Eu disse que estava com frio,
você me abraçou
e me desfiz de seus braços
quentes, aconchegantes e amigáveis.
Chovia.
Ah! como eu amo a chuva,
como eu amo o cinza dela,
como eu amo o cheiro dela,
como eu a amo, apenas.
Corri para baixo dela,
mas eu sentia frio,
e mesmo assim,
quem se importa?
era a chuva que vinha
para nos abençoar.
Abri os braços e rodei
com um sorriso feliz.
As gotas geladas batiam em minha pele,
arrepiei-me toda, não liguei,
era bom sentir aquele arrepio,
era delicioso sentir a chuva passeando
por todo meu corpo,
a sentia em minha alma.
Eu não te quis,
me entreguei ao frio da chuva,
me entreguei ao estranho,
fui fundo em algo que iria me ferir
profundamente,
sangraria até morte.
Não te quero,
quero o irreal, não percebe?
quero a sua amizade,
mas eu quero a dor
do irreal, da ilusão e do sonho.
O cheiro forte da chuva
invadia os meus sentidos,
meu sorriso se abriu.
Eu sintia as pessoas
me olhando como
se eu fosse uma
louca, mas não,
era apenas o amor a chuva,
amor ao sofrimento, a dor
e a irrealidade.
Sonhava com a realidade perfeita;
rodopiava, rodopiava e não cansava.
Parei, olhei para o céu sentindo todos
os sentimentos que podia sentir no momento,
eu não sabia, eu não sabia da dor que me viria
a seguir.
Ele apareceu e eu corri para ele,
mas ele tinha outro.
O que eu faço agora?
Nada.
Olhei para ele,
e ele me sorriu sem graça,
a verdade era que ele não
queria que eu o visse com
outro, não é mesmo?
Mas não, ele não era quem
eu pensava que era,
ele era o meu passado enterrado
e escondido em mim,
e eu demorei para perceber
que ele não era o outro.
De qualquer forma, o
meu passado me feriu,
me feriu pois me rejeitou,
ou será que fui quem o rejeitou?
não sei, só sei que ele me feriu,
pois eu pensei que o fosse o outro
que tivesse me rejeitado.
Onde estava o outro?
Sim, sim, ele estava ali agora pouco,
mas já sumiu.
Não me importei também.
A chuva continuava a cair,
e todos pareciam ter sumido,
e ele já tinha me ferido,
era tarde demais, eu percebi
tarde demais que ele
representava o nada para mim,
mas eu já estava ferida,
já havia me enganado.
O som da chuva era uma música pra mim,
eu estava sozinha de pessoas,
a chuva ainda estava ali comigo,
o cinza, o cheiro e a música
continuavam no mesmo lugar.
Olhei para os lados,
não sabia se corria a procura de alguém,
não sabia se ficava.
Cada vez a chuva aumentava,
e não tinha mais nada para eu dizer,
mas nada para fazer.
Corri, corri, corri.
Nada, nada, nada.
Essa fora a resposta encontrada por mim.
Meu percurso foi frio, dolorido e tenebroso,
não haviam aquelas coisas ali,
não tinha a pobreza, a tristeza e a doença.
Indignada, parei e pensei sobre tudo que tinha visto,
olhei em minha volta e estava no mesmo local
em que tinha dado a partida.
Não acreditei naquilo,
era surreal demais.
Cai de joelhos,
olhando para o céu,
séria, quebrada, estilhaçada.
Fechei os olhos,
respirei fundo
e senti as gotas pesadas
em meu rosto e
confirmei a dúvida...
Eu estava viva.
Minhas mãos descansavam
em meu colo,
eu sentava nas minhas próprias pernas.
Abaixei o rosto e encarei minhas mãos,
não sabia para onde ir,
estava perdida,
sozinha.
Não te quero,
quero a sua amizade,
não quero ficar sozinha,
quero a sua fraternidade.
Tempo que passa rápido,
e eu que demoro a acompanha-lo.
Estava na hora de levantar e ir embora,
estava na hora de me despedir da chuva.
Antes de qualquer pensamento,
qualquer palavra... o alguém passou,
passou, mas antes parou e me estendeu
um guarda-chuva.
Fiquei estática e assustada,
quem era?
Uma explosão de sentimentos me dominou,
eu não estava sozinha, não mais,
sentimentos quentes e frios
se misturaram e eu não soube mais
dizer o que sentia, só sabia que
meu coração acelerava, e se eu pudesse
me ver, meus olhos brilhavam cheios
de emoção.
Levantei vagarosamente, observando
o alguém caminhar de jeito calmo,
não conseguia tirar meus olhos dele.
Sim, aquele ser não era nenhum amigo,
conhecido, amor meu... era um desconhecido,
não era você, nem ele, nem outro ,
o desconhecido era simplesmente o ninguém.
Todo o frio que sentia,
parecia ter se dissipado
com o vento.
Toda solidão que me acompanhava,
parecia ter sido carregada
com o homem.
Quando ele estava tão mais a frente,
quase sumindo,
ele se virou para mim
e me olhou com os olhos
cheios de compaixão
e um sorriso quase que
imperceptível adornava
seus lábios.
E tudo que eu precisava
estava ali.
Virou-se novamente pra continuar
com seu percurso e
eu corri, corri , usei todas as minhas
forças e energias para poder
alcança-lo, toca-lo e
perguntar quem era.
A chuva nem parecia mais estar ali,
nos acompanhando,
parecia que havia só duas pessoas:
eu e o estranho.
Assim que eu o toquei e olhei
em seus olhos, eu descobri:
ele era o irreal, o sonho e a ilusão
que eu tanto tinha.
ela era a personificação do meu deus.
todo o amor e aconchego,
toda dor e solidão
que eu poderia ter...
Tudo estava ali nele, naquele homem
que eu desconhecia, e eu estava
pronta para mergulhar de cabeça
no desconhecido que me sorria
abertamente.
( E antes que eu pudesse
perguntar qual era o seu nome,
acordei.)
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foda, prendeu minha atenção.
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