Deitada numa cama, jogada. Os braços esticados, a coberta indo até abaixo de seus seios, sua expressão de desespero e suas lágrimas de dor.
O tempo nem de longe era bom, estava sol e o mesmo trazia lembranças dolorosas, lembrança de que ainda vivia.
Queria gritar, queria sair correndo dali, mas não podia, a dor que sentia era quente, viva e real, não aguentava mais sofrer e só queria que tudo acabasse logo.
O rosto banhado em lágrimas, o queixo tremendo de tanto chorar e o corpo imóvel na cama.
Escutou passos do lado de fora, fechou os olhos com força, rezando e pedindo para qualquer deus que fosse e existisse que aquela hora não fosse a maldita a hora, só de pensar tinha mais vontade de fugir, mas a dor atrapalhava.
Lágrimas mesclando-se com o suor, o desespero a fazia entrar em pânico, subiu a parte de cima do tronco com muita dificuldade, seu corpo tremia.
Tudo estava embaçado, algumas lágrimas grossas ainda escapavam de seus olhos. Estava apoiada com os cotovelos na cama olhando para o quarto; sabia que não conseguiria, que não tinha forças para levantar e sair dali, mas queria tentar.
Minutos se passaram e nada de sair do lugar, parecia impossível, seu corpo não obedecia aos seus comandos. Entrou em desespero, nem seu próprio corpo obedecia às suas vontades, nada estava de acordo, tudo havia se perdido. As lágrimas que haviam cessado há pouco tempo, voltaram.
De súbito, a porta se abriu com brusquidão, ela olhou em direção da mesma assustada e todas aquelas pessoas foram até ela e a deitaram na cama, a mulher começou a entrar em pânico, aquele monte de pessoas a seguravam e ela começou a se debater.
Ela olhou para a seringa, e os médicos e enfermeiros a seguraram mais forte, enquanto outro vinha lhe aplicar mais um remédio.
Um grito escapou de seus lábios, assim que aplicaram a injeção, deixaram a moça em paz, enquanto sua mãe a olhava dolorosamente, chorando junto da garota.
Sua mãe chegou perto, alisou o rosto da filha que apenas moveu seus olhos em sua direção e sorriu para garota. Aproximou-se e deu um beijo em sua testa; o rosto aflito e um sorriso apaziguador em seus lábios, os riachos salgados em seus olhos, queria que todo aquele sofrimento terminasse, assim como sua filha.
- Tudo vai terminar logo, logo, tudo bem, meu amor?
Não houve resposta, como era o esperado. Há quanto tempo não conversava com a filha? Há quanto tempo não escutava dizer nada? Eram só gritos de dor e choros.
E não demorou muito para que a garota pegasse no sono, e a sua mãe ficou ali, junto dela até que dormisse.
As mãos geladas da menina, fez pensamentos sombrios e dolorosos passassem pela mente da mulher mais velha do quarto. O aperto no peito e o nó na garganta fez com que a mulher derramasse mais lágrimas, e preferindo não atrapalhar a sua filha, deu outro beijo em seu rosto e saiu do quarto.
O silêncio reinou no quarto, e a garota mergulhou no sono tão profundo quanto a morte.
Noites e dias passaram e ela continuou dormindo. Outras injeções vieram, outras doses de remédio, ela não viu nada, não sentiu dor, estava tudo tão bem no mundo dos sonhos onde não havia dor e sofrimento.
Era 14h15 da tarde depois de quinze dias dormindo, a moça abriu os olhos e a tragédia logo caiu sobre ela novamente, a dor estava ali, nada mudara e não demorou para que as lágrimas caíssem de seus olhos novamente.
O relógio analógico na parade branca a frente era hipnotizante e enlouquecedor, fugir dali daquele quarto quase escuro seria uma dádiva , ver a luz do sol novamente era apenas um sonho distante.
Tudo estava tão calmo, ela olhou em direção à porta e não escutava nada, só o relógio fazia barulho naquele lugar. Ergueu o tronco, já parara de chorar, e olhou para a imensidão do quarto. Como era grande, branco e imundo.
Tentara se mover na cama e com muito esforço conseguira ficar sentada na beira da cama. Há quanto tempo não sentia o chão gelado nos pés? Sorriu e chorou ao mesmo tempo. Fez força para tentar ficar de pé, mas os braços fraquejaram, seu corpo inteiro doía descomunalmente, mas não impedira dela tentar ficar de pé novamente.
Conseguiu.
Vagarosamente ia para janela, coisa que demoraria segundos, demorou quase horas. Em seu caminho encontrou um espelho e chocou com a sua aparência pálida, magra e doentia, os cabelos cheios, sujos e completamente embaraçados, as olheiras marcantes e os lábios secos e machucados, parecia com um fantasma assombrado com aquela roupa branca de hospital. Tocou no espelho com pena de si mesma, queria fugir dali.
Continuou o caminho até a janela e o coração acelerou quando chegou de frente; destrancou a mesma e viu a luz do sol que machucou a vista e a forçou fechar os olhos no mesmo instante. Demorou, mas se acostumou com a luz, se apoiou no parapeito da janela e observou o dia fluindo e vivo, parecia até um sonho o campo aberto junto das árvores e algumas pessoas ali correndo, brincando, sentadas e entre outras formas.
Permitiu-se rir, era tão lindo e tão emocionante que não tinha como não sentir aquela sensação quente no peito, pôs os cabelos que caiam sobre seus olhos para trás. Olhou a altura da janela ao chão, era alto para ela, mas quem era saudável provavelmente não teria problemas de pular de tão baixo que era.
Impossível era levantar as pernas, então jogou o corpo no parapeito e assim que estava sentada olhou de novo para baixo para ter certeza de que queria fazer aquilo, respirou fundo e se jogou sem medo. Caiu deitada e de lado, como havia doído, era insuportável a dor no corpo, mas o sentimento de liberdade era indescritível, ajeitou-se, deitou com a barriga para cima olhando o céu azul e limpo e começou a gargalhar e chorar ao mesmo tempo como se fosse uma louca. Talvez fosse mesmo.
Algumas pessoas foram ao seu socorro, mas quando viram a mulher rindo não haviam entendido, ela estava bem, melhor do que já estivera em muito tempo, ela não chorava agora por causa da dor e da emoção, e sim do riso que era tão gostoso de ser dado. Logo as pessoas foram se afastando dela, achando que ela louca ou que só estivesse rindo do próprio tombo.
A risada foi parando aos poucos, ela tentava recuperar o fôlego enquanto as lágrimas ainda escapavam de seus olhos. O céu nunca fora tão azul para ela e tão vivo, a grama era melhor que qualquer colchão e o ar melhor que qualquer coisa. Olhou em volta e todas aquelas pessoas estavam distantes para pedir ajuda, ela queria se levantar, mas quem acreditaria em alguém com cara de louca e doente?
Virou de bruço buscando alguém com os olhos, uma criança vinha em sua direção até que parou de frente a ela e se agachou para ficar a altura da moça, ela sorriu para a pequena coisa que a encarava.
O menino cutucou sua bochecha, fazendo-a sorrir ainda mais, ela então acariciou a bochecha macia dele fazendo um pequeno sorriso aparecer nos lábios da criança. Tão novo, tão meigo, queria perguntar seu nome e mandar voltar para seus pais, o que não precisou, pois um homem aparecera atrás da criança com um sorriso doce. Ela sorriu de volta para ele.
- Tudo bem, senhorita? Meu irmão não está te atrapalhando?
Ela respondeu um não com a cabeça, estava tão encantada com tudo que parecia um dos sonhos que tivera onde andava livremente e corria pela praia sem que a impedissem.
Fechou os olhos e sentiu o vento no rosto, quando voltou a abri-los o homem continuara ali junto com a criança encarando-a. Tão lindos, queria-os para ela, queria estar com eles. Será que podia confiar? Não, mas ela não se importava também, mesmo que a matassem de forma cruel seria melhor que continuar naquela cama para o resto da vida.
A mulher levantou a mão para o homem que deveria estar na faixa etária dela, pedindo ajuda para que levantasse, tão doce ele a ajudou gentilmente a levanta-la, fora mais rápido do que se ela tentasse sozinha.
Tentou dar o primeiro passo e caiu de quatro, fazendo o homem rir dela, o que a deixou sem graça e ruborizada.
- Acho que temos aqui uma fugitiva de um hospital, não é mesmo? - e riu.
Ele parou de frente dela e a ajudou a levantar ganhando um sorriso leve como resposta da garota, ele não entendia porque ela não respondia, apenas a ajudava.
- Então, senhorita, quer ajudar para sair daqui?
Empolgadamente ela acenou um 'sim' com a cabeça e ele riu daquela euforia da garota que até havia esquecido da dor que sentia, esquecido de todo sofrimento, por mais que estivesse presente ali nela.
- Vamos.
Ofereceu o braço para ela se apoiar na hora de andar enquanto foram caminhando para algum lugar qualquer que ela não se importava e nem queria saber qual era o destino, só queria sair daquele lugar, queria sentir a liberdade, o vento esvoaçando os seus cabelos e o sol queimando a sua pele.
Enfim, liberdade.
Enfim... Liberdade...
ResponderExcluir*ClapClapClap* Muito bom.... vc evoluiu bastante...
É... hospitais realmente enlouquecem os que neles se encontram incapacitados... O sol torna-se mais reluzente após tanto confinamento... Liberdade é a solução.
ResponderExcluirUm conto angustiante mas extasiante, libertário.
ResponderExcluirSeus temas são difíceis, sempre soturnos e dolentes. Mas vá em frente, o melhor caminho é sempre aquele que se segue, dê onde der, incomode a quem for de se incomodar.
Um abraço