quinta-feira, 21 de junho de 2012

Let it go



Aquela música tocava dentro da casa onde meu nome tinha sido chamado. Ah, aquela música que trazia boas lembranças, machucava o coração e fazia chorar. Eu não tinha nascido ali, meu sotaque não era igual de todas aquelas pessoas a minha volta, mas eu me sentia em casa.

Entrei naquela casa, aquele cheiro de comida vindo da cozinha, mas não era só isso, era o cheiro da casa e das lembranças vividas nela, das pessoas dali: confortante, meu cheiro estava misturado no meio de tudo aquilo, eu morava ali.

Móveis, paredes... passei lentamente entre eles, tocando e sentindo até chegar ao corredor estreito e escuro, sendo clareado apenas por luzes de outros cômodos, andei arrastando as mãos nas paredes frias e adentrei na cozinha sendo recebido pelo sorriso mais doce, mais brilhante de todos.

Ela veio em minha direção e me abraçou de forma quente, da forma que só ela sabia fazer, me abraçou da forma mais doce possível e todo aquele vazio e solidão se foram, aquele quente se apossou do meu peito novamente.
"Você está tão magro e pálido, precisa comer mais, não acha? Vou cuidar direitinho de você de novo.Lembra dessa música? Eu sei que você adora. " - riu. 

E eu apenas sorri de volta, as lágrimas quase escorrendo por toda aquela calorosa recepção, por todo aquele amor, por tudo aquilo estar acontecendo de novo.



Abriu os olhos e sentou-se assustado olhando em volta procurando a saber onde é que estava: estava em casa, no seu quarto e suspirou com um pesar, saiu da cama indo direto para o banheiro lavar o rosto e voltou para o quarto sentando-se na beirada da cama.

A tristeza invadiu o peito, ou será que já estava ali?

Encarou-se no espelho que tinha de frente a cama: pálido, magro demais e... vazio. Por que era tão sem graça? Tão sem atrativos, um alguém que se morresse não faria falta no mundo, quem iria se interessar por alguém tão quieto, chato e desinteressante?

O aperto no peito aumentou junto do nó na garganta, por que havia sonhado com aquilo, com ela? Se ela estivesse ali, tudo seria diferente, tudo teria sido diferente e talvez não fosse essa pessoa tão cinza que era, tão apagada.

Ah, aquela música! Nem gostava mais daquele estilo de música, os anos haviam se passado e ele era uma pessoa totalmente diferente; correu para o computador, assim que ligou, acessou algum site que desse para ouvir música e pôs o nome daquela música e assim que carregou, colocou o fone e escutou aquela música que fazia anos que não escutava.

Enquanto a música tocava, as lembranças vinham e colocavam um sorriso em seu rosto, hora ou outra cantava o que ainda sabia da letra.

Sentiu-se completo e aquecido por um momento, fora levado por lembranças repletas de inocência e alegrias. Há quanto tempo não sabia o que era ser preenchido? Havia se tornado algo completamente vazio, não conseguia sentir-se preenchido, alguma coisa faltava. O quê?

A música havia terminado e então deu replay, precisava daquilo de novo, havia se esquecido como era bom sentir-se preenchido.

Estrelas ainda brilhavam no céu, escura e sem lua, algumas poucas nuvens e um silêncio confortante, sem aqueles barulhos de quando o sol está brilhante no céu e foi em uma noite dessas que ele havia se deixado em algum lugar e não sabia mais onde achar, era repleto de vazio.

Saiu de frente do computador e foi para janela observar a cidade que ainda dormia. Por que era tudo tão complicado? Por que tinha que complicar tanto as coisas? Poderia ser mais engraçado, mais divertido, mais interessante e até mais bonito, mas por mais que se esforçasse nada parecia adiantar.

Queria ver, tocar e sentir aquela mulher de novo, queria que as suas lágrimas fossem limpas novamente, queria sentir sua presença mesmo dormindo, mas nada disso aconteceria, tudo já tinha sido desfeito com tempo,  o sorriso dela já tinha se esvaído.

Pediu as estrelas, à lua escondida e a qualquer outra coisa que viesse em sua cabeça, pedia com força para que aquele sorriso nunca se apagasse e como num piscar de olhos, sentiu aquele outro corpo enlaçar o seu por trás, ficou tenso por momentos até tomar a coragem de olhar para trás e encarar aquele sorriso fraco nos lábios dela, virou-se completamente para ela e a deixou leva-lo para onde quer que fosse.

O colocou na cama e os dois se encaravam sem trocar uma palavra, ele deitado e ela em pé ao lado da cama. Ela o mataria e levaria sua alma consigo? Antes que dormisse, antes que morresse, antes que aquele sonho lúcido acabasse, ela disse:

"Onde é que nós estamos agora?"





2 comentários:

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  2. Entrar em um lugar que já foi sua rotina é sempre intenso. Passar as mãos nas paredes, reconhecer as rachaduras, as manchas de cigarro no sofá. Olhar as fotografias e lembrar dos rostos que estavam perdidos nas lembranças. Aquele cheiro único de cerveja, cigarro e incenso. O lugar onde o sol bate de manhã e mostra toda poeira. Tudo desce pela garganta arranhando, chega como eco no peito,sopro frio e ardido como se colocassem um drops de halls preta dentro do coração e jogassem água gelada em seguida. É sempre complicado voltar lá, mas sair é muito mais difícil.

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