sexta-feira, 23 de março de 2012

Buried Myself Alive

A carta havia chegado, a jovem correu em direção a caixa de correio querendo te-la logo em mãos. Entrou dentro de casa, e entre tantas correspondências, achou a que queria, cheirou antes de abri-la e levou próximo ao coração disparado.

Não sabia se ria ou se chorava, era incerto aquele sentimento, tinha medo de abrir aquele pequeno envelope e ver palavras que machucassem, mas queria ver palavras que a confortassem também. Sentia alívio, sabia que a mensagem havia chegado e que havia sido correspondida.

Sentou à mesa e leu a carta atentamente, leu e releu, o coração acelerava cada vez mais e mais aquele aperto incomodava, aquela sensação de nervosismo, estava inquieta.

Pegou o papel e a caneta pronta para corresponder, mas o que diria? por onde começava? não sabia, estava perdida em seus pensamentos, era tanta coisa para falar, tanta coisa para demonstrar que não sabia nem mais qual era o começo ou o fim daquilo, ela havia começado com aquilo e iria até o fim, era necessário para ambos.

Rodopiou a casa, fez tantas outras coisas antes de começar aquela carta, só por não saber começa-la, onde era o começo? onde era o fim? ah, teria de começar algum dia, e seria naquela hora, estava de pé, parada em frente a porta do cômodo em que o papel em branco e a caneta estavam, respirou fundo antes de entrar naquele quarto, e sentou-se à mesa, olhou o papel e pensou, pegou na caneta e começou:

"Minha querida amiga,
Quero que saiba que fiquei muito feliz em saber que me correspondeu e que fiquei ansiosa a sua espera. Por onde eu começo? Eu não sei, mas eu quero saber, mas se começarmos juntos saberemos. Para ser sincera, eu não tenho palavras, pois eu não esperava isso, eu esperava que fosse querer me matar, que me enviasse ódio e tudo que eu li foi a nossa dor, o nosso amor.

Suas palavras teriam me feito chorar, se eu conseguisse, a sensação é de aperto no coração, mas as lágrimas não me vem mais, seria isso uma anestesia? não sei, mas me sinto feliz por isso, por essa nossa correspondência.

Talvez nessa história toda, acho que foi o que mais me compreendeu, o que mais via quem eu era, mesmo debaixo de tanta indiferença, mesmo no esconderijo que eu me escondia. Ah! talvez isso tenha me matado, um dia todos perdem a paciência até mesmo os mais santos.

Se soubesse tudo que eu pensei, em todas as nossas conversas imaginárias, de fato, iria rir, ou não, são tantas coisas a serem ditas, foram muitas as coisas que eu não disse? sim, e eu quero dizer, eu preciso te dizer, e é por isso que eu comecei com isso, e olha que coisa mais poética, a forma que começamos, a forma que eu achei para chegar a você, mas são tantas coisas para serem ditas que não falarei disso agora.

Oh! Eu sei tanto do seu amor, eu o senti e simplesmente pisei nele, te esfaqueei da pior maneira que podia fazer, como eu iria te contar? e olha que foram muitas vezes que eu quis, que eu tentei, mas nunca tive realmente coragem, foram tantas as vezes que eu te escrevi, mas em seguida rasguei e queimei, apaguei só para que você não soubesse. Se eu tivesse te contado, como seria? teria sido pior? eu não sei, mas acho que teria sido algo com mais caráter de minha parte, a dor teria sido a mesma.

Por que eu não deixei que você me guiasse? Eu era livre, eu queria me sentir dessa maneira, mas eu tinha medo da forma que você julgava, eu tinha medo de você me castigar, eu não queria a sua reprovação, mas era dela que eu precisava e era ela que eu não quis escutar, dava as costas e ia para o meu mundo ilusório só para sofrer depois com a realidade e dar as costas para ela muitas e muitas vezes que eu julgasse necessário.

Na verdade, acho que mesmo agora eu não faça ideia do quanto você me amou, mas eu sempre soube que amou e teve paciência, foi um verdadeiro anjo, um papel de mãe que não era seu. A liberdade é cruel demais se você não souber usa-la, as coisas perdem o controle e a gente acaba não vendo isso e erra, se perde no meio dela, e não conseguimos saber onde foi que tudo isso começou, mesmo as coisas estando erradas, elas se seguiram até tudo explodir e ir para os ares, igual a uma bomba, à nossa paciência quando termina ou a nossa raiva quando ela não pode ser mais controlada. Eu não duvido do seu amor, e nunce duvidarei, e espero que saiba que eu também te amei, e ainda que te amo e que sinto a sua falta, todos nós erramos, fomos para o lado errado, pois já estávamos nele e não tinha mais saída.

Já senti ciúmes, já quis te por em um lugar onde ninguém pudesse te tirar e te alcançar, um lugar só meu, já chorei por achar isso ou aquilo, eu queria tê-la para mim quando nem eu mesma não me tinha e eu não poderia arcar com isso, queria te matar de amor por não poder ser minha, por ser de outros também, mas não o faria, da mesma liberdade que eu tanto amava, eu deveria da-la a você para escolher o que quisesse e quem quisesse. Eu tentei te proteger da dor, tentei te manter longe de tudo e te disse para ir e ter outros, mas não adiantou, aquilo voltava para você e vice-versa, e talvez a interpretação de tudo aquilo que te falei foi completamente errada após a descoberta, mas eu só queria que você não sofresse mais, que esquecesse, pois você não merecia, nem eu merecia você. Quanta falta de caráter a minha! mas eu quis, juro que quis te manter protegida, provável até de mim mesma.

A verdade é que eu me esqueci de quem eu era e me tornei algo que um dia havia dito nunca me tornar, fiz coisas que uma vez prometi nunca fazer e me perdi então. Sexo, drogas e álcool? e cadê o amor? cadê a pureza? onde estavam? eu não sabia, mas eu voltei a saborear a essas coisas que já havia esquecido, poderia me sentir uma criança de novo, mas a infância já havia ido embora, como suportar tudo isso?

Nunca sequer os escutei rumores sobre mim, a única coisa que sabia era que eu era o monstro do século, que só de ver a minha sombra era algo o suficiente para te fazer vomitar, mas que você suportava a presença dele e que eu era imperdoável, mas eu não sabia se era verdade, eu tinha tantas dúvidas, eram tantas coisas que para mim não faziam sentido, ou que façam, mas era só você para poder me explicar. Todas essas coisas me fizeram ficar mais distante ainda de falar com você, de saber se era realmente verdade ou não , eu não queria me sentir ferida.

Durante todo esse tempo foram tantas poucas coisas que me aconteceram, mas o suficiente para me fazerem ver a verdade, ir à busca disso, que me fizeram ter coragem de arranjar um meio de chegar a você.

Meu silêncio foi a minha covardia de não encarar os fatos, e talvez, por pensar que eles já estavam resolvidos por outros. Como pude deixar os outros falarem quando eu que tinha que falar? como eu pude deixar as pessoas falarem dos meus sentimentos, quando era eu quem sentia? Só eu sabia da verdade escondida em mim, e não me permiti dizer, e agradeço que tenha me deixado falar mesmo apesar do tempo passado, tempo perdido.

Que pessoa tola eu sou!

Quero que saiba quem eu sou, e eu sou essa pessoa que eu estou te descrevendo, sou esses sentimentos que te disse, ainda me parece tudo um tanto confuso, mas me achei em algum lugar dessa confusão toda. Nunca me senti tão em mim quanto eu me sinto agora, eu me sinto mais eu.
Chega ser estranho dizer isso.

Depois de tudo isso, quando veio a calmaria, eu pude perceber pessoas que nunca me deixaram, que nunca deixaram de falar comigo, nem mesmo quando eu as tratava mal, quando eu as ignorava e elas continuaram a falar comigo, enquanto àqueles que eu sempre dei valor, fizeram experimentar do mesmo veneno, é ironia demais, mas eu pude descobrir o quanto essas pessoas que eu não dei atenção são legais, por mais incompreensíveis que sejam para mim. Eu era cruel demais, eu mereci o que eu tive, todo o castigo foi uma coisa boa e o meu maior medo é voltar ao mundo, as pessoas que me faziam mal, eu não voltarei para isso, eu construí um muro bem alto em minha volta, alto até demais, rígido nada passava sem eu permitir, mas eram livres para sair. Castidade. Um certo dia eu experimentei daquilo de novo, só uma dose, e eu me arrependi e vi que eu não mudei numa questão que eu preciso mudar, aprender a ganhar não, aprender a dizer não.


Tem sentimentos que a gente sente e que ninguém pode explicar, coisas que a gente acha que ninguém pode, não era mútuo, porque eu tinha medo de você, mas quando estava passando a ser, tudo se foi.

'Now I'm sitting alone, I'm looking for help, left me here on my own, I'm gonna hurt myself, maybe losing my mind, I'm still wondering why, had to let the world let it bleed me dry'

Sinto a sua falta, quero te ver e quero te dizer o que eu não disse aqui, te deixar claro tantas coisas que eu esqueci, pois são tantas... e tem o sono que está querendo me levar.

Iremos nos encontrar, num dia só nosso, ninguém precisa saber, ou podemos gritar ao mundo, e a partir daí que a gente vê toda a verdade diante da gente.

Eu me tornei uma pessoa que assiste filmes o tempo todo e tenta deixar tudo menos confuso só para achar a si mesma cada vez mais e mais."

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