Essa casa agora está mais destruída, porém antes era pequena e agora está maior, aquele que dormia no sofá, ocupou a sala, o quarto e todo o resto, com seu cheiro, sua essência. Você se foi, ele ficou. Ainda sinto uma saudade gostosa sua, queria que você entrasse pela porta e me enchesse com a sua paz, com o seu carinho, com a sua luz e sensualidade, queria que você pudesse espantar o homem do sofá que me assombra, mas que me faz suspirar pelos cantos. O homem do sofá... que doce! Aquele dia em que você saiu de minha cama e me deixou sozinho, ele já estava aqui dentro, do sofá ocupou a cama e, na cama, o corpo inteiro e, quando eu percebi, estava em todos os cômodos, sua essência chegou em minha alma e arrancou meu coração fora, levou todos os móveis bons, deixou os velhos e quebrados. E eu fiquei a espera-lo, fiquei a te esperar com teu riso. Agora, luto contra essa invasão que ele me deixou, tento apaga-lo de dentro de mim e reacendo a sua memória nesse sofrimento que ele me trouxe, te procuro por aí, em outros corpos, em outros braços, em outros beijos, mas no olhar e no coração é apenas o homem do sofá. Procuro ainda mais por ele. Querido, por que você quando entrou por aquela porta e invadiu apenas a cama, e não a casa, o olhar e alma? Te queria em minha essência, te tenho em minhas memórias, mas não completamente em meu peito. Onde está você agora? Nos braços de outra pessoa, assim como o homem que deixou tudo ainda mais bagunçado, mais quebrado. Olho para o mesmo espelho partido, acho que é a representação de mim: sou um homem de alma ferida e o coração mil vezes partido. Acho que esta é a minha natureza: ferir e ser ferido. Mas quer saber? Agora que a casa está abandonada, as lágrimas já secaram e eu estou aqui, sentado na sala e no meio de toda essa bagunça, de toda essa quebradeira, com o espelho na mão, as janelas continuam abertas para o vento e a vida entrarem. Nunca estive tão bem comigo e genuinamente feliz no meio de tanta dor.
Sorrio.
Sorrio.
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