sábado, 5 de julho de 2014

Espelho, espelho eu

Pôs-se nua diante do espelho, indiferente àquele corpo que refletia a sua imagem, observou detalhes e nuances em seu corpo que apenas ela conhecia. Descia o olhar lentamente depois de examinar minuciosamente cada lugar, não queria perder um detalhe sequer. Finalmente, chegou a seu sexo. Observou bem, e se perguntou mentalmente: era seu sexo, a sua genitália que a fazia mulher? definitivamente, não, sua identidade como mulher não se encontrava ali, era apenas um detalhe, sua alma, seu gênero, sua essência, concentravam-se em seu estômago, ali era formado o seu ser, sempre que qualquer coisa que lhe acontecia, era o seu estômago o primeiro a sentir, seu estômago era como se avisasse se ela estava bem ou mal, psicologicamente; era ali que seus sentimentos ficavam guardados. Dizem os mais espirituais que todos temos chacras e o do estômago é o vital. Não era hora de pensar em espiritualidade, porém queria saber, encontrar a parte do seu corpo que a fazia ser quem era. A resposta poderia ser o estômago, mas ainda não a satisfazia, sentia que era muito maior que aquela carne e ossos e órgãos que a compunham, sentia que a sua alma ficava além do seu chacra vital do seu órgão digestivo. O que a fazia mulher? O que a fazia ser quem e como era? não encontrava sua identidade e gênero em parte alguma do corpo, era a alma. Poderia dizer que era mulher, pois assim se sentia, poderia dizer que era S., pois este era o seu nome, mas não era o seu nome que a definia ou a caracterizava, não era o seu nome que dizia quem S. era. Quem era? Seu corpo era seu? Ela pertencia a si mesma? Não sabia dizer, porém tinha a sua alma, era única certeza que tinha e que aquilo pertencia somente a si. Será que tudo o que vivia era apenas uma ilusão de si mesma? Não conseguia se identificar no espelho, não gostava do que via, por mais que aos olhos de outros parecia agradar a visão daquele corpo, daquele rosto, e o que fazia não gostar, não era a carne, mas a essência, o que, naturalmente, para ela, deixava a carne feia. Queria ver-se inteiramente no espelho, porém era só o corpo que via, queria ir adiante, muito além disso, ultrapassar a linha do corpo e da alma, queria en(con)trar em sua própria imensidão, no seu infinito particular, mas não sabia dizer onde encontrava tudo isso, ficava frustrada em ter que achar apenas o estômago para o seu ser. De tanto se observar e nada encontrar, chegou a conclusão que pudesse ser vazia, logo, a razão para toda a melancolia que sempre guardou dentro de si. Não podia Ser, caso fosse vazia. Nem sentir. Ela não era o seu corpo, seu corpo era oco, vazio, não podia achar-se nele, ela não era ninguém, então. A palavra 'vazia' repetia-se em sua mente. Abraçou ao próprio corpo tentando sentir a si mesma e se consolar por ser um nada. Os seios se juntaram, dando a impressão  de que eram mais volumosos, porém não, eles eram pequenos com os mamilos rosados, talvez gostasse dos seus seios, lhe pareciam sensuais, perfeitos para qualquer homem ou mulher num ato libidinoso. Acariciou-os, mediu-os com as mãos e isso fez-se perceber seu coração, outro lugar ao qual os sentimentos, a alma, a identidade estavam, era como se primeiro o estômago falasse e o coração em seguida respondia com um aperto dolorido e batidas mais fortes que faziam o sangue percorrer por todo o corpo, subir ao rosto e deixa-la mais enrubescida nas feições, isso poderia atingir ao pulmão, dependendo qual fosse a emoção, poderia deixa-la sem ar ou fazê-la ofegante. Aproximou o rosto do espelho, examinou mais uma vez, o que era dela, o que era dos pais dela? os olhos da mãe e a boca do pai, o formato do rosto era parecido com o da avó, seria o rosto dela, um rosto próprio? o que era apenas seu naquele rosto? Era seu o que a diferenciava de sua mãe, de seu pai ou avós, ela era a mistura de todos eles, portanto, era e não era seu, caso tenha filhos de seu próprio ventre, seus filhos terão as características de toda sua família, mais as do pai, logo, isso o diferenciará dela e do pai, então, seu filho será diferente de todos, assim como ela era diferente de sua família por mais semelhanças que houvessem. Características podem não ser próprias, mas numa mistura,  se tornam únicas. Afastou-se do espelho, voltando ao anterior, observando o inteiro, mas o que era o inteiro? já que não podia observar o seu verdadeiro ser. Para os outros, o seu corpo era o verdadeiro ser, para ela, não, mas também não sabia o que era o verdadeiro eu, pois não o achava em lugar algum. Estômago, coração, sangue, pulmão, formavam seu corpo, sentiam as suas sensações, mas isso poderia ser outro humano, outro humano também podia sentir as mesmas coisas que sentia, talvez de maneira própria, seu corpo não era a resposta para suas perguntas: quem e o que era, o que fazia ela ser ela, por que sentia-se ou era mulher. Pensou que deveria se amar, talvez fosse esse o problema: falta de amor ao próprio corpo, ao próprio ser, à própria alma. Egocentrismo tinha algo haver com amor próprio? Não sabia, mas aquilo a fez sorrir e até admirar um pouco do que via.  Escutou um barulho do lado de fora do quarto, o que tirou a sua atenção do corpo e do espelho, eram os seus pais chegando de algum lugar qualquer. Respirou fundo. Olhou a janela e foi até ela, contemplou a paisagem, viu o céu escuro com os seus diamantes brilhantes e pensou que se fosse o céu, seria inteira e infinita. Seu nome fora chamado no lado de fora. Suspirou. Pôs o roupão e foi ver o que queriam.   

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