A jovem abriu os olhos e a primeira coisa que encontrou foram os dele, que pareciam tão sonolentos quanto os dela deviam estar. A janela ao fundo fazendo que a luz entrasse, os olhos marrons e sonolentos e o esboço de um sorriso de bom dia formou um cenário perfeito à vista daquela mulher, poderia tirar uma foto e observá-la todos os dias por tamanha sutileza, delicadeza e doçura que era o conjunto. Nunca pensou que azul, verde e marrom + luz pudesse ser tão harmonioso como aquilo. Aconchegou-se nos braços dele e o coração se aqueceu ainda mais. Jamais haveria uma manhã tão doce quanto àquela, mas não podia negar que por trás de toda sutileza do momento, havia a excitação e o desejo ardente de possuí-lo, a cena (ou o homem) era extramente sensual. O homem dos olhos marcantes, pensou, esse era o nome da obra de arte que tinha ao seu lado. Talvez estivesse com um sorriso sonolento, podia sentir a felicidade dentro de si queimando, por mais que quisesse negar. Ganhou um cheiro no pescoço e como ela gostava desses cheiros e beijos, melhor que isso era quando a mão dele passeava pelo o seu corpo, mãos que a seguravam com firmeza, serpenteavam por ela com força, com desejo. Como ela amava as mãos dele no corpo dela! Ele tentou levantar, ela o trouxe de volta, não deixaria sair dali sem um beijo sequer. Aconchegaram-se um nos braços do outro, entre carinhos e abraços, saiu um beijo e do beijo, ah, o beijo que era sempre uma explosão: quando começava, terminava em sexo, era fato e, como todo fato, aconteceu. Explosivo. Agressivo. Excitante. Violento. Era Marte, era Áries em guerra, só não era guerra o que faziam. Ofegante. Veio, então, a erupção do momento e o ponto final daquela manhã. Descansavam, porém, não foi por muito tempo, ele sentou-se no colchão, sorriu para ela e disse baixo:
- Vou tomar banho, tudo bem?
Ela só sorriu de volta e fez um 'sim' com a cabeça, sendo assim, o homem levantou-se, pegou as roupas no chão e saiu do quarto. A mulher fechou os olhos, levou a mão nos cabelos e suspirou pesado. Oh, por deuses, por que tinha que se sentir daquela maneira? Sua vontade era de fazer seu coração um cofre, colocá-lo lá dentro e guarda-lo apenas para si. Melhor, queria ser o coração dele, assim, não sofreria com o desejo, nem com o que sentia, seria parte dele, os sentimentos dele... Engoliu seco, interrompeu seus pensamentos, não podia, nem queria pensar daquela forma. Era amor? Preferia pensar que não, é difícil amar quando não se pode amar, quando nunca soube o que é o amor, quando escolhe caminhos que a vida te impede disso. Racionalize as emoções, era esse o seu lema. Depois da felicidade, a dor que ardia por dentro era bem maior, mas não se deixava levar por isso. Queria que um buraco negro a sugasse, toda aquela confusão a deixava maluca. A porta bateu. No segundo seguinte, ele entrou com a calça social preta e a blusa social branca completamente aberta, os cabelos molhados e a toalha no pescoço: deslumbrante, irresistível. Poderia devorá-lo ali mesmo, em pé, mas sabia que a hora da partida se aproximava, ficou apenas encarando-o deitada e ele, que não tirava aquele sorriso doce dos lábios, se aproximou e sentou na cama e tirou do bolso a carteira, e da carteira, o dinheiro. Contou e entregou nas mãos dela.
- Vê se está certo - contou o dinheiro uma, duas vezes, ponderou, e tirou a metade do que tinha ali e devolveu - Metade?
- Uma fica por conta da casa - sorriu e pôs o dinheiro na mesinha ao lado da cama.
O homem levantou-se, deixou a toalha pendurada num cabideiro, fechou a blusa, ajeitou a calça, foi até a porta e preparou-se para sair do quarto, olhou para a mulher deitada e disse:
- Te ligo essa semana, sim?
Ela acenou com a cabeça, ele sorriu e saiu porta a fora, não demorou mais que três minutos e ela escutou o som da porta de entrada do apartamento. Respirou pesarosa e aliviada. Levantou-se e foi até a janela pelada, olhou o céu: azul vivo, azul claro, azul bonito, poucas nuvens, mas o vento que batia era frio, assim como seu coração parecia estar, como ela gostaria que estivesse.
"Mr. Oiseau saiu do meu ninho e voou direto para onde seu coração se encontra. O coração de Mr. Oiseau não se encontra aqui"
Voltou-se para o quarto, olhou o cômodo e pensou no que faria agora, já que estava com o dia livre, olhou para o dinheiro ao lado da cama e mordeu o lábio de leve pensando o que faria com aquilo, não podia ficar com o dinheiro, definitivamente, não. Vestiu-se, pegou a bolsa e o dinheiro, saiu do apartamento e procurou por qualquer coisa onde pudesse deixar o que não te pertencia, ou até pertencia, porém não deveria. Rodou por aí, despreocupadamente, não precisava de relógio, não tinha pressa e era um dia bonito para estar fora de casa. Parou, comeu alguma coisa, tomou um sorvete e voltou a andar, passou por uma praça, viu um homem deitado, dormindo no banco e resolveu aproximar-se. Olhou, examinou e achou o lugar perfeito para deixar o dinheiro. Abriu suavemente o casaco que o homem usava e deixou o dinheiro lá dentro. Estava satisfeita, sorriu para o homem que acordava e foi embora. Fez o certo, estava satisfeita e já podia voltar para casa. O caminho de volta foi tão lento quanto o de ida, estava anoitecendo. Passou num mercadinho. Estava muito feliz.
"Hoje à noite terá Yakissoba para o jantar."
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