
- Eu viverei para sempre em suas lembranças, cada dia de vida seu será uma tortura, não porque eu o amaldiçoo, e sim por causa que a sua própria consciência fará isso. Se dependesse de mim, mesmo nenhum de vocês merecendo, vocês seriam todos felizes - e sorriu sereno.
Seus olhos tão doces e seus lábios num sorriso tão tranquilos e serenos e seu rosto numa expressão completa de sofrimento.
Uma foto jogada de cabeça para baixo em cima da mesa foi pega com muito esforço, sua expressão se intensificou... Lágrimas escorreram por seus olhos.
- NÃO! - gritei.
E o último suspiro de vida, deu.
O cigarro descansava no cinzeiro e diversas garrafas e latas de cervejas vazias e uma de whisky jaziam por toda sala, uma garrafa de alguma outra bebida que eu não consegui identificar estava no chão ao lado das pernas bem torneadas dele.
- Vai ficar aí só observando? Venha até a mim - disse sem nem olhar na direção em que eu me encontrava.
Surgi da escuridão, encaminhei até a sala mais clara pela luz da rua e da lua que estava alta, brilhante e cheia; parei na diagonal dele, encarando-o enquanto um sorriso maldoso adornava seus lábios.
- Então, o que você me conta?
Não respondi.
- Ainda com ele apenas para você ou esta dividindo-o com o outro? - engoli seco, seu tom sarcasmo e irônia me matavam internamente.
Suspirou, riu de leve, balançou a cabeça negativamente, deixou de lado o que tinha em mãos para finalmente me encarar, seus olhos me condenavam ainda mais, sua dor estava estampada ali, mesmo com toda malícia e cinismo que pudesse haver em seu rosto e sua voz.
- O gato comeu a sua língua? Acho que sim, então, você não se importa que eu continue a falar, não é mesmo? Espero que você goste do que irá ouvir - desviou o olhar para seringa e as diversas drogas que estavam em cima da mesa - e ver.
Queria gritar, falar, me mover, qualquer coisa, mas não conseguia nada além de ficar parado observando-o morrer. Voltou-se para seringa.
- Sabe no que eu estou pensando? Por que você não me pára? - o silêncio pesado pairou entre nós dois; ele riu - Ah é, desculpa a arrogância, mas eu esqueci que você não pode mais. Você não pode mais me controlar, não pode mais fazer nada comigo, e sabe por que? Porque você optou por um alguém que vai pra cama com outro que também é comprometido. Vocês estragaram tudo. E agora? Agora sofra como tem de sofrer.
Testou a seringa.
- Vocês três não podem fazer mais nada para salvar a mim e a ele, vocês causaram a nossa destruição. E agora... - riu sarcástico - vai assistir a minha morte.
Penetrou com a agulha a sua veia do braço e apertava vagarosamente a seringa para aquele veneno entrar em seu corpo.
- Veja, meu amor, a morte está entrando em meu corpo, está entrando em meu sangue e se espalhará por todo resto, é só uma questão de tempo, e você não pode fazer nada, a não ser ficar aí observando e... chorando - respirou fundo - e mesmo que me impeça de fazer algo nesse momento, voce sabe que já está feito e não há como voltar no tempo.
Pegou uma das embalagens de comprimido que estava em cima da mesa, metade já estava vazia e foi tirando cada comprimido do que restava ali, um por um até a embalagem ficar vazia. Engoliu todas as pílulas com a ajuda da garrafa de vodka que se encontrava ao lado de seus pés. Estava tão calmo que não parecia bêbado.
As lágrimas quentes rolavam pelo meu rosto, eu não podia suportar a verdade.
- A dor e a culpa conviveram comigo por muito tempo, eu não pude suportar a perda que eu tive da minha família, eu pensei que ao menos o teria, assim eu conviveria pacificamente com as duas até que o tempo me livrasse delas, mas não, não foi assim que aconteceu. Você se distanciou e, além da dor e da culpa se agravarem, a solidão veio me acompanhar. Eu perdi tudo, o que me restou foi o outro tão quebrado e traído e deprimido quanto eu. Como suportaríamos isso tudo?
Pausou. Bebeu. Continuou.
- Éramos tão perfeitos, tão doces... todos nós éramos tão felizes. Para que fomos estragar tudo isso? Veja agora, temos dois mortos e três que viverão para o resto de suas vidas infelizes, deprimidos, solitários e que terão a culpa em sua consciência para toda a vida, isso é, se não aguentarem e fazer o mesmo que nós dois fizemos: providenciar a própria morte.
Outra cartela de comprimidos diferentes do anterior fora usada e se encontrava cheia. Mais um gole na vodka. Um trago no cigarro. Um passo a mais para a morte.
Eu chorava tanto que soluçava alto, ele apenas me olhava com os olhos desprovidos de brilho, sentimento e vida.
- Você viu o resultado do que ta acontecendo agora nesta sala, isso aqui é apenas o que levou àquilo, a resolução - respirou fundo. - Meu amor, é tarde, é muito tarde, esvaneci muito rápido; ele se foi muito antes de mim e eu fui indo atrás dele.
Sua respiração já estava lenta, seus olhos já desprovidos de vida cada vez se fechavam e seu corpo deitava no sofá.
- Eu viverei para sempre em suas lembranças, cada dia de vida seu será uma tortura, não porque eu o amaldiçoo, e sim por causa que a sua própria consciência fará isso. Se dependesse de mim, mesmo nenhum de vocês merecendo, vocês seriam todos felizes - e sorriu sereno.
Seus olhos tão doces e seus lábios num sorriso tão tranquilos e serenos e seu rosto numa expressão completa de sofrimento.
Uma foto jogada de cabeça para baixo em cima da mesa foi pega com muito esforço, sua expressão se intensificou... Lágrimas escorreram por seus olhos.
- NÃO! - gritei.
E o último suspiro de vida, deu.